"Estávamos sem água; não havia o que comer pois os peixes, como que influenciados por uma magia maléfica, não mordiam as iscas ou se deixavam capturar pelas redes que lançávamos ao mar cor cinza. A fome ainda era possível enganar com um punhado de cevada encontrado em alguns dos alforjes dos homens que ficaram para trás colhidos pela morte nas batalhas ou nas tempestades no mar.
Sede. Tínhamos sede e, por beber a água do mar, só a aumentávamos a ponto de alguns, sob o sol a pino, delirar e se atirar para a morte certa no mundo de Posseidon.
De repente, vimos ao longe uma réstia de terra!
Aproamos naquela direção, demos pano ao vento e remamos como se a nossa vida dependesse de cada mergulho dos remos.
Não havia praia. Lançamos na água uma âncora improvisada com uma pedra e os homens puderam ir à terra explorar em busca de víveres. Dessa vez optei por ficar no barco e aguardar o retorno do grupo que partira com ordens expressas de tomar o máximo de cuidado com os viventes naquela terra desconhecida. De nada adiantaria encontrar o que beber e comer se não pudéssemos voltar ao barco, à segurança.
Algumas horas passaram e três dos homens voltou ao barco com boas novas: haviam encontrado comida e água em abundância e, o melhor, havia segurança para passarmos a noite e partirmos ao amanhecer. Assim, nos certificamos que os barcos estavam bem fundeados e fomos à terra".
A vida nos põe à prova o tempo
inteiro.
As tentações para escolhermos o
caminho mais curto; as tendências para sermos negativos.
É no momento mais crítico que isso
acontece... retificando, aconteceu porque fizemos uma ou mais escolhas, lá
atrás. Mas é nesse momento que o “bicho pega”.
Odisseu estava num momento desse: “Se correr o bicho pega, se ficar, come”.
Não havia para onde correr – a caverna estava fechada por uma pedra – e Polifemo, como um enxadrista pronto para decretar “mate” (ou te mato, se preferir), havia dito “xeque”.
Encurralado entre o “sou um bosta, não dou conta” e “meu Deus, o que vão pensar de mim”, a primeira representa o que pensamos de nós mesmos, a segunda, o que os outros pensam da gente, Odisseu precisou pensar fora da caixa.
O fim todos sabem: engenhosamente (e há quem diga “cruelmente”) cegou o ciclope, esperou o rebanho do gigante exigir sair para pastar e fugiu, agarrado ao ventre de uma das ovelhas.
Com certeza, já nos metemos numa situação semelhante prometendo o que não se pode cumprir, sendo imprudente, temerário, soberbo, orgulhoso... (fica à vontade para acrescentar o adjetivo que entender ser pertinente).
Mas por que nos metemos nessas “cavernas de Polifemo”?
Porque estamos em processo contínuo de aprendizado.
Nesse aprendizado descobrimos não é a sagacidade, a esperteza ou “ligeireza” que nos livra das cavernas de Polifemo; é a humildade e reconhecimento do que somos e o que queremos para nós. Assim tomamos as decisões com mais assertividade e evitamos entrar na caverna.
Mas, se na história somos o “Polifemo”?
De boa (e de novo) já sabemos como termina a história... alguém vai nos cegar (achar a nossa pior fraqueza) e nos obrigar a fazer exatamente o que ele quer que façamos.
Ser Polifemo é jogar pra galera gritar “olé”; é ostentar e esquecer que do pó viemos, ao pó voltaremos. E o pior, no fim, colocar a culpa em “ninguém”.
Ser Polifemo é pensar que ter é mais do que ser a ponto de dizermos na intenção de intimidar “sabe com quem está falando?”... aquele “ninguém” vai responder: por que, sofre de Alzheimer?
Cortella diz: “não nascemos ou morremos prontos, estamos e estaremos sempre em construção”. Ora somos Odisseu, ora Polifemo mas, quase nunca, ninguém.
Ser Polifemo é "ter" e se perder sem saber o que é.
Ser Odisseu é carregar o mundo - chamado orgulho ou soberba - nas costas que não serve para nada.
Ser ninguém é "ser", simplesmente.
Qual seria a sua escolha?
Agora, já sabemos que podemos evitar as cavernas assim como não ser um ciclope gigante.


