"A posição do sol me fez entender logo que estávamos indo velozmente para o sul. O vento soprava com força, o seu ímpeto enchia as velas, as vezes rasgando-as, tanto assim que amiúde tivemos de substituí-las; nuvens negras galopavam no céu, e repentinos pés-d ’água nos investiam. Impossível mudar de rota, nem sequer recolhendo as velas e recorrendo aos remos. O próprio mar corria, tumultuoso, naquela direção, com altas ondas, lívidas, fervilhantes de espuma. Vimos Cítera a boreste... passamos ao largo, o vento nos empurrou para longe... força alguma poderia se opor à do vento e das ondas. Navegamos por nove noites e nove dias na tempestade, sem nunca parar. Os companheiros não podiam pescar, como costumavam fazer nos dias de navegação normal, puxando redes ou jogando ao mar a linha com sementes de cevada torradas como isca. Quase não tínhamos comida. O pesar, a raiva e a tristeza enchiam o meu coração de dor. No décimo dia o vento esmoreceu quase de repente, o mar se acalmou. Rasgos de luz dançavam em volta dos navios, negras manchas gotejantes na imensidão azul. Mandei baixar os remos para seguir em frente... Na certa, a terra não deve estar longe: Há pássaros no céu, e dá para sentir o cheiro dela no ar. Esse cheiro era de ervas aromáticas que eu não conhecia, mas não conseguíamos ver coisa alguma: à nossa frente, só uma espessa névoa ... entramos nela".
Aqui começa uma das mais emblemáticas passagens que a odisseia conta: A ilha dos lotófagos. Porém, se atentem a um fato que normalmente passa desapercebido: “Eles adentram em uma espessa névoa”.
O que surgiu do outro lado, aos olhos de Odisseu, parecia bizarro: Terra com árvores semelhante a palmeiras, pequenos bosques de tamargueiras e criaturas que nunca tinha visto antes. Pareciam pequenos homens peludos, com rabo. Olhos reluzentes, penetrantes, perturbadores. Ganiam, chiavam, berravam, pulavam de um galho para outro.
Assim que alcançaram o leito de areia da praia, desembarcaram.
Odisseu ordenou que alguns homens fossem em busca de água e comida com ordens de voltarem assim que encontrassem o pretendido. Uns foram em direção ao ocidente, outros ao oriente. Os demais foram encarregados de lançarem as redes para obter algum pescado.
Aquele lugar era diferente de tudo que já vira até então; O ar era diferente; a luz parecia provir de outro sol, o tempo tinha momentos em que parecia comprimido, oprimente, para então expandir-se até ficar suspenso, infinitamente dilatado.
“Naquela terra maravilhosa o tempo tinha parado na idade do ouro, manadas de animais pastavam, incontáveis, até onde os olhos podiam alcançar: milhares e milhares de cabeças. Não pertenciam a ninguém, portanto, pertenciam a todos. E havia fruta de todos os tipos nas árvores. No horizonte, nuvens tempestuosas soltavam raios do céu para a terra, e colunas de água desciam a fertilizar a planície sedenta. Uma terra desmedida...”
Havia também uma questão urgente para ser resolvida, a flotilha havia adentrado no muro de névoa com sete embarcações e saído do outro lado com três: Onde foi parar quatro dos navios e seus homens?
Os grupos foram despachados e, dos que ficaram, uma pequena patrulha escalou um pequeno rochedo próximo que dava vista para duas praias vizinhas e, numa delas, as quatro embarcações desaparecidas lá estavam devidamente ancoradas, velas recolhidas e com seus equipamentos ajustados para uma saída iminente, porém, sem ninguém dentro ou fora.
Odisseu ordenou que levassem as três outras embarcações para o lado das quatro reencontradas e que as deixassem prontas para a partida – a ideia era encontrar os homens e suprimentos e zarpar de imediato dali. Assim, juntou um grupo de soldados e partiram atrás dos companheiros desaparecidos.
Seguiram as pegadas e chegaram a um vale verde que emoldurava um pequeno lago com milhares e milhares de palmeiras a sua volta. Nas margens desse vale havia amplas lavouras cultivadas e campos repletos de flores vermelhas carnudas como frutos. Havia dúzias de galpões cobertos por feixes de ervas secas. Mais ervas entrançadas, formando volumosas meadas, estavam enroscadas como cordas nas bordas das lavouras. As crianças nadavam no lago, as esplêndidas mulheres perambulavam completamente nuas, de altos quadris, pernas torneadas, pele escura.
Os homens estavam quase todos reunidos numa ampla clareira à margem do vilarejo, em volta de um grande monólito de pedra vermelha. Tocavam seus instrumentos, flautas e tambores, e cantavam.
Os companheiros de viagem de Odisseu, também.
E eles contaram que ao chegarem na praia, perceberam que haviam se separado do comboio então deixaram tudo pronto para voltar ao mar assim que se reunissem novamente. E foi nesse momento que os habitantes daquela terra os receberam com várias cestas contendo alimento para aplacar a fome; esse alimento era a flor vermelha. Decidiram seguir aquelas pessoas, e lá estavam desde então, despreocupados e felizes.
Cabe aqui uma observação sobre as condições em que se achavam os homens de Odisseu: Estavam longe de casa e lutaram em uma guerra insana, por mais de dez anos; sofreram e ainda sofriam de traumas ligados ao estado de alerta intermitente; muitos traziam no corpo marcas de ferimentos profundos e já não sabiam mais o que era ter um teto para passar o sono a noite ou o convívio em família; eram uma sombra do que foram quando saíram de Ítaca.
E esses mesmos homens agora podiam sentir paz e... o esquecimento.
A flor de lótus, vermelha, lhes davam esse anestésico; simplesmente deixavam de sentir e, com efeito, esquecendo suas dores e medos, podiam ter paz; era o ópio que desatava todos os laços que existiam entre eles e o passado.
Nenhum deles quis voltar aos navios.
E, para tanto, Odisseu precisou amarrá-los uns aos outros enquanto dormiam entorpecidos e os arrastou para fora dali literalmente pelas cabeças, agarrando-os pelos cabelos!
Muitos de nós recorremos diariamente a remédios que induzem o sono, ansiolíticos e antidepressivos. Em nosso tempo, bombardeados por informações na velocidade da internet, com a sensação de que o dia tem cada vez menos que as vinte e quatro horas que deveria ter.
Passamos boa parte da nossa vida com propósitos imediatos e que não raras vezes são alcançados, gerando frustrações e medo de não conseguirmos mais dar conta da batalha que a cada dia fica mais difícil.
Tudo é para já e descartável... inclusive nós mesmos.
E, o grande problema de procurarmos “muletas” nas terapias de fármacos, é que desaprendemos a andar com as próprias pernas.
A privação do sono dói; imagine isso por dias, semanas e meses... por toda a vida! Então se justifica buscarmos a “nossa” muleta, porém a que custo?
Veja, não estou criticando quaisquer terapias, terapeutas e terapeutizandos, estou mostrando o que acontece quando suprimimos nossa força vital, desistimos de “ser” ao invés de buscar novos e melhores objetivos de vida e, o pior, optamos por “esquecer” quem somos, de onde viemos e para onde vamos.
Nos tornamos, por vontade própria (ou ausência dela) imprestáveis; a memória? Só há o esquecimento; fazemos mal aquilo que fomos preparados e éramos muito bons em fazer; deixamos de viver e passamos a só morrer junto com as horas do tempo.
Propósito!
Não será a única vez que abordarei essa questão nos textos dessa coletânea mas confesso que também perco de vista o meu objetivo, aquele que define a minha existência, que me faz acordar todos os dias (não me refiro ao despertador do relógio, por favor) – aquilo que não posso esquecer jamais!
E, se alienando, a gente esquece... e, para voltar a lembrar e voltar a ser o que nunca devíamos ter deixado de ser, é uma jornada muito difícil e arrisco a dizer que é igual ou até pior do que teríamos de enfrentar para evitar chegarmos no estado que estávamos, vivendo uma vida vazia e sem sentido.
"Viver é foda", dizia Renato Russo, mas desistir dela não é uma escolha.
Voltando para a estória de Odisseu, que também estava traumatizado pela guerra e com uma angústia sem tamanho por carregar em seus ombros peso descomunal que um rei carrega ao saber que terá de levar seus homens de volta onde os tirou – ele não experimentou da flor mágica que faria o seu padecimento desaparecer; e mais, proibiu a todos que consumissem daquela flor. Ele vaticinou sobre os efeitos nefastos sobre aqueles que dela experimentassem, principalmente quando precisassem de toda destreza, sagacidade e memória (esperteza, mesmo) num momento de aperto e urgência.
Entretanto, com o coração constrito de um pai pelo pesar da perda de tantos filhos nos combates da guerra e na última desventura com os cícones, sentiu o peso de sua responsabilidade ao avaliar, já em seu navio e de volta ao mar, se não teria sido melhor para os seus homens terem ficado ali, naquela terra pacificada pelos efeitos de uma flor, esquecidos dos traumas da guerra, sem nenhuma ambição, simplesmente sem propósitos. Como depois ponderou, ao menos estariam vivos e, ele Odisseu, não carregaria a culpa de seu perdimento.
Ah, sobre a névoa, veja o que o poeta, ilustre lisboeta poderia ter dito:
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”
Fernando Pessoa



Um comentário:
Adorei !!!!!!
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