Eu, Odisseu, filho de Laertes, Wanáx
de Ítaca e seu povo, protegido de Athena, destruidor de cidades, finalmente
após dez longos anos de luta e sangue derramado, voltarei para a minha amada
ilha.
Dos doze navios que trouxe há dez
anos, somente sete retornarão; Seus soldados pereceram na guerra.
Ílio sucumbiu.
Levaremos, alojados nos
compartimentos da proa, os saques de tesouros e produtos aos quais por direito
nos foi partilhado.
Mas, ainda que o meu coração me
arraste mar afora buscando o caminho de casa, para a minha mulher e filho,
sinto que os despojos conquistados são insuficientes, incapazes de apaziguar e
compensar os meus homens que agora voltam e as famílias daqueles que jazem em
Tróia. Foi tempo demais, sangue derramado demais; Ouro e prata de menos.
O regresso começou e todos os aqueus seguiram o
caminho de casa. Odisseu, assim que conseguiu reunir todos os seus, após as
exéquias aos que pereceram, partiu das praias troianas com as velas enfurnadas
pelo vento mais favorável.
Seguiu para o norte e logo vislumbrou a Trácia, povo que lutou ao lado dos troianos.
Os homens, ainda acostumados às refregas dos combates, logo pediram pelo ataque e, motivados pela possibilidade de obterem mais para levarem como prêmio, assim que a proa do navio roçou o leito de cascalho da praia, desembarcaram e investiram contra aquele inimigo que, estranhamente, não ofereceu qualquer resistência; Todos que enfrentaram os gregos naquela tarde eram idosos ou jovens demais.
Pilharam o que acharam em ouro, prata e mercadorias... escolheram entre as mulheres as mais belas que seriam suas concubinas ou escravas.
Odisseu percebeu a facilidade do empreendimento e tentou entender o que estava acontecendo; Concluiu que os trácios não lutaram com sua força plena; Muitos que haviam retornado da guerra em Tróia estavam nas colinas ao longe cuidando dos olivais e rebanhos e que, de alguma forma, seriam avisados pelos que ficaram e não tardariam a voltar em socorro.
O anoitecer escondeu o sol. Nas colinas, descendo, podia-se ver as tochas, cada vez mais numerosas.
Os homens de Odisseu já estavam em pleno festejo pela fácil vitória e pela farta coleta e assim passaram a noite enquanto aqueles sinais luminosos mostravam que a real resistência em breve chegaria. Quanto mais rápido eles saíssem dali, seria melhor... mas não foi assim que aconteceu.
Amanheceu.
Para desespero de Odisseu, os seus homens
embriagados, mal se aguentavam em pé. Em pouco tempo os trácios formaram uma
linha na praia que encurralou os gregos entre o rochedo e o mar.
Foi dado o alarme e, ainda ébrios, com a adrenalina reavivando a atenção, como soldados experimentados numa longa guerra, prontamente formaram uma linha para enfrentar o inimigo. Era como se revivessem os dias das paliçadas nas praias de Tróia.
Se o combate na tarde anterior havia sido fácil, dessa vez não seria.
Percebendo que os trácios eram cada vez mais numerosos e as baixas entre os gregos também, Odisseu ordenou que parte dos homens manobrassem os navios que, por imprevidência, permaneciam com a proa na praia. A retirada e fuga era a única alternativa para evitar a derrota total e iminente.
Os trácios eram habilidosos no combate corpo a corpo e perceberam a estratégia de Odisseu, passando a utilizar flechas incendiárias para alvejar as embarcações. Duas delas foram consumidas rapidamente pelo fogo.
Com muito sacrifício de sangue e despojos, conseguiram resgatar os homens das embarcações incendiadas nas cinco restantes e fugiram para mar aberto; Odisseu não acreditava no que via... havia perdido muitos homens... e, por tão pouco... ou nada.
Qual é a hora de fazer a paz?
Por que estar o tempo todo na defensiva contra aqueles que achamos ser nossos inimigos?
Por que deixamos a arrogância nos cegar e buscamos, então, justificativas para perpetrar através da violência, a imposição nossas convicções formadas num passado que é uma pálida imagem que não nos deixa ver a mudança do presente?
Por que sempre achamos que o que conquistamos é insuficiente e tendemos a cobiçar o que é do outro?
Os cícones (trácios) representam a primeira
parada das muitas que Odisseu fez em seu retorno à Ítaca; Cada parada simbolizou
as que o homem precisa fazer em sua jornada (vida) para depurar suas
imperfeições; A prepotência e a arrogância, assim como o desprezo pelo outro
ainda que valoroso oponente, são a origem dos embates desnecessários e de
amealharmos inimigos ao invés de aliados.
O astucioso Odisseu usava a mente capaz de múltiplos engenhos para potencializar as coisas da matéria, ou seja, as paixões.
Igual fazemos em nossa jornada, não se iluda.
Toda vez que fazemos escolhas e não observamos o equilíbrio da razão, fracassamos.
Igual a Odisseu frente aos trácios.





