domingo, 30 de agosto de 2020

O regresso

 



Eu, Odisseu, filho de Laertes, Wanáx de Ítaca e seu povo, protegido de Athena, destruidor de cidades, finalmente após dez longos anos de luta e sangue derramado, voltarei para a minha amada ilha.

 

Dos doze navios que trouxe há dez anos, somente sete retornarão; Seus soldados pereceram na guerra.

 

Ílio sucumbiu.

 

Levaremos, alojados nos compartimentos da proa, os saques de tesouros e produtos aos quais por direito nos foi partilhado.

 

Mas, ainda que o meu coração me arraste mar afora buscando o caminho de casa, para a minha mulher e filho, sinto que os despojos conquistados são insuficientes, incapazes de apaziguar e compensar os meus homens que agora voltam e as famílias daqueles que jazem em Tróia. Foi tempo demais, sangue derramado demais; Ouro e prata de menos.

 

O regresso começou e todos os aqueus seguiram o caminho de casa. Odisseu, assim que conseguiu reunir todos os seus, após as exéquias aos que pereceram, partiu das praias troianas com as velas enfurnadas pelo vento mais favorável.

Seguiu para o norte e logo vislumbrou a Trácia, povo que lutou ao lado dos troianos.

Os homens, ainda acostumados às refregas dos combates, logo pediram pelo ataque e, motivados pela possibilidade de obterem mais para levarem como prêmio, assim que a proa do navio roçou o leito de cascalho da praia, desembarcaram e investiram contra aquele inimigo que, estranhamente, não ofereceu qualquer resistência; Todos que enfrentaram os gregos naquela tarde eram idosos ou jovens demais.

Pilharam o que acharam em ouro, prata e mercadorias... escolheram entre as mulheres as mais belas que seriam suas concubinas ou escravas.

Odisseu percebeu a facilidade do empreendimento e tentou entender o que estava acontecendo; Concluiu que os trácios não lutaram com sua força plena; Muitos que haviam retornado da guerra em Tróia estavam nas colinas ao longe cuidando dos olivais e rebanhos e que, de alguma forma, seriam avisados pelos que ficaram e não tardariam a voltar em socorro.

O anoitecer escondeu o sol. Nas colinas, descendo, podia-se ver as  tochas, cada vez mais numerosas.

Os homens de Odisseu já estavam em pleno festejo pela fácil vitória e pela farta coleta e assim passaram a noite enquanto aqueles sinais luminosos mostravam que a real resistência em breve chegaria. Quanto mais rápido eles saíssem dali, seria melhor... mas não foi assim que aconteceu.

 

Amanheceu.

 

Para desespero de Odisseu, os seus homens embriagados, mal se aguentavam em pé. Em pouco tempo os trácios formaram uma linha na praia que encurralou os gregos entre o rochedo e o mar.

Foi dado o alarme e, ainda ébrios, com a adrenalina reavivando a atenção, como soldados experimentados numa longa guerra, prontamente formaram uma linha para enfrentar o inimigo. Era como se revivessem os dias das paliçadas nas praias de Tróia.

Se o combate na tarde anterior havia sido fácil, dessa vez não seria.

Percebendo que os trácios eram cada vez mais numerosos e as baixas entre os gregos também, Odisseu ordenou que parte dos homens manobrassem os navios que, por imprevidência, permaneciam com a proa na praia. A retirada e fuga era a única alternativa para evitar a derrota total e iminente.

Os trácios eram habilidosos no combate corpo a corpo e perceberam a estratégia de Odisseu, passando a utilizar flechas incendiárias para alvejar as embarcações. Duas delas foram consumidas rapidamente pelo fogo.

Com muito sacrifício de sangue e despojos, conseguiram resgatar os homens das embarcações incendiadas nas cinco restantes e fugiram para mar aberto; Odisseu não acreditava no que via... havia perdido muitos homens... e, por tão pouco... ou nada.

 

Qual é a hora de fazer a paz?

Por que estar o tempo todo na defensiva contra aqueles que achamos ser nossos inimigos?

Por que deixamos a arrogância nos cegar e buscamos, então, justificativas para perpetrar através da violência, a imposição nossas convicções formadas num passado que é uma pálida imagem que não nos deixa ver a mudança do presente?

Por que sempre achamos que o que conquistamos é insuficiente e tendemos a cobiçar o que é do outro?

 

Os cícones (trácios) representam a primeira parada das muitas que Odisseu fez em seu retorno à Ítaca; Cada parada simbolizou as que o homem precisa fazer em sua jornada (vida) para depurar suas imperfeições; A prepotência e a arrogância, assim como o desprezo pelo outro ainda que valoroso oponente, são a origem dos embates desnecessários e de amealharmos inimigos ao invés de aliados.

O astucioso Odisseu usava a mente capaz de múltiplos engenhos para potencializar as coisas da matéria, ou seja, as paixões.

Igual fazemos em nossa jornada, não se iluda.

Toda vez que fazemos escolhas e não observamos o equilíbrio da razão, fracassamos.

Igual a Odisseu frente aos trácios.

domingo, 16 de agosto de 2020

As origens

 



Abenoados sejam os ciclos da carruagem do sol sob o tempo de Chronos.

Abençoados sejam os ciclos da carruagem do sol sob o tempo de Chronos.


As origens

 

Odisseu (Odisseu) recebeu esse nome que significa “filho da raiva”, de seu avô materno, Autólico, rei de Arcânia. Filho de Laertes e Anticleia.


Laertes, filho único de Arcésio, foi um dos Argonautas, na epopeia de Jasão na busca do tosão dourado. Como rei de uma pequena ilha, buscava de tempos em tempos, sair em busca de tesouros, empreendendo viagens ao lado de outros bravos reis e guerreiros.


No pouco tempo que passava em casa, Laertes contava ao filho histórias, atiçava nele a imaginação e fazia querer crescer logo para ganhar o mundo.


Anticleia era filha de Autólico, que era tido como o mais ladino dos homens, o mais formidável ladrão da época. Era frio e cruel, marcando a vida de Odisseu com ensinamentos quanto ao que diferencia um homem de um animal. Temiam Autólico como a um lobo de tal forma, que tinha a fama de ser um “homem lobo”.


Desde muito pequeno, Odisseu levou uma vida diferente dos demais. Ao invés de ficar próximo de seus pais, sempre estava acompanhado de sua babá ou de seu mentor. E, esse importante personagem mostrará que é, na verdade, a manifestação da deusa Atena, construindo o caráter do jovem príncipe de Ítaca com virtudes que farão dele um homem astuto e confiante. 


Há também quem diga que o nome Odisseu significa também “aquele ferido na coxa” e, de fato, na primeira vez que deixou a ilha de Ítaca, em visita ao seu avô, se viu em uma caçada a um javali que terminou com o abate do gigantesco animal sem que, antes, fosse atingido por uma das presas na coxa direita. Algumas releituras impingem à Autólico a autoria do ferimento.


Mal havia chegado de sua primeira viagem, Odisseu foi convidado a acompanhar o pai em uma longa jornada. Nela conheceu uma jovem que parecia sobre-humana devido à perfeição de seu rosto, dos olhos com reflexos violeta. Era Helena de Esparta. Ao longo desta grande viagem, Odisseu cresceu, não apenas com os ensinamentos do pai, mas pelas vivências que o aguardavam em tantos lugares diferentes pelos quais passaria.


Foi nessa viagem que fez contato pela primeira vez com a sua deusa, percebendo que possuía o dom da premonição e da intuição.


Ao passarem por Micenas, reino de Euristeu, Odisseu e Laertes tomam conhecimento do drama vivido por Héracles que, dopado pelo primo e rei, acreditou ter trucidado sua própria família – a esposa Mégara e dois filhos. Euristeu fez com que o oráculo de delfos lhe obrigasse a uma pena que previa doze perigosíssimos trabalhos. 


Coube aos viajantes de Ítaca a missão de levar a única testemunha da grande ignomínia para que esta contasse a Héracles o que havia de fato ocorrido.


Durante a jornada, a pedido da esposa Anticleia, Laertes leva o jovem filho na caverna onde, ao passar a noite, seria testado para saber se, por ser neto de Autólico, o homem lobo, seria também um.


A viagem era, na verdade, um ritual de passagem, do menino Odisseu para o homem que seria rei de Ítaca.


Na volta para casa, sentiu-se estranho. Parecia não caber mais na ilha, tão pequena e apertada. “Fique calmo, dê um tempo, vá pescar com seus amigos, dentro em breve ficará novamente acostumado com Ítaca”, lhe garantiu o pai, experiente em idas e voltas.


As trajetórias de Odisseu e Helena voltariam a se cruzar poucos anos depois, quando a bela moça de 17 anos é pedida em casamento por diversos príncipes. Mentor sugere que Odisseu também seja um pretendente, algo que ele não deseja de todo coração. Apesar disso, viaja a Esparta, para interferir na grande batalha que está se formando. Os príncipes estão dispostos a derramar sangue na disputa por Helena. É neste momento da história que todos ficam conhecendo a perspicácia do jovem príncipe de Ítaca. E, também, é o momento em que ele encontra o amor de sua vida.

Em tratativas com Tíndaro, rei de Esparta e pai de Helena, expõe seu raciocínio e sugere que ao invés de uma disputa de forças, que facilmente se transformaria em combates pessoais, que a princesa escolhesse entre os pretendentes aquele que ela consideraria como seu predileto. E essa escolha seria precedida por um juramento de anuência entre todos os jovens pretensos que previa, entre outras cláusulas, a união de forças para auxiliar o escolhido caso ele viesse a ser impedido de perpetuar seu matrimônio com a princesa espartana. Tíndaro concorda e incube a Odisseu a missão de organizar e dar cabo ao concílio.


Os jovens príncipes de toda Acaia aceitam, firmam o juramento e ocorre o pleito.


Helena escolhe Menelau.


Odisseu não desejava ser o consorte de Helena. Algo o intuía sobre o que viria acontecer a quem desposasse a mulher mais linda do mundo.


Durante o concurso, conhece Penélope, filha de Icário, irmão de Tíndaro e, portanto, prima de Helena. Com ela se casa e voltam para Ítaca.


Autólico, sabendo das núpcias do neto, o convida para visita-lo em seu palácio, na Arcânia. Seria a última vez que Odisseu veria o avô que lhe presenteou com uma arma especial, um arco que só era montado pelo verdadeiro dono dele, não importava o quanto o pretendente a usá-lo fosse forte. Ao entregar a arma ao neto, Autólico falou com ênfase: “nunca tire esse arco de sua casa”.


Odisseu e Penélope passaram a viver no palácio de Laertes, em uma ala construída pelo próprio Odisseu que fez sua cama em uma oliveira que foi preservada dentro da edificação.


Laertes percebendo o grande valor do filho, decidiu fazê-lo rei e se retirou para o interior do seu reino, prometendo a auxiliar o jovem wanáx sempre que ele precisasse.


Então chegou uma visita inesperada ao palácio: Menelau.


Helena havia sido raptada por Páris, príncipe de Troia e levada para Ílio. Menelau exigia que Odisseu convocasse os príncipes que haviam jurado a reciprocidade para que todos fossem resgatar sua esposa.


Odisseu honrou seu compromisso e assim procedeu convocando todos os signatários, partindo da Acaia, algum tempo depois, com seus doze navios e homens para se juntar ao exército grego e frota que já eram em milhares com destino às muralhas de Ílio.

Odisseu prometeu à sua rainha e esposa, Penélope, que voltaria. Deixou o porto de Ítaca acenando para a esposa e filho, o pequeno Telêmaco.


Foram dez anos de derramamento de sangue contínuo.


Pereceram heróis troianos como Heitor, Anfímaco e Enéias.


Foi a guerra que matou Aquiles... Pátroclo e Ajax, além de incontáveis vidas de guerreiros e, no fim, de toda uma cidade incluindo a família real.


Foi de Odisseu a ideia do engodo, o cavalo de madeira que em seu ventre, carregou os que conseguiram dominar a guarda e abrir os portões da cidade.


Esse é o resumo dos motivos que levou Odisseu à Troia e lá, se transformou no guerreiro, quase esquecendo de quem era.


Esse é o resumo da Ilíada.


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O meu nome é ninguém

 

Eu tinha um sonho.

Quando li sobre a guerra de Tróia e o famoso cavalo de madeira, já havia  assistido na TV, ao lado do meu pai o filme com Kirk Douglas, "Ulisses". 

Fiquei fascinado pela trama e drama de Homero, a ponto de buscar em todos os livros sobre mitologia, as jornadas de Jasão, Hércules, Teseu, Perseu... e, nas prateleiras da biblioteca da escola, livros com esses temas eram presente na minha lista de empréstimos, juntamente com os de Júlio Verne.

Eu não fazia ideia... mas descobri, bem depois, que estava sendo educado como os da velha Acaia foram: através de contos, com a função de incutir em nossas cabeças lições de moral, ética, lógica... provocando em cada um dos leitores - e sorte daqueles que assim eram ainda crianças - a liberdade verdadeira, a de pensar.

Você já velejou? Teve a sorte de sentir o sol e o sal? Percebeu os elementos dos quais dependemos para empreender a viagem? 

O vento (ar) que dá força ao velame; A água que dá a superfície e a profundidade; a terra (o sólido da embarcação) que nos permite perceber o equilíbrio ou a base e o sol (fogo), que durante o dia marca o tempo e a direção do oriente ao ocidente e, a noite, representado por todas as outras estrelas da abóbada celeste, a orientação.

Amyr Klink em seu livro "Cem dias entre céu e mar" disse que ao construir o seu barco para a travessia do atlântico a remo, o IAT, foi orientado a equipar internamente a embarcação com acabamento em madeira porque assim teria a sensação de vida a bordo, mitigando a solidão durante a travessia.

Um barco de madeira, desde sempre, é vida.

Parece que o espírito da árvore que cedeu o madeiramento se apossa da embarcação, dando a vida, e não foi sem um propósito que os barcos gregos possuíam rosto em sua proa e a escultura do busto de deuses na popa. As embarcações europeias transoceânicas, dos séculos XVI ao XIX possuíam em suas proas, a anima, esculturas de beldades e outros símbolos que os marujos aprendiam a venerar.

E um barco de madeira fala com quem o conduz. Feliz, singra as ondas e vagalhões lançando ao ar e no rosto o salgado que nos lembra as lágrimas de felicidade. Com medo, range e chora, quando a borrasca é quase insuperável. Silencia, quando vai finalmente ao fundo, gelado e escuro do mundo da morte das embarcações. 

Odisseu usou a madeira de uma embarcação para construir o famoso cavalo que representou a ruína de Ílio e dos Troianos.

Aquele sonho, então, era o de construir uma embarcação com o espírito como o da madeira, para quem ousar singrar as ondas do oceano tão conhecido, descubra aquilo que os meus olhos viram e, se permitam, a fascinação.

Recentemente adquiri os dois livros de Valerio Maximo Manfredi, "O meu nome é ninguém" (O juramento/O regresso) - Editora Rocco. Li com vontade, e me deliciei traçando paralelos com o ensinado para mim, há muitos anos, pelo querido Professor  Ricardo Buonanni, através de um workshop chamado "Transformando sonhos em realidade". Professores Ricardo e Valerio, peço humildemente as vossas vênia e anuência para transformar o meu sonho em realidade.

Os posts serão semanais e, como não sou escritor, penso que poderei editá-los caso encontre alguma imperfeição ou, melhor, se descobrir no tema algo que vale a pena ser destacado e que poderia estar esquecido.

Boa viagem a todos!