sexta-feira, 20 de março de 2020

Vacina? Não, vexame


Capitain´s log - Data Estelar 20032020 - Estamos correndo para descobrir um agente imunizador para salvar as vidas da tripulação da nave. Fomos acometidos de um vírus para o qual não temos defesa. Cada minuto conta para salvarmos uma vida.



E foi assim a primeira epidemia da minha vida...
Eram dias de sol em 1975 e chegou a notícia que teríamos de tomar vacina!

Não tava nem aí para a doença que tinha nome de mulher – meningite, brigite, judite - eram todas irmãs ou não e eu iria para o cadafalso por isso. Oh, suplicio! Agulha de injeção penetrando lentamente na pele do músculo deltoide (ainda que não fosse nos glúteos, iria doer barbaridade... e talvez não sobrevivesse ao procedimento!)... depois o inchaço, com vermelhidão e que ficava quente que nem queimadura.

Havia ainda quem dissesse que os efeitos nefastos poderiam descer pelo braço e antebraço, deixando a mão inchada que nem os pés de quem sofria de elefantíase.

A fila não andava.

Daí um rapaz disse que teríamos de tomar duas doses porque para atender a todos – era uma baita epidemia – “deram uma rareada na vacina com álcool” – então seriam duas doses tomadas com alguns dias de intervalo. O quê? Com álcool? Aquele que dói que nem mertiolate na ferida aberta? Taí, querem me matar com nuances de crueldade!!!

A fila não andava mas a ansiedade sim... e a cada tic ou tac do relógio, ela se agigantava.

Aí apareceu o primeiro camelô... vendia cocada puxa-puxa...
mãe, compra pra mim?  
Não. Você vai ficar com sede e aqui não tem onde tomar água!
Ah, mãe, compra, vai? É daquele sabor que você gosta!
Nem vem. E levantava a mão num gesto de quem ia dar com a palma na orelha mais próxima.

A fila não andava e já começava a perder o jeito de fila. Era um que ia no banheiro e sumia, outro que botava um “côco” (isso mesmo, um côco) guardando o lugar dele e ia conversar com dona fulana de tal, o pessoal de idade improvisava qualquer canto de banquinho para descansar as “cadeiras”, a criançada corria pra cá, corria pra lá, chutavam um treco como bola – eu pensava comigo que eram loucos ou ignorantes do real perigo que lhes acercavam e lhes atingiriam o braço a qualquer momento.

De repente a fila andou uns 10 passos.

O coração disparou! Era o fim chegando!
Mas foi rebate falso. Uma discussão lá na frente havia dispersado uns litigiosos e havia aberto umas vagas extras na fila.

Apareceu outro camelô. Vendia biju – um tubo de biscoito ultra fino como uma folha de papel de seda. Lembrei que uma vez na praia o meu pai comprou pra gente... não dava nem pra segurar; uma mordida e aquilo se desfazia como um papiro da época do matusalém.

E a fila não andava.

Uns meninos como eu estavam dando uns petelecos numas bolinhas de gude improvisadas de tampinha de garrafa. Fui lá ver e me deixaram dar uns petelecos também... Então veio um garotão de uns 14 anos – para mim era ancião – e deu um chutão no terreiro espalhando o jogo por metros de distância e levantando um poeirão... descobri que era irmão mais velho de uns dos meninos que lhe deu uma voadora tentando acertar-lhe o pé da orelha... tentou... mas não conseguiu. Conseguiu, sim, irritar o grandão que lhe saiu no encalço e desapareceram praça afora.

Estávamos numa praça. Ali ficava uma escola pública onde haveria a “campanha de imunização contra a meningite”. Acreditava-se que por ser numa escola infantil, a imunização seria para as crianças e, se sobrasse, para idosos. Eu torcia, enquanto esperava, que todos deveriam ser vacinados independentemente da idade... hã? democrático? Não. Era para que quanto mais fossem vacinados – de preferência antes de mim – menor a chance do estoque de doses ser suficiente até chegar a minha vez.

E o tempo passava, a fila, nem um centímetro adiante.

Fiquei maquinando um jeito de sumir dali... "Eu ia esperar até chegar bem pertinho, dar uma desculpa do tipo - mãe, preciso ir fazer xixi - e enveredar pelos banheiros da escola, me trancar num box e sentar na privada até não dar tempo de eu voltar pra fila pra ser vacinado", digo, inoculado (uma palavra que descobri que existia naquela epidemia).

Já eram umas cinco, cinco e meia... o sol já não tava mais no céu. E as nuvens de chuva chegaram de mansinho e derramaram sobre a praça um toró daqueles. Ali descobri que Deus existia e que olhava por mim. Foi uma correria porque ninguém andava de guarda-chuva ou sombrinha (nunca soube qual a diferença um do outro) na bolsa. Era Olinda, Pernambuco! Chovia? Claro! mas nunca ocorreu a ninguém ali, parado numa fila – parada – no meio de uma praça, que iria chover, né? E aí eu pensei “Oba! Vamos pra casa, não vai ter mais vacinação, coisa nenhuma!”... pensei.

A chuva passou da mesma forma que veio; Ficou a lama e voltamos pra fila.

E as pessoas voltando pra pegar de volta o lugar e era um tal de “eu tava aqui!” e outro retrucando “não tava não! Quem tava aí era a fulaninha de tal!” e aí a coisa foi ficando descontrolada, as pessoas já não falavam, gritavam. Cansadas e irritadas, não tinham nem os “murinhos” onde se sentavam ou se escoravam pois tava tudo molhado. A lama e as poças de chuva viraram piscinas para os menorzinhos que, para desespero e gritaria das mães, chafundarvam nelas como ... bem, você deve ter imaginado aí, desnecessário completar a descrição. Outros moleques, estes sim dá pra dizer, com espírito de porco, jogavam côcos como bombas nessas poças, espalhando o líquido barroso pra tudo quanto era lado. E isso tudo era receita para o caos que em breve se instalaria.

Ocorre que quando não tem controle oficial e competente, “um pé de frango faz um virado” e, nem sei se foi assim, mas deixa eu inventar pra poder terminar a estorinha... “Uns desocupados, daqueles que tiraram a camiseta na hora da chuva pra não molhar e depois amarraram na cabeça fazendo delas turbantes, achou que seria “engraçado” dar um empurrão num desavisado da fila para que ele caísse sentado na água suja das poças. Escolheram um coitado e assim o fizeram, saindo correndo como uns índios do velho oeste empurrando uns e outros, trepando por cima de canteiros e árvores, uma doideira de assustar qualquer um. Mas revidaram, com socos e pontapés, e aquilo virou uma batalha campal.

A minha mãe viu a balburdia e nos levou para o carro, estacionado no quarteirão próximo dali... que alívio! Eu não seria mais invadido por uma agulha em ato contínuo e dolorido de fazer qualquer um confessar até os pecados de outro. 

Entramos no carro; as minhas irmãs chorando copiosamente assustadas; todos enlameados até os joelhos... Ela deu partida e saiu e desabalada carreira dali. Conforme se distanciava, dava pra ver senhoras e suas crianças levadas pelas mãos, correndo, fugindo do caos instalado e que havia permanentemente cancelado o evento inoculador.

Já estávamos a meio caminho de casa quando, de repente, a minha mãe parou o carro e deu meia volta. Nesse momento o meu coração só faltou pular pela boca – será que vamos voltar pra lá? Pra maldita agulha, afiadíssima e causadora de dores inimagináveis?

Ela virou numa esquina, em outra, e novamente e... parou na frente do quartel da polícia do exército. Não preciso mencionar o que um pelotão da PE impunha de respeito naqueles anos, então usem a imaginação para a cena que vou descrever:

- Olha aqui moço, cadê o comandante do quartel?
- Senhora, não pode parar o carro aqui, é uma zona militar e...
- Moço, quem é o capitão, coronel, major, general, tenente que manda aqui?
- Senhora, não pode...

Eu pensei que iriamos ser presos ali mesmo, e sem direito nem para tomar banho.

- Moço, eu e meus filhos estamos vindo lá da praça da campanha de vacinação, tá uma batalha campal por lá! Tem gente machucada, e estão quebrando a escola toda! Alguém tem de fazer algo pelas pessoas de bem que estavam numa fila que...

- Boa tarde senhora, eu sou o capitão Silva (nem lembro se era esse nome, mas vai assim mesmo) o que acontece aqui? Primeiro, por gentileza, leve o seu carro mais pra lá, fora da entrada do quartel...

A minha mãe levou o fusca dela, e nós dentro, a contento de poder dialogar com o pretenso comandante que a ouviu e deu uma desculpa que deve ter convencido ela, porque entrou no carro e se pôs no caminho pra casa de novo – para meu alívio e até regozijo.

Chegando em casa telefonou pro meu pai e contou toda a epopeia... falaram uns 15 minutos e depois mandou a gente ir tomar banho e jantar.

Estava de boa fazendo a lição de casa – é, naquele dia eu fui fazer a lição de casa, coisa inédita, se voluntária – e ouvi o chamado do meu pai que acabara de chegar: “vem, vamos embora, já!”... eu fui... achei estranho, parecia uma ordem de um comandante da SS para prisioneiros de um campo de concentração.

E fomos no carro dele mesmo... não adiantou nem perguntar pra onde.

Chegamos lá e descobri que era aquela mesma praça... mas tava totalmente organizada pela policia do exercito. Não consegui contar mas parecia que havia um batalhão inteiro organizando as filas e tocando as pessoas com disciplina. 

Não dava pra espernear, fugir? Nem a pau! 

Sabe aquele plano de sair a francesa nos momentos finais? Por ali passei tocado por vai!-vai!-vai!-vai! e não deu nem tempo de pensar e... shcuk-up!

Fui vacinado no ombro...mas ao invés de uma agulha de uma seringa saída de um filme “B” de terror, eu mal vi, era uma pistola! 

E nem doeu!

No dia seguinte para não agravar as reações da vacina, mandaram ficar em casa, mas quando pude ir pra escola era um tal de mostrar a “ferida” da pistolada e o “meu braço ficou assim ou assado”.

Não sei ao certo se foi o esperneio da minha mãe ou quebra-pau da praça que acionou o quartel, mas ficou claro que a minha mãe, que hoje tem 80 primaveras, era virada no jiraia.

A foto abaixo mostra bem o desespero das crianças ... as menininhas berravam assim, ó... nós, corajosos meninos...também.







quinta-feira, 19 de março de 2020

All You Need Is Love, Love Love Is All You Need



CAPITAIN´S LOG - Complemento... "Num passado não tão remoto tínhamos a tecnologia da ciência, o poder econômico para mitigar a pobreza, forças militares que imporiam a vontade e, não obstante, incapazes de lidar com as nossas sombras, sucumbimos ao mais elementar de todos os vícios: a soberba. Um silencioso e diligente fruto de nossa imprevisão moral se fez presente reduzindo à ignorância aqueles incapazes de explicar sua existência, à miséria os que tanto detinham e ao pó, inúteis, armas e soldados...". 

Queridos amigos, este post foi escrito num dos dias que antecederam à grande onda do convid-19 na cidade de São Paulo. 

Assustados, nós paulistanos - principalmente os da móoca - vimos o desenrolar dos acontecimentos na Itália. Somos milhões de brazilianos, ainda filhos netos ou bisnetos de uma nona matriarcal que nos ensinou tanto sobre tradizione, famíglia e cuore

O virus foi devastador aos nonos e nonas.

Por aqui, quem tem algum amor a quem nos trouxe a esse louco mundo, os resguarda nesses dias cor de bronze. Foi a lição que a Itália nos deu: "resguarda os idosos, são os mais vulneráveis". 

Outra lição que nos foi ensinada - e agora estamos na prova - é a que ninguém é uma ilha, que ninguém está sozinho; O que fazemos com os nossos pensamentos e sentimentos reverbera no próximo. A atitude perante o consumismo desenfreado, a desvalorização da vida - na verdade, levando-a como algo venal, o egoísmo como mote e direito defendido à guisa da justiça... receita certa para a queda.

Serão dias cor de bronze.

Enquanto poucos se fecham em casa, sob o pretexto de "fazer sua parte para o coletivo", na verdade, se fecham porque é o que melhor que fazem desde sempre. Ao se fecharem, esquecerão os que não tem para onde ir, os que, ainda que reclusos em sanatórios ou asilos, padecem de carinho e atenção.

Se há algo de bom no convid-19, é exatamente isso, o de expor o quanto somos egoístas e mesquinhos, soberbos.

E a soberba é confrontada e desmascarada pela cínica realidade.

Aqui nesse país tropical, temos um verão com muito sol e, até que o outono realmente possibilite o início do inverno, teremos muitos dias quentes e noites convidativas para saraus, usando roupas leves e alegres.

Na Itália, no andar de cima desse planeta, fez frio.

Como seria para os moradores de rua enfrentar a epidemia se agora fosse inverno como na Itália? 

Nos vemos como heróis que irão defender a pátria do virus malvado, esquecendo que não somos as vitimas... na verdade, estaremos em casa, contando vil metal (Belchior)- e protegidos e, lá fora, nas ruas estão os que não tem casa ou o vil metal.

Mas há o que fazer? Há.

Teremos aproximadamente 45 dias para o tempo ameno chegar; É o tempo que teremos para coletar agasalhos, cobertores e abrigos para serem doados nas campanhas que, tenho esperança, irá pipocar por toda cidade.

Comece a prestar atenção no desperdício da sua cozinha; e, se for inevitável a sobra, separe e tente formar ao menos uma marmitinha  para ser levada a alguém perto da sua casa - quantas vezes naquele "churras" do "niver" não sobrou um monte de carne picada que ninguém quer mais porque tava empanturrado? e os pães, então? em todo churrasco em São Paulo tem que ter o famoso "pãozinho" que compram em dúzias e ninguém consome ... junte os dois... vai dar pra fazer ao menos uns seis sanduíches. Leva ali pertinho da igreja, sempre terá alguém que não comeu nada naquele dia.

Você deve estar pensando "pô, não dá nem pra sair de casa, quanto mais fazer churrasco"... então, isso vai passar. E depois? Você, eu, a torcida do corinthians, do palmeiras (sem mundial), do são paulo e do santos, juntos, vamos celebrar o sobreviver. Então é sobre valorizar estarmos vivos que estou escrevendo nesse post. É sobre, de uma vez por todas, aprendermos a conviver e cuidar do próximo; É sobre família, de levarmos àquele vô ou vó o nosso carinho enquanto eles ainda podem receber e perceber; É sobre a nossa casa de portas abertas para o nosso vizinho que nem sabemos o nome; É sobre dividir o excedente com quem nada tem.

No post passado (agosto/2019) mencionei que buscamos incessantemente dar sentido a vida; Isso é dar sentido.

Se vamos ser contaminados pelo convid-19 e, se vamos sobreviver, não dá pra saber e, de boa, não é a fonte dos nossos medos.

O que nos dá medo é viver uma vida vazia e sem sentido; onde sabemos o preço das coisas mundanas como litro de uisque ou do conjunto de maquiagem (elas) de qualidade, mas nem nos damos conta de que tem gente igualzinha a nós (a não ser que se considere melhor do que os outros, aí mano do céu, você, na verdade, é pior) que sentiria uma baita felicidade se tivesse R$ 10 para comprar uma refeição.

Eu vivi uma vida vazia e sem sentido; Ela era miserável.

Espero nunca mais ser tão miserável novamente.

Dá trabalho? ô se dá!

Pega aí o notebook, celular, tablet, o que seja que te faz ler esse post e dá uma "gugada" em "trabalho social", "benemerência", "cuidar do próximo"... sei lá! mas com certeza encontrará um monte de oportunidades.

Você sabe fazer pão? macarronada? feijuca? então olha só:

O pão, faça uma fornada extra e leva naquele asilo... terá quem sorrirá por sentir o teu carinho ao saborear um pedaço do que você faz de melhor.

A macarronada e a feijuca? Junte forças em instituições que cuidam de crianças carentes como creches e centros de instrução para jovens, sempre que podem eles organizam eventos para arrecadar recursos para tocar as obras.

Você é bom em contar estorinhas? Creches com crianças carentes tem um lugar para você no tempo que dispor a fazer isso.

Você também pode ouvir os vovôs e vovós órfãos dos familiares, sozinhos, nos abrigos e asilos. Eles são carentes de carinho, de serem ouvidos e de serem vistos depois de uma existência toda aqui nesse mundo.

Cantar - quem canta os males espanta - acredita, crianças especiais amam música cantada!

Sim, devemos esperar tudo isso passar; E vai. 

Porém, depois, deveremos estar confiantes, fortalecidos e determinados a fazermos do jeito certo dessa vez. 

Meus queridos amigos, por aqui fico; Espero de coração ter contribuído com essas palavras para lhes inspirar. E, se me permitem acrescentar: "Somos espíritos vivenciando uma experiência material" em uma jornada com objetivos que nós mesmos nos propomos e, que, o tempo, é agora.

Beijo no coração de todos vocês!