Odisseu, já
em seu barco, gritou para Polifemo: “Sou Odisseu, rei de Ítaca!”
As vezes nos
esquecemos quem somos e agimos como se o “ter” definisse o “ser”; Então se
temos dinheiro no banco somos prósperos, se não, fadados ao fracasso. E quando
pensamos assim, vivemos nos comparando aos outros ora invejando-os por terem
uma vida facilitada pelo que é material e abundante, ora desejando não ter a
responsabilidade de manter um patrimônio amealhado e sem sentido, fazendo-nos
olhar para o lado e invejar a vida simples do outro que se satisfaz com pouco.
Desejamos
muito e realizamos pouco. Dizem que até o amor é um desejo que quando obtido se
desfaz como qualquer outro desejo, por isso não devemos desejar, mas sim
cultivar.
Outro dia
ouvi a seguinte pérola: “Você sabe com quem está falando?”
Me deu
vontade de perguntar em seguida: “Porque? Você não sabe quem é?”
Há diferença
entre “se humilhar” e “ser humilde”; A primeira denota que vive e concorda com
mundo do outro – aquele que humilha; A segunda, denota sua grandiosidade.
O humilde é
grande porque sabe quem ele é; Sabe seu lugar porque não o procura, vai até ele
livremente e não se sente menos porque não “tem”; Não se vitimiza, não impõe,
colabora ao invés de pedir serviço.
Saber quem é
não acontece de repente – ou depois de ler esse texto, garanto.
Saber quem é
começa – com todo mundo – quando nos colocam alcunhas como valente, preguiçoso,
chato, coração maior do mundo, falador, amigão, invejoso, trabalhador,
estudioso, desconfiado, mentiroso, verdadeiro... e por aí vai.
O diacho é
quando acreditamos nisso e deixamos a busca da verdade pela incerteza da
classificação que fazem da gente.
Se nem eles
sabem quem são, como podem saber quem sou?
Odisseu
sabia quem ele era. Já havia testado sua personalidade e sabia ter predicados bons
e ruins. Havia aberto mão da vaidade quando subiu em seu barco nas praias de
Tróia para voltar para casa; Sabia também seu destino: Ítaca.
A verdade de
Odisseu estava na sua busca do caminho para voltar para casa, isto é simbólico
e não dá para entender de pronto. Como sabemos disso? Leia a Odisséia e verá
quando ele chega lá e é orientado a ter calma e se transformar em um ancião – símbolo
da vivência – pela Deusa Palas Athena. Depois, quando encontra o cuidador de
seus rebanhos e parreirais – Eumeu - como valoriza o queijo e o vinho produzido
em seus domínios – outro símbolo, o da produtividade.
E por falar
em produtividade, me vem na cabeça a idéia que não adianta saber quem sou se
nada posso realizar com isso.
Para buscar
a verdade é preciso sair da caverna – A República de Platão / Mito da Caverna –
e acostumar os olhos com a luz, os mesmos que eram acostumados apenas com as
sombras.
Somos feitos
de luz e sombras e isso me parece natural; Para reconhecer isso é necessário
ser humilde.
Assim, se
quero ser produtivo preciso ser obreiro, lidando com as minhas sombras e com a
minha luz interior; tenho que ter humildade pois ela nos lembra que ser assim
não é fácil, mas é verdadeiro.
Um obreiro
não escolhe trabalho; Se apresenta a ele. Não se ilude com os elogios pois sabe
que a tarefa é longa e a luz, motivo desses elogios, pode ser efêmera, assim
como é a do sol no fim do dia.
Odisseu era
um obreiro e usos suas ferramentas para sair da caverna; Estas ferramentas eram
a inteligência e astúcia. Ele sabia que possuía homens com força suficiente
para derrotar Polifemo mas, que não seriam páreo para retirar a pedra que
bloqueava a saída da caverna.
Quando
perguntado qual era o seu nome – Quem era? – respondeu simplesmente: Ninguém.
Quando cego
e desesperado de dor o cíclope tentava capturar algum descuidado dentro da
caverna, gritava para os seus vizinhos: “...Ninguém me cegou! Ninguém me fez
mal! Ajudem!”; e os vizinhos sem entender diziam: “... ah Polifemo, vai dormir!
Está tarde para essa gritaria!”.
De manhã
cedo, com o rebanho com fome de pasto necessitando sair, Polifemo se postou à
frente da única saída, apalpando cada uma das rezes que por ele passava, para
se certificar que não se tratava de nenhum dos intrusos querendo fugir de sua
vingança.
Odisseu e
seus homens percebendo o estratagema, agarraram-se às ovelhas pela barriga,
ficando livre do toque que os denunciariam e pela passagem conseguiram a
liberdade e a vida.
Não devemos
nos esquecer que a arte de viver exige inteligência e astúcia, sim, mas também
não poderemos deixar de ser obreiros, nos achando lordes, como se tudo já
tivesse sido feito apenas pela nossa eminente sabedoria. Ser obreiro é ser
humilde por ser conhecedor das suas deficiências e que precisa se apresentar ao
trabalho, sempre.
Se alguém me
perguntar quem sou, responderei: Sou um obreiro.


