quarta-feira, 7 de novembro de 2018

VOCÊ SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO ?


Odisseu, já em seu barco, gritou para Polifemo: “Sou Odisseu, rei de Ítaca!”

As vezes nos esquecemos quem somos e agimos como se o “ter” definisse o “ser”; Então se temos dinheiro no banco somos prósperos, se não, fadados ao fracasso. E quando pensamos assim, vivemos nos comparando aos outros ora invejando-os por terem uma vida facilitada pelo que é material e abundante, ora desejando não ter a responsabilidade de manter um patrimônio amealhado e sem sentido, fazendo-nos olhar para o lado e invejar a vida simples do outro que se satisfaz com pouco.

Desejamos muito e realizamos pouco. Dizem que até o amor é um desejo que quando obtido se desfaz como qualquer outro desejo, por isso não devemos desejar, mas sim cultivar.

Outro dia ouvi a seguinte pérola: “Você sabe com quem está falando?”
Me deu vontade de perguntar em seguida: “Porque? Você não sabe quem é?”

Há diferença entre “se humilhar” e “ser humilde”; A primeira denota que vive e concorda com mundo do outro – aquele que humilha; A segunda, denota sua grandiosidade.

O humilde é grande porque sabe quem ele é; Sabe seu lugar porque não o procura, vai até ele livremente e não se sente menos porque não “tem”; Não se vitimiza, não impõe, colabora ao invés de pedir serviço.

Saber quem é não acontece de repente – ou depois de ler esse texto, garanto.

Saber quem é começa – com todo mundo – quando nos colocam alcunhas como valente, preguiçoso, chato, coração maior do mundo, falador, amigão, invejoso, trabalhador, estudioso, desconfiado, mentiroso, verdadeiro... e por aí vai.

O diacho é quando acreditamos nisso e deixamos a busca da verdade pela incerteza da classificação que fazem da gente.

Se nem eles sabem quem são, como podem saber quem sou?

Odisseu sabia quem ele era. Já havia testado sua personalidade e sabia ter predicados bons e ruins. Havia aberto mão da vaidade quando subiu em seu barco nas praias de Tróia para voltar para casa; Sabia também seu destino: Ítaca.

A verdade de Odisseu estava na sua busca do caminho para voltar para casa, isto é simbólico e não dá para entender de pronto. Como sabemos disso? Leia a Odisséia e verá quando ele chega lá e é orientado a ter calma e se transformar em um ancião – símbolo da vivência – pela Deusa Palas Athena. Depois, quando encontra o cuidador de seus rebanhos e parreirais – Eumeu - como valoriza o queijo e o vinho produzido em seus domínios – outro símbolo, o da produtividade.

E por falar em produtividade, me vem na cabeça a idéia que não adianta saber quem sou se nada posso realizar com isso.

Para buscar a verdade é preciso sair da caverna – A República de Platão / Mito da Caverna – e acostumar os olhos com a luz, os mesmos que eram acostumados apenas com as sombras.

Somos feitos de luz e sombras e isso me parece natural; Para reconhecer isso é necessário ser humilde.

Assim, se quero ser produtivo preciso ser obreiro, lidando com as minhas sombras e com a minha luz interior; tenho que ter humildade pois ela nos lembra que ser assim não é fácil, mas é verdadeiro.

Um obreiro não escolhe trabalho; Se apresenta a ele. Não se ilude com os elogios pois sabe que a tarefa é longa e a luz, motivo desses elogios, pode ser efêmera, assim como é a do sol no fim do dia.

Odisseu era um obreiro e usos suas ferramentas para sair da caverna; Estas ferramentas eram a inteligência e astúcia. Ele sabia que possuía homens com força suficiente para derrotar Polifemo mas, que não seriam páreo para retirar a pedra que bloqueava a saída da caverna.

Quando perguntado qual era o seu nome – Quem era? – respondeu simplesmente: Ninguém.

Quando cego e desesperado de dor o cíclope tentava capturar algum descuidado dentro da caverna, gritava para os seus vizinhos: “...Ninguém me cegou! Ninguém me fez mal! Ajudem!”; e os vizinhos sem entender diziam: “... ah Polifemo, vai dormir! Está tarde para essa gritaria!”.

De manhã cedo, com o rebanho com fome de pasto necessitando sair, Polifemo se postou à frente da única saída, apalpando cada uma das rezes que por ele passava, para se certificar que não se tratava de nenhum dos intrusos querendo fugir de sua vingança.

Odisseu e seus homens percebendo o estratagema, agarraram-se às ovelhas pela barriga, ficando livre do toque que os denunciariam e pela passagem conseguiram a liberdade e a vida.

Não devemos nos esquecer que a arte de viver exige inteligência e astúcia, sim, mas também não poderemos deixar de ser obreiros, nos achando lordes, como se tudo já tivesse sido feito apenas pela nossa eminente sabedoria. Ser obreiro é ser humilde por ser conhecedor das suas deficiências e que precisa se apresentar ao trabalho, sempre.

Se alguém me perguntar quem sou, responderei: Sou um obreiro.