quarta-feira, 8 de abril de 2009

Keep Walking

DATA ESTELAR 07042009
Diário do Capitão - Estamos a caminho em nova missão. Indo audaciosamente, onde nenhum homem jamais foi. Esta é mais uma aventura que empreendemos para fazer contato com novas formas de vida e adicionar à existência humana algo além de seu conhecimento.




Ajustei os cadarços dos tênis, acionei o monitor cardíaco Pollar e o MP3 e saí pela calçada; Manhã fresca e sem sol.

Apertei o passo, subi pela Paracatú e cruzei a Jabaquara descendo em direção a Whitaker.

Subi a ladeira que apelidei de “ascenção lusitana” e, quase botando os bofes pra fora e o monitor batendo 138, dobrei a direita e segui pela Piassanguaba... iria marchar por mais 30 minutos... na ida e 30 na volta.

Isso me faz pensar sobre as coisas e fatos. Não, nada para se obter conclusões, apenas vou relacionando as sensações com lembranças, sei lá.

Faço isso já algum tempo. E dessa vez percebi que os cães que normalmente ficam nos portões “xingando” e matando de susto os transeuntes desavisados não estavam por ali. Gozado.

O tempo passou para eles e para mim, velho cachorro passeador das manhãs. Será que algum deles já foi dessa para melhor? E se foi, foi para o céu de cães ou para o inferno? Lembrei de uma cena de uma série de TV (desenho animado) que retratava o inferno dos cães como um lugar que eles iam quando morriam (quando mereciam) que de um lado tinha um hidrante e do outro ficavam os coitados e, entre os dois lados, um baita aspirador de pó instigando os condenados - cachorro morre de medo de aspirador de pó.

O tempo passou mesmo. Menos colegas...

Verifiquei o monitor: 120.

No MP3 tocava aquela música do America: “A horse with no name”...
...I've been through the desert on a horse with no name It felt good to be out of the rain In the desert you can remember your name 'Cause there ain't no one for to give you no pain La, la ...
A batida ajudava na cadência da caminhada. Para correr e caminhar prefiro uma música leve do que as que enchem a minha mente entrando pelos ouvidos e ocupando cada centímetro da minha cabeça. Sou homem e como tal não faço várias coisas ao mesmo tempo (só as mulheres conseguem). Logo, andar, pensar e ouvir música é uma proeza e tanto (e há grande chance de uma delas dar errado). Por exemplo, corro sério risco de “tropicar” numa falha do calçamento ou pisar num “charuto” que um colega deixou quando estava passeando, pois além de andar, pensar e ouvir música, ainda tenho de prestar atenção aonde piso. Claro que poderia ser pior, já pensou: “tropicar” no “charuto” e pisar numa falha do calçamento? Nisso, me ocorreu uma outra lembrança inútil: a tal piada do professor que se perguntou enquanto olhava uma pradaria com o gado pastando e os pássaros voando: “Porque será que as vacas não voam e os pássaros não pastam sendo o céu ao maior que o pasto e, portanto, proporcionalmente adequado ao tamanho delas?”. Um dos penosos que voavam acima de sua cabeça lhe bombardeou em cheio. Ele então concluiu: “Sábio Deus”.
As árvores também são minhas colegas nas caminhadas. Em certas manhãs bem cedo, aquelas com alguma bruma ainda da madrugada fria, com os raios de sol passando por sua folhagem, dão um toque especial ao trajeto. Acolhem os passarinhos e emolduram a rua fazendo-a parecer um túnel com luz, sombra e vida. Os meus pés, queridos pés, que me aturam o dia inteiro me levando onde quero, calçam o tênis Nike e me fazem voar a cada passada. O meu primeiro tênis foi um da marca “Rainha”, era 1975.
Acho que depois da bota, foi o “pisante” mais revolucionário inventado pelos sapateiros. Depois dele, o esporte não foi mais o mesmo. Além disso, ele diferiu o que era roupa esportiva ou casual de roupa social (antes era tudo a mesma coisa – lembra do 757 da vulcabrás?). Imagine-se - ou se lembre - fazendo os exercícios na aula de ginástica da escola com o velho sapato escolar – é, aquele pretinho que terminava o ano todo esfolado. Então o uniforme era camisa branca com o escudo da escola no bolso, calção para os meninos e mini-saia de preguinhas para as meninas na cor azul escuro, meias finas brancas e o pretinho básico.
Mais ou menos em 1976 o tal pretinho casou com uma chuteira; Nasceu o kichute. Não era sapato, não era chuteira e não era tênis. Fazia um chulé de dar inveja a qualquer parmesão e ainda fazia as famosas marcas de freadas no chão de cimento ou de cerâmica e, só por sacanagem, nas paredes. O tal kichute era mesmo formidável, durava mais que os cadarços que além de desfiarem, estouravam. Os cordões eram compridos e a moda era dar voltas no tornozelo antes do laço. Digo, em parte era moda, mas também era por precaução. Certa feita vi um deles solto no ar na direção da cara de um goleiro que, preocupado e agarrar a redonda, tomou com o voador bem no olho esquerdo - mas não tomou o gol. No chute, o kichute virava petardo.
E por lembrar de kichutes voadores, me lembrei que num atropelamento o sapato é o primeiro que voa – sério! E, por estar a poucos passos de uma esquina bem movimentada, parei para recuperar o fôlego. No monitor 118. O hit era “Learning to fly” do Pink Floyd. ...A soul in tension that's learning to fly Condition grounded but determined to try Can't keep my eyes from the circling skies Tongue-tied and twisted just an earth-bound misfit, I...
Hora de voltar, tinha mais 30 minutos para encerrar a caminhada. Houve uma época que quando chegava no meio da jornada eu sentia a musculatura da perna queimar. Agora não, não queimava mais; Acostumei. Aliás, a gente se acostuma, se conforma e se adapta para sobreviver. A vida continua, continue andando – já dizia o velho Johnnie; Então keep walking. Naquela época em que as minhas pernas doíam, eu chorava. Não pela dor física, mas outra, a inconfomação de não conseguir me acostumar, acomodar e aceitar que a vida é como uma estrada para ser percorrida. Muitas vezes voltando, entrava na igreja São Judas e sentava nos bancos mais afastados para chorar. Atravessei a Jabaquara e desci a Fagundes, parei para comprar pão. Desci rápido a rua de casa e cheguei a tempo de tomar uma xícara de café recém-coado. Tocava a última música no MP3: “Tempos modernos” Lulu Santos.

2 comentários:

Anônimo disse...

Saudade dos seus textos, amigo! Bom te ter de volta!
Bjs! Selma
PS: tenho um blog novo, passa la'!

Cássia Maurício disse...
Este comentário foi removido pelo autor.