segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Ô sonho doido


Data Estelar 16032008 Diário do Capitão - Para continuar na jornada pelo universo, a federação precisou adotar uma regra básica - chamada de diretriz no.1 - para não interferir no progresso de outras espécies. Para tanto, esta diretriz prevê que o primeiro contato com uma nova espécie só deverá acontecer se a cultura tecnológica dessa espécie permitir viajar pelo espaço com a velocidade de dobra. Isto significa que ela já possui condições de receber este contato sem contudo, ser influenciada negativamente pela nova cultura.


Eu vinha pela Castello, abaixo do limite de velocidade quando começou a chover; E foi engrossando a ponto de eu pensar em reduzir a velocidade e, numa quase curva, de repente, senti o volante leve, o carro corria solto e sem direção, então rodei me sentindo impotente e me deu um frio na barriga...

Senti uma brisa leve no rosto. Abri os olhos, e a luz que entrava pela janela era filtrada pela cortina leve de cor branca. Mal sentei na cama e uma moça de branco entrou no quarto e me deu bom dia, respondi por educação pois estava completamente confuso – Onde é que eu estava? Pensei uma bobagem: “agora sim quando ligarem e perguntarem por mim a telefonista pode dizer – Ele não se encontra”.

Entrou, logo após a moça do bom dia, um senhor vestido impecavelmente com um terno, gravata e camisa brancos. Era o Morgan Freeman!

- Good morning, Déniel. How do you do?

Caramba!!! o Morgan Freeman falou (em inglês) comigo, eu entendi – sem legendas! - aliás se eu nunca tinha visto o Morgan Freeman falar sem uma legenda correndo no rodapé da tela, menos ainda de tão pertinho e entendendo tudo!

O papo a seguir foi no melhor inglês que jamais imaginei ser capaz de falar e entender:
- Bom dia Sr. Freeman, me sinto bem apesar de não saber onde estou.
- Bem, em primeiro lugar apesar de você me ver como o Sr. Morgan Freeman, eu não sou ele. Aliás a hora dele ainda não chegou. E você está exatamente aqui.
- Olha, não que eu seja mal educado, mas eu tô um bocado confu...
Ele, olhando para uma ficha que mais parecia um prontuário médico, atravessou a minha frase:
- De fato o senhor até que foi bem educado, o que reconhece o papel rigorosamente cumprido por seus pais, mas é incontestavelmente – por favor – um tanto quanto teimoso, apressado, preguiçoso, presunçoso, intolerante...

Aí, dessa vez, eu interrompi o Morgan Freeman:
- Isso tudo tá escrito nessa ficha aí, é?
- Sim. E tem mais coisas mas não vale a pena continuar porque vamos perder o horário da audiência...
- Audiência?
- No palácio da contabilidade existencial.
- Aonde? Hein? Espera um pouco... O Morgan Freeman, audiência no palácio da contabilidade existencial... tá parecendo um filme! Eu estou num filme! Caramba! Estou contracenando com o Morgan Freeman num filme!
- Ô, seu Freeman, tá esquisito, o que eu vou dizer na hora da audiência? Cadê o meu script?
- Meu rapaz, não tem script algum. Aliás já está tudo registrado, é só falar o que lhe vier no coração quando lhe perguntarem algo.
- Ah! já sei! Este filme é como um reality show! Sem script, só reações! Ok, dou conta, vamos pra lá agora mesmo.

Num segundo já não estava mais onde tinha acordado, entrávamos num salão imenso. E lá no fundo, uma tela gigantesca dividida no meio e encimada por duas barras de madeira formando um grande “T”.
- Olha só Seu Morgan, os caras sacaram direitinho o negócio da contabilidade, fizeram até o famoso “T” (tesão ou T grande, você escolhe) par separar o ativo do passivo...

- É você sacou direitinho, Déniel. É bem isso mesmo.

De repente um estrondo – parecia que colocaram a velha maquina de somar Olivetti de alavanca dentro de uma caixa com um microfone e deram carga na soma com o som no último volume – e o chamado: Déniel Santos, arquivo existencial número 13101965!

- Você, meu rapaz!
- Eu?
- Sim.
- E agora, improviso alguma coisa?
- Faça o que lhe disse sobre o sentimento que vem do coração.
- Tá legal, "xácomigo".

Uma mulher muito bonita, cabelos ruivos, vestindo uma roupa impecavelmente branca, com uma viseira e puxa-mangas igual a dos antigos guarda-livros surgiu bem na frente logo abaixo da grande tela – era a Rita Hayworth ! - e me disse:
- Bem-vindo ao palácio da contabilidade existencial. Esperamos que se saia bem nessa primeira audiência. Abordaremos hoje apenas alguns fatos da sua infância, que de alguma forma aconteceram para testar a construção do seu caráter e como você reagiu a eles.

Eu pensei: “Filme reality show, existencial, o Morgan e a Rita... cara tá parecendo um outro que eu assisti de um rapaz que morre e vai para o céu e lá passa por um balanço das coisas que realizou vs. O que não realizou – um filme que a Merril Strip fez um dos papeis... Já saquei, nesse filme eu morri e, como é um reality show, vai acontecer agora um documentário sobre a minha infância, legal isso!”

O que aconteceu então foi a exibição de um filme muito bem feito. Praticamente real – os artistas eram quase clones das pessoas com quem vivi, meu pai, minha mãe, as minhas irmãs, tios, avós... caramba! esse aqui vai ser cotado para Oscar de melhor figurino e efeitos especiais, pode crer.

Exibiram algumas cenas de quando era recém-nascido, no primeiro dia de aula, no convívio com os amiguinhos na escola, com os meus avós e por aí foi. As cenas foram tão bem reconstruídas que eu fiquei imaginando se não seriam filmagens verdadeiras, mas logo desisti da ideia. Naquela época não tinha filmadora digital portátil. Mas por serem muito realistas, algumas cenas me deram náusea, angústia e um outro sentimento ruim, que sinto vergonha de comentar aqui.

A contadora, digo, a Rita Hayworth, percebeu o meu desconforto e interrompeu a exibição. O placar, ou melhor “o tesão”, mostrou então o resultado apurado até aquele ponto. E posso lhe dizer que como contabilista, o ativo estava bem comprometido pelo passivo corrente.

Pedi desculpas ao Seu Morgan, porque não queria estragar a tomada vomitando ou caindo desmaiado. Sei lá o que me deu, acho que foi a emoção do palco.
- Déniel, fique tranquilo, todos tem a mesma reação que você teve. Aliás isto ajudou muito para melhorar a sua performance. A direção levou em consideração o seu desempenho.
- É? Que esquisito. Ao menos fui espontâneo.

De repente estávamos de volta ao quarto onde havia acordado. Me deu um sono e dormi.

Quando acordei o quarto agora era parte de uma enfermaria com outras camas ao lado da minha. Haviam outras pessoas nessas camas e, gozado, tinham a expressão de quem não sabia onde estava.
Assim que me levantei fui procurando as câmeras tipo "Big-Brother" que deveriam estar em algum lugar – afinal era um reality show.

Quando eu estava em cima de uma cadeira para olhar atrás de um quadro na parede, o Morgan Fremann apareceu de repente atrás de mim e quase caí dela.
- Caramba! Quase morri de susto, Sr. Morgan!
- Meio difícil isto agora, Sr Déniel.
- Hã?
- Nada demais, por hora. Precisamos continuar com a audiência de ontem, vamos?

Num segundo estávamos novamente no salão da Contabilidade Existencial, agora a com seção presidida por outro dirigente, também vestido de contador. Era um senhor de cor baixinho... era o Grande Otelo! E foi logo me alertando: Sr. Daniel Santos, arquivo 13101965, para repassar a época da juventude e maturidade. Por favor, observe com calma as cenas que seguirão sem interromper a exibição. É muito importante encerrarmos esta fase hoje.

Em seguida, a luz diminuiu no ambiente como em um cinema e a fita rolou. Não era como a de antes. As cenas eram mistas ressaltando a lógica dos nexos entre os fatos e as reações. Olha, não gostei nada do que vi. Era tudo verdade mas era diferente do que me pareceu quando aconteceu. Olhei para o Sr. Morgan e ele simplesmente respondeu:
- Tenha paciência, Déniel... nem tudo se resume a única ação.

A exibição mostrou cenas da minha infância que se conectavam com cenas da minha adolescência e da minha maturidade... tudo conectado! Daí eu percebi que mágoas que ainda tinha, de pessoas que nunca mais fiz contato, vendo o fato de novo, do jeito que aconteceu, não tinham mais porque existir.

Mas também não conseguia entender esse sentimento, não me sentia capaz de abrir mão delas, afinal aquilo era uma mágoa! O pior é que a conexão entre as cenas mostrou que as minhas ações foram motivadas pelos sentimentos que conseguia ter naquele momento. Verifiquei que quase em todos os momentos o sentimento que mais se ressaltava era o do medo.

Do mesmo jeito que voltei no dia anterior, me encontrei no quarto em minha cama. Não tinha sono, apenas olhei pela janela e percebi que noite maravilhosa era aquela. Haviam nuvens mas elas não escondiam as estrelas! Compunham o retrato do céu de forma vibrante e intensa. A lua era gigantesca e formosa. Foi então que percebi o que estava acontecendo comigo. Aquilo tudo era um pouco de tudo que havia vivido. Se somos a soma de tudo que já vivemos, então tudo aquilo era eu! Fechei os olhos só para guardar aquela imagem do céu noturno na lembrança.

Pela manhã pude chegar a um jardim em frente da porta do meu quarto. Havia uma brisa gostosa e o sol não incomodava pelo calor apesar de ter a impressão que aquela luminosidade era de um dia ensolarado de verão. Então escutei o Sr. Morgan dizer ao se aproximar:
- Déniel, é chegada a hora de partir.
- Para onde? A impressão é que acabei de chegar e nem sei onde estou!
- Pois bem, o Altíssimo nos permitiu conhecermos os processos de ação e reação que é a vida. Os sentimentos são a conexão entre eles e, a cada um, cabe a oportunidade de fazer o que deve ser feito. Quando isso acontece, é o acontecimento da realidade. Entretanto, quando fugimos através da mentira ou da omissão, nos perdemos e esquecemos quem somos. Guardamos mágoas, fazemos mágoas. Temos medo e passamos insegurança. Somos intolerantes e, com isso, desperdiçamos importantes oportunidades de compreender o próximo e entender como somos iguais.
- Mas...
- Déniel, a vida é repleta de espelhos. Podemos quebrá-los e mesmo assim os cacos nos mostram que somos pedaços!
- Entendi.
Fechei os olhos e senti as minhas lágrimas correrem pelo rosto. Quando os abri já não estava mais lá. Estava em casa, no sofá da sala com a TV ligada – eram três da manhã.

Pessoal, com este texto não quero impingir a ninguém uma nova realidade ou que sou adepto da opinião de que existe vida depois da morte. Sim, sou espírita e acredito no mundo espiritual e que ele representa a nossa verdadeira pátria e morada eterna. O meu objetivo com este texto é dizer que existe vida antes da morte! E que ela é para cada um como uma película virgem que rodamos para fixar nele aquilo que um dia vamos chamar de filme da vida. As vezes o filme começa sem graça e até fica chato, mas pode ficar melhor e chega ao seu ápice e depois que termina nos perguntamos: “puxa, que pena que acabou, adorei esse filme”. Pois bem, a vida é igual nesse sentido. Não devemos confundir o papel do ator principal – o nosso – com a atuação. O ator de um filme atua profissionalmente no filme e pessoalmente em sua vida. No filme que é a nossa vida, devemos atuar pessoalmente, sendo responsáveis por nossos atos e consequências.

Um comentário:

Anônimo disse...

Dan, não tenho palavras pra explicar o que estou sentindo agora, depois de ter lido esse texto...
Espero poder conversar sobre isso pessoalmente...
O filme que você refere no texto chama-se "Um visto para o Céu" (Defending Your Life), quando quiser assistí-lo novamente é só me falar que eu o tenho!
Aproveitando o simbolismo do texto, o último filme que assisti com Morgan Freeman foi "Antes de Partir", que também o tenho... portanto, espero te rever "antes de partir"!
Um beijo grande e aproveite as oportunidades que as equipes intra e extrafísicas te oferecem! uma experiencia tão rica tem que valer a pena!

Lu