domingo, 24 de agosto de 2008

Um click e a luz fica para sempre

Data Estelar 11122007Diário do Capitão - Estamos em dobra espacial 5. O conceito de dobra espacial originou-se na Teoria da Relatividade de Einstein, gênio do século XX. Isto se dá quando conseguimos ir em velocidade maior do que a da luz, ocasionando uma espécie de dobra do universo linear.


Estava ao lado da estrada no horto florestal, era outono e as folhas – daquele tipo igual ao da bandeira do Canadá – forravam o chão. Eu queria uma composição perfeita com a folha perfeita no centro e... “Ha-ha-ha, o cara é doido! Vê só, fotografando o chão!”... Nem tomei conhecimento (aliás, me deu vontade de mandar o cara “tomar no-ta”) continuei procurando a composição ideal e, foquei de acordo com a distância, acertei a abertura e o tempo de exposição e respirei fundo e inspirei, segurei e “click”.


Adoro fotografar. A minha primeira câmera foi uma xereta da Kodak. Depois, bem depois, o meu pai comprou de um grande amigo – Pe. Geraldo – uma Yashica modelo FR II. Veio completa com motor-drive e tele objetiva extra. Como ele aprendeu sozinho a manusear a câmera, esta tarefa foi por um bom tempo exclusivamente dele. O tempo passou, viemos morar em São Paulo e ele faleceu. Então, numa tarde de sábado eu estava ajeitando as coisas no meu quarto quando me deparei com a “case” do equipamento fotográfico. Estava bem empoeirada e dentro, além da câmera e seus pertences, fungos – haja fungos! Separei a câmera e a objetiva. Levei na Fotoptica da Conselheiro Crispiniano (a região mais fotográfica do Brasil) e pedi um orçamento para retirar os fungos e reconstituir a vedação da porta de cassetes de filme. Levou mais de um mês para a resposta. Quanto vai custar? Tudo isso?!? Faz em três vezes? Ok, manda bala! A tele não teve conserto.


Os fungos danificaram a película que revestia as lentes (praticamente todo o conjunto). Mas a câmera voltou tinindo! E comecei a fotografar. Antes adquiri o “Manual da SLR” do Michael Langford, a sigla significa single lens reflex – ou mono reflex – a FRII era uma mono reflex! A imagem que aparece no visor de mira é exatamente o que é fotografado, diferente das double reflex que a imagem não é a que vai para a exposição da película.


Desculpem, estou escrevendo palavras técnicas, né? Mas como ia dizendo, fotografava e registrava para saber o que tinha feito certo e o errado (igualzinho ao que o manual indicava). As aberturas – o diâmetro diafragma por onde passa a luz ; O tempo de exposição – controle do tempo que ele fica aberto; O foco de acordo com a distância e luminosidade (e sincronia com o flash – se houver). Enfim, tudo que pudesse ser controlado era registrado a cada click e depois relacionado com a tira de negativos revelados. Então faço aqui um aparte, para falar da luz. Quando fotografamos algo, na verdade, fazemos com que a película (ou fotocélula – nos dias atuais) sensível a luminosidade registre a luz a qual é exposta. Então fotografamos a luz.


Tá difícil? Veja só: Sabe a lua no céu? Ela reflete a luz do sol, que ao atingi-la denota seu contorno e superfície. A luz é tudo. Os impressionistas Monet, Renoir, Manet e Degas pintavam o que a luz mostrava. Imaginem a angústia deles pintando rapidamente a beira de um lago na Paris da belle epoque, porque a luz mudava a cada instante (a terra gira e o efeito é o sol subindo e abaixando conforme corre o dia). O preto é a ausência de luz.

Na escola se faz uma experiência que coloca uma grade com todas as cores na forma de um disco no centro das pás do hélice de um ventilador. Quando ligamos a cor que aparece é o branco. Assim, a soma de todas as cores (nuances de luz) é o branco.


Pois bem, a FR II foi minha registradora de luz por um bom tempo. Fomos a Brasília, ao sul na serra gaúcha, ao nordeste, a Portugal e aos EUA. No nordeste, especialmente na Chapada Diamantina, ela deu um senhor show. Fotografei paisagens e recantos maravilhosos. Consegui fixar o raio de sol que surge no Poço Encantado, tarefa complicada de se fazer pois exige muitas combinações na exposição do filme, isso tudo depois de descer noventa metros num buraco de tatu carregando o equipamento e tripé. Então ela começou a dar sinais de que já estava indo para o céu das câmeras fotográficas. Em Ouro Preto, de repente, parou de funcionar. Pensei que era a bateria. Troquei e nada. Voltou a funcionar depois de umas balançadas. Em Noronha ela se recusou a funcionar! E o pior, a outra câmera, uma subaquática Canon, deu vazamento no primeiro mergulho na ilha. Resultado: até o mergulho (aconteceu no primeiro dia lá), algumas fotos comuns e sem nenhum efeito, depois, só com a ajuda de um casal amigo que compartilhou as deles.


Na Chapada ela voltou a funcionar, assim como dizendo: “olha pelo meu visor estas maravilhas de Deus porque depois disso vou descansar para sempre”. Ainda funcionou o suficiente para registrar a arquitetura de Nova York mas as vésperas de viajar a Itacaré, a levei na assistência técnica e o diagnóstico (com prognóstico): “não tem conserto. A placa de circuitos queimou e não há reposição possível”.


A velha cúmplice de olhar o mundo partiu pelo túnel de luz, talvez pensando que ele era mais uma foto a ser feita. Ainda não me acostumei com as câmeras digitais. Não gosto de editar as fotos tradicionais por programas especiais. Parece que qualquer um é capaz de fazer uma foto como as do Sebastião Salgado. Ainda prefiro o cuidado com o ajuste minucioso do equipamento e escolha certa da sensibilidade da película. Prefiro a dúvida e a ansiedade enquanto o filme é revelado e dele se extrai a imagem que eu escolhi, do jeito que compus, com luz e sombra.


Hoje tenho uma câmera bem mais moderna, uma Nikon F90X. Não é uma digital, mas é eletrônica e faz quase tudo sozinha. E, para matar a saudade da velha “xica”, comprei uma priminha dela totalmente mecânica que utiliza as mesmas lentes e teles.


Ah! a foto da folha? Olha ela aqui, ó:

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