domingo, 24 de agosto de 2008

O tempo é relativo

Data Estelar 14022008
Diário do Capitão - Estamos prontos para partir em nossa missão no quadrante delta. O comando incluiu em nossa missão o reconhecimento de cinco novos sistemas solares com grande chance de encontrarmos novos povos e culturas.
Timoneiro! Vamos adiante, dobra 7!
Ela arrumou o edredon no armário e sem perceber, algumas lembranças lhe vieram a cabeça. Um deja vu, num segundo. Saiu do quarto e foi para a sala, era preciso sair logo, estava atrasada. No trajeto para o trabalho leu, ou melhor, viu as manchetes no jornal interativo. Mais uma vez, ao ler a data do periódico, a sensação de deja vu lhe bateu.
O expediente matutino foi intenso. Mal podia esperar para ir a aula de yoga no intervalo do almoço. Desceu os andares necessários entrou no vestiário para trocar de roupa. Quando estava saindo para a sala aquecida, o mobile soou o alarme de que alguem queria entrar em contato com ela. Atendeu a chamada sem acionar a câmera – não lhe convinha aparecer para outra pessoa em trajes mais leves e propícios para os alongamentos e demais exercícios da yoga. Era sua prima mais nova, Marianna. Haviam combinado de almoçar naquele dia e ela tinha esquecido.
- Bia? Tudo bem, não recebí o sinal de vídeo...
- Tudo Mari, estou indo para a sessão de yoga, vamos nos encontrar as 13:30h na cantina?
- Sim, quem chegar primeiro pega uma mesa, ok?
- Ok.
Se encontravam de vez em quando, é verdade. Mas já algum tempo ficaram próximas a ponto de se verem e conversarem por horas a fio e sobre coisas e fatos da vida e do coração. Na cantina, Marianna falou de seu projeto de pesquisa e estudos que pretendia fazer em Paris. Beatriz estava calada. Marianna percebeu e mandou à guisa:
- Bia, que bicho te mordeu?
- Não sei, Mari. Desde cedo estou assim. Não sei se é saudade ou se é solidão.
- Ah! com esses olhos azuis? Sozinha? Pára!
- Não Mari, não é estar sozinha, mas a falta do que representa alguém, entende?
Voltou para casa do trabalho e antes passou na mercearia. Sempre preferiu comprar mantimentos aos poucos e da forma tradicional, bem que não existiam mais as famosas mercearias do século passado, mas aquela da esquina ainda possuía um certo charme e os queijos franceses que aprendeu a saborear com a mãe. Vez ou outra o dono da mercearia acrescentava na seção de frios as famosas linguiças calabresas secas. Comprava um pouco delas só para beliscar antes do jantar e assim lembrar do avô Diogo.
Quando entrou no apartamento, o sistema reconheceu a senha e acionou as luzes e a mídia audiovisual. Nessa noite ela não tinha vontade de assistir nenhum filme, documentário ou jornalismo. Apenas verificou as mensagens não direcionadas para seu móbile, os compromissos do dia seguinte e foi tomar uma ducha. Com uma xícara de caldo istantâneo quente – o sabor predileto, ervilhas – acionou na mídia uma seleção de músicas.
Adorava morar sozinha. Aprendeu rapidamente quando foi para a universidade e nunca mais quis morar com a família. Alí ela tinha seu canto de livros, outro para fotografias e albuns, velhos métodos de música e um sintetizador antigo que fazia as vezes de piano. Sua cama era do tipo mais larga e comprida possível. Durante o sono simplesmente não conseguia ficar em uma única posição. Não era incomum acordar e constatar que estava na diagonal na imensa cama de casal e com a cabeça no sentido inverso ao qual tinha ido dormir.
Era como um susurro, uma brisa ou um reflexo. Sutil, mas lhe chamou a atenção. Então entendeu o que lhe havia chamado pela lembrança o dia todo. Foi o dia de aniversário dele. Lembrou das últimas comemorações, do bolo de chocolate que sempre dividiam e comiam com as mãos se lambuzando e dando muitas risadas. Lembrou de uma cena quase perdida na sua tenra infância, quando foi acometida de uma série de viroses. Foi levada para ser examinada pois a febre cedia mas não a deixava. Se lembrava então de que chorava sem parar e que não queria que lhe cutucassem ou olhassem sua garganta abaixando sua língua com aquelas espátulas aromatizadas – aquilo lhe dava ânsia de vômito e isso para ela era a morte.
Daí ela o viu fazendo umas miquices, imitando-a abrindo a boca de forma exagerada como um palhaço. Isso a fez sorrir. Mal sabia ele que naquele dia havia ensinado algo que lhe serviria para o resto da vida. Não que ela passasse a gostar de ser examinada, mas das outras vezes que teve a sensação de ser invadida ou desconsiderada, lembrava das palhaçadas dele e sorria. Era a certeza de que iria passar como passou daquela vez, então sorria.
Até de uma canção que cantavam juntos no carro ou passeando no parque ela se lembrou – uma vez ela tentou uma busca na antiga internet para achar pela letra o autor, mas não conseguiu. E nem iria conseguir, ele havia inventado aquela música num dia que ele precisava levá-la para sua casa e ela chorava pedindo pela mãe.
Cantar de forma engraçada era o único jeito que fazia ela parar de chorar.
Eu tava andando no matôôô
Quando ví um jacarééé...
Ai que medôôô!!!
Fují, fují, fují!
Eu tava andando no matôôô
Quando ví um macaco...
Não deu medôôô!!!
Não fují, Não fuíi, não fují!
Olhou as horas, era quase uma da manhã. Guardou os albuns e fotos e foi dormir... cantando no mundo dos sonhos, como uma menininha de dois anos e pouco, a música maluca que o pai lhe ensinou e cantava com ela.

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