Data Estelar 07102007 Diário do Capitão - Cada tripulante dessa nave foi treinado pela academia da Frota Estelar para lidar com as mais diversas situações. Cada um sabe exatamente como proceder em suas tarefas. A disciplina também depende do equilibrio entre o comprometimento e a individualidade. Um dos exercícios que ainda utilizamos é o domínio de alguma arte antiga, de preferência tocar música em grupo como um grupo ou orquestra. Assim, acada um tem a noção do quanto é importante para o todo.
Siri era como chamávamos bicicleta na época em que morei no nordeste. Então, ao invés de bike, magrela, pedala, etc, era simplesmente siri.
No sistema de áudio da academia o aviso: “A aula de RPM começa em cinco minutos com o professor Jéferson – Estudio 3”... de bermuda para a pratica de bike e monitor cardíaco Polar, lá fui para a primeira aula.
RPM é praticado da seguinte forma: Uma sala com várias bicicletas ergométricas com comandos especiais, iluminação e cores de uma pista de dança – aquelas de danceterias e discotecas, manja? – e uma seleção de músicas com ritmos e nuances especialmente intercalados para fazer com que todos se sintam motivados a cumprir uma sequência de movimentos com diversos níveis de esforço – tocadas no maior volume possível.
A primeira bicicleta é inesquecível. E, como tive poucas na minha vida, lembro-me muito bem de todas. Assim, separei uma aventura ou evento especial da história de cada uma delas para contar aqui.
O primeiro tico-tico
Não sei se foi no natal ou na festa de aniversário mas sei que foi em algum momento entre 1967 e 1968 que experimentei a minha primeira condução de um veículo propelido com as minhas forças exercidas em seus pedais de empuxo. Era um tico-tico com assento de madeira e guidão de ferro.
As rodinhas não possuíam pneus com câmaras, mas borracha sólida (e dura). Com ele fazia diversas viagens intercômodos da casa onde vivia.
Da sala para a cozinha, da cozinha para o quintal, do quintal para a lavanderia e, quando era época de faxina (as cadeiras ficavam viradas em cima da mesa da cozinha), fazia um trajeto “non-stop” do quintal até a garagem na frente de casa, passando por debaixo da mesa, ao largo do sofá, dando um “piau” atrás do volks do meu pai e retornando pelo centro da sala, triscando no primeiro degrau da escada (a casa era um sobradinho) e estacionando embaixo da mesa da máquina de costura da minha mãe.
Havia também o trajeto “patrulha” isto é, aquele sem rota definida cujo objetivo era atazanar alguém ocupado. E foi em uma expedição como essa, certa feita a noite após o jantar – a minha mãe estava lavando louça e o meu pai na sala vendo o telejornal - que decidi fazer um rasante entre a mesa e a pia - a minha mãe no meio para dar mais emoção - mergulhei convicto e quando me preparava para um “tuneau” a boreste senti um solavanco na rodinha traseira esquerda... os instrumentos ficaram malucos, os controles de direção não respondiam, iria colidir com o paneleiro ou com o guarda-comida, consegui no último segundo virar tudo a direita e me enfiei entre as cadeiras da cozinha...
Nesse ínterim, soou no rádio o grito atordoante de alguém – Aiêêê! O tal solavanco foi ocasionado pelo atropelamento acidental do dedinho do pé da minha mãe que, claro, berrou a sua indignação e me expulsou do espaço aéreo da cozinha sob ameaças de retaliar lançando um ataque de mísseis terra-ar (uma das chinelas havaianas que usava).
Nesse ínterim, soou no rádio o grito atordoante de alguém – Aiêêê! O tal solavanco foi ocasionado pelo atropelamento acidental do dedinho do pé da minha mãe que, claro, berrou a sua indignação e me expulsou do espaço aéreo da cozinha sob ameaças de retaliar lançando um ataque de mísseis terra-ar (uma das chinelas havaianas que usava).
Em São Paulo naquela época havia a famosa garoa e, com isso, o quintal cujo piso era revestido de caquinhos de cerâmica vermelha, ficava escorregadio como o quê. E foi por essa vereda que embrenhei fugindo da ameaça peremptória que, de verdade, derrapei com o tico-tico e fui lançado para fora do mesmo.
Estava escuro. Gritei pelo rádio de emergência SOS e assim que o resgate chegou, descobri que era na verdade uma força-tarefa de busca de prisioneiros do inimigo! Pois é, a minha mãe ainda ressentida pelo atropelamento – que ressalto ter sido sem nenhuma intenção – saiu para ver o porque do berreiro lá fora e sem acender a luz, me deu umas boas chineladas e me pôs para dentro de casa ameaçando e dizendo uns impropérios.
Entrei revoltado (e aos berros) procurando a guarida salvadora do meu pai.
Da sala ele chamou a minha mãe:
- Amélia, vem aqui por favor?
- O que foi João, esse menino está me infernizando! Passou por cima do dedo do meu pé e ainda foi andar de tico-tico no sereno!
- Você bateu com o que nele?
- Uai, com o chinelo, claro!
- Na testa também?
- Não, só na bunda...vixe! Deixa eu pegar uma colher para baixar este galo!
Pois é, quando voei pelo cockpit do meu caça caí de cabeça na privada do WC da área de serviço.
“A aula é intensa e forte. Se sentir que não vai dar para acompanhar tudo bem ficar girando*. Siga corretamente as instruções e bom proveito do exercício”. Olhei para o meu polar e ví os batimentos: 108. Tudo bem por enquanto.
(*) Girar é quando pedalamos com o sistema de catracas ou de potência permitindo o esforço mais leve possível.
O Tico-tico com garupa
Quando completei quatro anos, ganhei um novo tico-tico. Era a sensação da época – tinha uma garupa! No princípio chiei um bocado levando a minha irmã na traseira porque apesar de ser para isso, o esforço era o mesmo de um tico-tico comum! Direto do pedal para a tração sem catracas.
Mas não foi transportando a Dai na garupa que vivi a maior experiência com aquele tico-tico.
Mas não foi transportando a Dai na garupa que vivi a maior experiência com aquele tico-tico.
Uma vez, saí para andar com ele na calçada. Eu ia até a esquina e voltava. Daí eu experimentei virar a esquina... e fui até onde dava para chegar... fiz um baita esforço para subir um pouco de ladeira e virei a outra esquina... e continuei.
Olhei para os lados e não conhecia ninguém e me deu um medão... continuei na calçada e fui obrigado a virar na próxima esquina... Juro que queria voltar... continuei... Aí eu vi a lojinha de doces que conhecia... me entusiasmei... aumentei a velocidade da pedalada... e,... vixe!... não conseguia parar! ... era uma descida!... a avenida! os carros! Lá na frente!... consegui botar os pés nos pedais de novo e quase capotei... a tempo de fazer a curva dobrando a esquina... continuei em frente... aí eu ouvi uma voz me chamando: Aonde pensa que vai mocinho? – era a minha mãe que já se preparando para sair em minha captura porque estranhou a demora no retorno da esquina.
Caramba! O coração deve estar bombando! As tiras que seguram os meus pés na pedaleira estão me matando! Deixa eu ver o monitor... 156... eita!
A Monareta
Eu já morava em Recife-PE e já nem cabia mais no velho tico-tico de garupa quando ganhei uma bicicleta de verdade.
É! bi-cicleta significa “duas” rodas e tico-ticos tem três.
Era uma monareta vermelhinha e veio com rodinhas para eu não cair, e com uma buzina de pilha em forma de foguete.
Demorei um tempão para criar coragem de virar as rodinhas para cima e andar de verdade de bicicleta. Mas fiz isso num final de tarde e quando o meu pai chegou do serviço fiz uma demonstração para ele ver na frente de casa, na rua que não era pavimentada.
É! bi-cicleta significa “duas” rodas e tico-ticos tem três.
Era uma monareta vermelhinha e veio com rodinhas para eu não cair, e com uma buzina de pilha em forma de foguete.
Demorei um tempão para criar coragem de virar as rodinhas para cima e andar de verdade de bicicleta. Mas fiz isso num final de tarde e quando o meu pai chegou do serviço fiz uma demonstração para ele ver na frente de casa, na rua que não era pavimentada.
Primeira volta, segunda volta e terceira volta; o esperado elogio, ele entrou para jantar e continuei animado. Aí fiz uma curva mais fechada e derrapei. Descobri, acredito que em tempo recorde, que a areia fina em cima de outra compacta faz derrapar qualquer pneu. Valeram dois esfolões nas pernas e joelho mas não desisti.
Dali para frente eu dominaria aquela máquina e faria ela me levar aonde e por onde fosse possível. E foi assim mesmo. Conheci um garoto chamado Toinho. Ele tinha uma bicicletinha parecida com a minha então andávamos pelas ruas do bairro. Haviam charcos e a diversão era entrar com bicicleta e tudo mais... era divertido. Sei lá se peguei alguma doença – sempre fui saudável. Com a monareta vermelha aprendi a andar de bicicleta.
“Subida! Adicionar pressão! Levantar e segurar na frente do guidão!” O polar avisava: 160!!!
A primeira Caloi
Mudamos para Olinda. O bairro ainda possuía quarteirões sem nenhuma casa ou prédio e suas ruas eram sem pavimento.
Ganhei a minha primeira Caloi, uma bicicleta média com guidão em forma de Y de cor púrpura brilhante. A turminha tinha cada um um “siri” para andar pelas ruas nas tardes quentes e as vezes a noite também.
Certa feita a turma decidiu subir até o morro da caixa dágua. Em volta dele havia um morro que estava sendo aplainado para a construção de um conjunto habitacional. Assim, quem quisesse barro (usava-se muito dele nas construções) era só cavar o morro e encher o caminhão.
Ganhei a minha primeira Caloi, uma bicicleta média com guidão em forma de Y de cor púrpura brilhante. A turminha tinha cada um um “siri” para andar pelas ruas nas tardes quentes e as vezes a noite também.
Certa feita a turma decidiu subir até o morro da caixa dágua. Em volta dele havia um morro que estava sendo aplainado para a construção de um conjunto habitacional. Assim, quem quisesse barro (usava-se muito dele nas construções) era só cavar o morro e encher o caminhão.
Imagine só: estradas com subidas e descidas, curvas e retas, crateras que enchiam com a água da chuva... caminhões indo e vindo... e uns oito moleques de bicicleta zuando.
Esta aventura foi citada no post “A vida que tem nas coisas” a trombada ciclística – e tudo aconteceu assim: O Walter estava com uma bicicleta caindo aos pedaços. Tanto que quando estávamos descendo uma ladeira com uma curva no meio ele empinou a bicicleta para tirar uma onda e a roda dianteira caiu... ele bem que tentou manter ela empinada mas desviou do caminho, esbarrou no Geraldo que perdeu o equilíbrio e trombou com o Ricardo mas se recuperou, já o Ricardo que não tinha visto o Walter perder a roda da frente porque era muito distraído, tomou um baita susto com a trombada com o Geraldo e duma freada, derrapou e esbarrou no Múcio e deu de lado com o Walter ainda se equilibrando e esborrachou na estrada. O Múcio para evitar cair, cruzou a estrada depois do esbarrão e me colheu de lado... caímos os dois barranco abaixo numa poça de barro vermelho... bem, leiam o post do link para ver o resultado. Aquela magrela ainda durou um tempão...
“Recuperação, moçada! Levantar no banco!... Vamos alongar os braços, ombros e pescoço... aliviem a pressão, não parem de pedalar!” Foi estranho, mas mesmo se eu quisesse não conseguiria parar de pedalar, aliás só quando a aula acabou, com a ordem “fim. Agora vamos descer e alongar os membros inferiores é que acreditei ser capaz de parar de pedalar. Detalhe: Polar a 150.
Barra Forte, a segunda Caloi
Bem, na verdade essa bicicleta era do meu pai. Mas como estava enferrujando no oitão há uma data, eu usava para ir na padaria, nos treinos no colégio, para encontrar com a turma na pracinha, etc.
Ela veio com um farol e dínamo.
Na verdade grande coisa, porque quando estava escuro demais tínhamos de ir mais devagar e, para ir devagar, menos força na pedalada, menos força na pedalada, menos giros no dínamo... luz que não servia pra nada!
Mas foi com a barra forte que fiz umas manobras radicais como: sem as mãos; pés no guidão; em pé no quadro (surfar)... esfolões e dente quebrado como troféu pelas proezas.
Ela veio com um farol e dínamo.
Na verdade grande coisa, porque quando estava escuro demais tínhamos de ir mais devagar e, para ir devagar, menos força na pedalada, menos força na pedalada, menos giros no dínamo... luz que não servia pra nada!
Mas foi com a barra forte que fiz umas manobras radicais como: sem as mãos; pés no guidão; em pé no quadro (surfar)... esfolões e dente quebrado como troféu pelas proezas.
“Ultima parte... como em subidas e descidas, vamos forçar a pedalada e depois aliviar... três sequências somente, hein?!” Será que vai ter frequência pro Polar medir? Sei não.
A Caloi Moutain Bike
Um dia, já formado e sedentário, me bateu saudades de andar de bicicleta e comprei uma moutain bike na loja de um cliente. Fui buscar lá em Santo André.
Andei um pouco na Cidade Universitária, a levei para Piracaia, no Ibirapuera e em outros parques. Mas como disse, estava sedentário demais. A última vez que a usei, foi num passeio no Parque Terceiro Lago, Guarapiranga. Passei mal e decidi que aquilo não era mais para mim. Um dia um garoto conhecido da família a levou de presente. Foi melhor assim.
Andei um pouco na Cidade Universitária, a levei para Piracaia, no Ibirapuera e em outros parques. Mas como disse, estava sedentário demais. A última vez que a usei, foi num passeio no Parque Terceiro Lago, Guarapiranga. Passei mal e decidi que aquilo não era mais para mim. Um dia um garoto conhecido da família a levou de presente. Foi melhor assim.
O monitor berrava: 165!!!! Só faltou aparecer as duas mãozinhas fazendo top-top!
A Caloi T-Type
É (era) a minha bicicleta atual. Comprei porque criei vergonha na cara e fui melhorar minha forma física.
A T-Type é um modelo moutain bike com uns acessórios high tech (amortecedores dianteiros, quadro especial, aros de alumínio, etc). Com ela aprendi a andar na cidade e em trilha – e por isso, a necessidade de usar capacete e luvas.
Bem, como ela é muito recente, não há ainda uma história especial para contar, a não ser o atropelamento de uma senhora no Ibirapuera.
Era uma manhã de sábado e conduzia a minha bike pela ciclovia... uma senhora que andava pela rua do parque de forma errática entrou bem na minha frente e, apesar de frear, gritar e tentar desviar, colhi a pobre senhora de frente. Ela não se machucou mas me esculhambou...
A T-Type é um modelo moutain bike com uns acessórios high tech (amortecedores dianteiros, quadro especial, aros de alumínio, etc). Com ela aprendi a andar na cidade e em trilha – e por isso, a necessidade de usar capacete e luvas.
Bem, como ela é muito recente, não há ainda uma história especial para contar, a não ser o atropelamento de uma senhora no Ibirapuera.
Era uma manhã de sábado e conduzia a minha bike pela ciclovia... uma senhora que andava pela rua do parque de forma errática entrou bem na minha frente e, apesar de frear, gritar e tentar desviar, colhi a pobre senhora de frente. Ela não se machucou mas me esculhambou...
Fim da aula; alongado, subi para o vestiário e sentei e chorei. Como doíam os pés!!!
Siri, bicicleta, tico-tico... velocípedes que ilustram a nossa vida dando um toque especial de tarde quente com pic-nic. Feche os olhos e imagine o som “trim-trim-trim”.



Nenhum comentário:
Postar um comentário