sábado, 23 de agosto de 2008

Navegar é preciso, viver não é preciso

Data Estelar 18092007
Diário do Capitão - Neste post invertí tudo. Estou na minha nave, trajando o uniforme da Frota Estelar enquanto que abaixo a ficção é o enredo do post que, como num trançado, duela com fatos vividos... ou seria melhor "morridos".

Rizamos as velas e nos preparamos para entrar no canal. A madeira do casco rangia como queixumes de alguém levado ao limite no esforço. O vento bateu firme no velame, o barco adernou e ganhamos velocidade. A roda vibrava a força da correnteza que passava pelo leme.

O primeiro dia no novo emprego foi bizarro. Tudo que eu queria era mergulhar de cabeça na nova rotina sem pensar que os outros que lá já estavam há muito tempo antes de mim me mediam enquanto eu ficava tentando entender e fazer alguma coisa, algo que sequer sabia. Trabalhar em uma empresa, é como conviver em uma família onde se entra como agregado.
O mar não tem cabelos; as ondas chicoteavam o casco de madeira com o furor da raiva de Posseidon. O respingo salgado no rosto lembrava lágrimas. Tudo que eu deveria pensar era em passar sem bater.
Nunca fui de chorar, nem quando o meu pai se foi no último dia de inverno de 1988. Mas a angústia era tamanha; era como se todo o peso do mundo estivesse dentro do meu peito então deixei ir pelo pranto. Achava que assim tudo melhoraria mas não foi o que aconteceu.
As rochas! Como fantasmas, obscuras e negras desaparecendo entre as ondas e pela luz crespuscular fazia despontar no coração a dor do medo. Todo o pano na buja! Vamos passar em nome do Salvador e contra a vontade da sereia que canta para o fundo do oceano nos levar!
Era tarde da noite. Não sabia o que estava mais escuro, o quarto ou o meu coração sem esperanças. E agora?
Meus dedos na roda do leme estavam dormentes. O frio da latitude antártica fazia brincos de gelo com os borrifos nos cabos da murada. O mar subia e abaixava proa adiante. Lembrei de Circe, a feiticeira que foi convencida por Odisseu a lhe contar do caminho para Ítaca.
Meu Deus, como é frio! Segurei no apoio de aço inox com uma mão e com a outra mal conseguia manter a maleta junto a mim. O motorista do transfer que levava os passageiros – e eu entre eles - do Electra II para o terminal de desembarque de passageiros em Congonhas parecia insandecido. Na sala de bagagens, peguei o telefone e coloquei na orelha, instantaneamente devolvi ao gancho. Era frio como gelo... Foi a recepção calorosa que São Paulo me proporcionou depois de 16 anos fora.
Nem sei porque olhei para estibordo, só sei que por um segundo vi tudo parar. Os altos e baixos das ondas como montes e ravinas; a luz tênue do que fora o pôr-do-sol como um adeus. Definitivamente estávamos no canal, agora não dava mais para retroceder.
“Daniel, aonde estão os demonstrativos dos cálculos da depreciação?” “Cálculos? Hã?” Acordei de um pulo da cama, o coração batia a mil. Cadê o demonstrativo? Eram 3 e meia da madrugada e ela dormia profundamente do meu lado e no ventre a Bia.
De repente o alarme! Rochas a bombordo, todo o leme! Mas não deu tempo de reagir, o barco deslizou de lado, impotente contra a natureza, enxerguei as algas e cracas na pedra negra, foi por um triz, um raspão na quilha.
“Oi, me chamo Daniel. Vim para a entrevista e, se der tudo certo, para começar a fazer terapia...”
Foram dias que só a determinação foi capaz de mover nosso barco para contornar o Horn. O mastro avariado, o quase motim e o vazamento no porão. Agora depositamos no outro a esperança de não naufragar. Vamos passar!
“Sinto muito, não vou lhe dar guarida. Vá embora pois se ficar vou adoecer”.
Larguei a roda do leme, deixei que o imediato a segurasse enquanto me lançava da ponte para o convés... aquela onda de través arrastou tudo, inclusive o que estava muito bem amarrado, se não liberasse o fardo no mar seria como uma âncora a nos arrastar ao fundo.
A vida é justa. É a colheita do que plantamos. Em apenas duas situações podemos dizer que é uma fatalidade: o nascimento e a morte. Nas duas nada podemos fazer. Nas outras, é o resultado da nossa imprevidência.
Vira! Vira! A roda do leme girou e contornamos a rocha. Agora o breu se instalava para reinar. Precisamos sair já ou nada mais vai fazer sentido.
“Me perdoe Pai, sou pequeno e me esqueço do quanto me protege e me quer bem; Sem a tua luz nada sou, nada consigo. Em ti sou forte e tudo posso”.
Como se passássemos de um set a outro o mar de repente ficou calmo. Passamos! E agora? “Se por mim perguntarem, diga que fui por aí”.

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