domingo, 24 de agosto de 2008

O tempo é relativo

Data Estelar 14022008
Diário do Capitão - Estamos prontos para partir em nossa missão no quadrante delta. O comando incluiu em nossa missão o reconhecimento de cinco novos sistemas solares com grande chance de encontrarmos novos povos e culturas.
Timoneiro! Vamos adiante, dobra 7!
Ela arrumou o edredon no armário e sem perceber, algumas lembranças lhe vieram a cabeça. Um deja vu, num segundo. Saiu do quarto e foi para a sala, era preciso sair logo, estava atrasada. No trajeto para o trabalho leu, ou melhor, viu as manchetes no jornal interativo. Mais uma vez, ao ler a data do periódico, a sensação de deja vu lhe bateu.
O expediente matutino foi intenso. Mal podia esperar para ir a aula de yoga no intervalo do almoço. Desceu os andares necessários entrou no vestiário para trocar de roupa. Quando estava saindo para a sala aquecida, o mobile soou o alarme de que alguem queria entrar em contato com ela. Atendeu a chamada sem acionar a câmera – não lhe convinha aparecer para outra pessoa em trajes mais leves e propícios para os alongamentos e demais exercícios da yoga. Era sua prima mais nova, Marianna. Haviam combinado de almoçar naquele dia e ela tinha esquecido.
- Bia? Tudo bem, não recebí o sinal de vídeo...
- Tudo Mari, estou indo para a sessão de yoga, vamos nos encontrar as 13:30h na cantina?
- Sim, quem chegar primeiro pega uma mesa, ok?
- Ok.
Se encontravam de vez em quando, é verdade. Mas já algum tempo ficaram próximas a ponto de se verem e conversarem por horas a fio e sobre coisas e fatos da vida e do coração. Na cantina, Marianna falou de seu projeto de pesquisa e estudos que pretendia fazer em Paris. Beatriz estava calada. Marianna percebeu e mandou à guisa:
- Bia, que bicho te mordeu?
- Não sei, Mari. Desde cedo estou assim. Não sei se é saudade ou se é solidão.
- Ah! com esses olhos azuis? Sozinha? Pára!
- Não Mari, não é estar sozinha, mas a falta do que representa alguém, entende?
Voltou para casa do trabalho e antes passou na mercearia. Sempre preferiu comprar mantimentos aos poucos e da forma tradicional, bem que não existiam mais as famosas mercearias do século passado, mas aquela da esquina ainda possuía um certo charme e os queijos franceses que aprendeu a saborear com a mãe. Vez ou outra o dono da mercearia acrescentava na seção de frios as famosas linguiças calabresas secas. Comprava um pouco delas só para beliscar antes do jantar e assim lembrar do avô Diogo.
Quando entrou no apartamento, o sistema reconheceu a senha e acionou as luzes e a mídia audiovisual. Nessa noite ela não tinha vontade de assistir nenhum filme, documentário ou jornalismo. Apenas verificou as mensagens não direcionadas para seu móbile, os compromissos do dia seguinte e foi tomar uma ducha. Com uma xícara de caldo istantâneo quente – o sabor predileto, ervilhas – acionou na mídia uma seleção de músicas.
Adorava morar sozinha. Aprendeu rapidamente quando foi para a universidade e nunca mais quis morar com a família. Alí ela tinha seu canto de livros, outro para fotografias e albuns, velhos métodos de música e um sintetizador antigo que fazia as vezes de piano. Sua cama era do tipo mais larga e comprida possível. Durante o sono simplesmente não conseguia ficar em uma única posição. Não era incomum acordar e constatar que estava na diagonal na imensa cama de casal e com a cabeça no sentido inverso ao qual tinha ido dormir.
Era como um susurro, uma brisa ou um reflexo. Sutil, mas lhe chamou a atenção. Então entendeu o que lhe havia chamado pela lembrança o dia todo. Foi o dia de aniversário dele. Lembrou das últimas comemorações, do bolo de chocolate que sempre dividiam e comiam com as mãos se lambuzando e dando muitas risadas. Lembrou de uma cena quase perdida na sua tenra infância, quando foi acometida de uma série de viroses. Foi levada para ser examinada pois a febre cedia mas não a deixava. Se lembrava então de que chorava sem parar e que não queria que lhe cutucassem ou olhassem sua garganta abaixando sua língua com aquelas espátulas aromatizadas – aquilo lhe dava ânsia de vômito e isso para ela era a morte.
Daí ela o viu fazendo umas miquices, imitando-a abrindo a boca de forma exagerada como um palhaço. Isso a fez sorrir. Mal sabia ele que naquele dia havia ensinado algo que lhe serviria para o resto da vida. Não que ela passasse a gostar de ser examinada, mas das outras vezes que teve a sensação de ser invadida ou desconsiderada, lembrava das palhaçadas dele e sorria. Era a certeza de que iria passar como passou daquela vez, então sorria.
Até de uma canção que cantavam juntos no carro ou passeando no parque ela se lembrou – uma vez ela tentou uma busca na antiga internet para achar pela letra o autor, mas não conseguiu. E nem iria conseguir, ele havia inventado aquela música num dia que ele precisava levá-la para sua casa e ela chorava pedindo pela mãe.
Cantar de forma engraçada era o único jeito que fazia ela parar de chorar.
Eu tava andando no matôôô
Quando ví um jacarééé...
Ai que medôôô!!!
Fují, fují, fují!
Eu tava andando no matôôô
Quando ví um macaco...
Não deu medôôô!!!
Não fují, Não fuíi, não fují!
Olhou as horas, era quase uma da manhã. Guardou os albuns e fotos e foi dormir... cantando no mundo dos sonhos, como uma menininha de dois anos e pouco, a música maluca que o pai lhe ensinou e cantava com ela.

Marujo - Julio David Alonso

Marítimo solitário.
Transporta-se por oceanos
De sofrimentos e paixões.

Encontra-se com o mar,
Invadindo sua calma,
Violentando sua alma,
Com vontade de chorar.

Houvesse o infinito
Se limitado ao horizonte,
E ele estaria lá
A se perder no universo.

Porém o infinito
Mora mais longe...
E sua imaginação infantil
Ainda tenta encontrá-lo.

E as ondas arrebentam em suas faces.

As mesmas que o sol,
Árduo inimigo,
Já cansou de castigar.

As givotas,
Suas velhas companheiras,
Únicas, entre tantas,
Com as quais não dormiu...

E são elas, suas humildes confidentes,
A quem o velho marujo demente,
Chorou suas mais ardentes
Lágrimas de criança inocente.

Daniel e cassandra

Data Estelar 13122007
Diário do Capitão - Suplemento - Aumentamos nossa velocidade para dobra 8! Vamos direto a beta 15. Ao somarmos nossa velocidade com a da estrela, viajaremos no tempo ao futuro.

O que Daniel e Cassandra tem em comum? O dom da profecia. A principal diferença é que as da moça da mitologia grega eram sobre tragédias. Apesar de ter o nome do profeta bíblico, não me acho nem um pouco vidente do futuro. Mas hoje vou fazer aqui um desabafo.

Fim da CPMF. O Senado mandou a CPMF para o passado, agora o governo vai ter de rever o orçamento, apertar daqui e dali, tirar água da pedra, suar sangue para cumprir suas metas orçamentárias e não errar perante a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Acabou a farra de 40 bi por ano!
Bem, peço desculpas a todos que acharam isso ótimo – respeito de verdade a opinião alheia – mas como disse o Almirante Tojo após o ataque a Pearl Harbour em dezembro de 1941 “Receio que com o que fizemos, apenas tenhamos despertado um gigante”. Pois bem, quero estar errado na mesma medida que o Sr. Tojo estava certo, mas vão aqui algumas vaticinações: É lógico que o governo vai abrir negociações para conseguir algum recurso extra. Mas na calada da noite, assim, lá pelas 10 do dia 28 de dezembro, editará algum instrumento (MP, IN, qualquer coisa) que virá para “compensar” as perdas da CPMF – qual o alvo? As empresas tributadas de forma presumida. Como? Aumentando as contribuições sociais (CSSL e Cofins) e excluindo do Simples Nacional – por qualquer motivo – o máximo de MEs e EPPs possível (excluídas, se tornam automaticamente empresas de lucro presumido) ; Quer mais? O nhém-nhém-nhém vai continuar! Nas primeiras semanas de fevereiro de 2008 aquelas propagandas terroristas sobre o imposto de renda vão vir com tudo! As pessoas vão estar apavoradas por lançar em suas declarações aqueles recibos de despesas com saúde - verdadeiros e legítimos mas estigmatizados pelo fisco como sendo sonegação.
A malha fina de 2008 irá pescar no mar de incautos cerca de 1,2 milhão de contribuintes sob a justificativa que com dados da CPMF do ano de 2007, foi possível detectar omissões de rendimentos tributáveis! Os números deste ano foram de aproximadamente 430 mil. E vão cobrar de quem pagou e de quem não pagou. Machado de Assis dizia que há dois "Brasis", o real e o oficial. Concordo, por que há duas economias: a oficial cuja carga tributária é gigantesca e a real, com a sonegação também gigantesca. Como todo mundo defende o seu como sendo de sobrevivência, ninguém vai contra a toda poderosa Receita Federal quando recebe aquela cartinha dizendo que foram apuradas pendências tributárias de cinco anos atrás e que, com os acréscimos moratórios e juros (somados são maiores que o valor original), devem ser quitados sob pena de serem incluídos na dívida ativa da união e negativados no – pasmem - Serasa! Gente, se hoje a carga sobre o PIB (a tal economia oficial) é de 38%, o que será que vai acontecer se ela passar dos 40, 45 ou 50%? Revolução? Guerra civil? Não. O que vai acontecer é que tudo vai continuar. Poucas empresas vão fechar suas portas, os investimentos continuarão. Mas o governo vai ter de reconhecer que existe sim uma economia paralela e que nesses anos todos jogou todo o seu peso nas costas de quem faz as coisas do jeito certo, isto é, não tem pra onde correr, é descontado na fonte. E vai ter de reconhecer também que o sistema alimentado com as informações da CPMF só pegou pé-de-chinelo que não tem nem como pagar os financiamentos e cartões de crédito que se enfiaram (ricos não contraem dívidas – pagam a vista e com desconto especial).
Ah! Correção da tabela do imposto de renda? nem a pau!
Durante o ano vai faltar dinheiro para todos os projetos sociais do governo, com exceção do Bolsa Família, pois 2008 é ano de eleições municipais e como esse projeto é micro-pontual, só depois das eleições garantindo o máximo de prefeituras e vereadores é que será diminuído sob a argumentação de que sem a CPMF não há recursos – detalhe: aquela compensação dos tributos das empresas vão estar vigindo e, se houver perdas, serão mínimas.
Exercer a política é usar a ferramenta do cinismo e hipocrisia ao extremo. Quando se está na oposição joga-se pedras na vidraça da situação; Quando se está no outro lado, manda-se o povo pagar a conta do vidraceiro. Detalhe: só se fala em racionalização dos gastos. Fazer que é bom, nada. Porque será que só existe a “Receita Federal” e não a “Despesa Federal”?
Na saúde – área para a qual foi criada a contribuição – vai faltar recurso. Filas de doentes nos hospitais vão proliferar na mesma velocidade de uma cultura de bactérias em ambiente natural. A falta de equipamentos e não reposição dos que estão quebrados vai levar os hospitais de volta a idade média.
Isso tudo porque não tem mais a CPMF. E quando tinha, como era a saúde?
O Sr. Presidente disse: “se querem prejudicar, prejudiquem a mim e não ao povo!” Nobre este gesto. Falta agora ele ser solidário com esse povo e utilizar os mesmos serviços de saúde disponíveis que depois de tantos anos de CPMF são de primeira qualidade.
Já ouvi gente decente dizendo que o nosso país é uma terra de gente desesperançada. Concordo. Mas acho que somos também ingênuos do tipo mais perigoso, o que se acha esperto. Pensar que nada vai mudar e que temos de lidar com o agora olhando para o passado é o que nos faz sem esperanças. E o pior, abrimos espaço para os oportunistas movidos pela ganância e inconseqüência que criam leviatãs. Quero muito estar enganado e não fazer um papel como o de Cassandra.

Um click e a luz fica para sempre

Data Estelar 11122007Diário do Capitão - Estamos em dobra espacial 5. O conceito de dobra espacial originou-se na Teoria da Relatividade de Einstein, gênio do século XX. Isto se dá quando conseguimos ir em velocidade maior do que a da luz, ocasionando uma espécie de dobra do universo linear.


Estava ao lado da estrada no horto florestal, era outono e as folhas – daquele tipo igual ao da bandeira do Canadá – forravam o chão. Eu queria uma composição perfeita com a folha perfeita no centro e... “Ha-ha-ha, o cara é doido! Vê só, fotografando o chão!”... Nem tomei conhecimento (aliás, me deu vontade de mandar o cara “tomar no-ta”) continuei procurando a composição ideal e, foquei de acordo com a distância, acertei a abertura e o tempo de exposição e respirei fundo e inspirei, segurei e “click”.


Adoro fotografar. A minha primeira câmera foi uma xereta da Kodak. Depois, bem depois, o meu pai comprou de um grande amigo – Pe. Geraldo – uma Yashica modelo FR II. Veio completa com motor-drive e tele objetiva extra. Como ele aprendeu sozinho a manusear a câmera, esta tarefa foi por um bom tempo exclusivamente dele. O tempo passou, viemos morar em São Paulo e ele faleceu. Então, numa tarde de sábado eu estava ajeitando as coisas no meu quarto quando me deparei com a “case” do equipamento fotográfico. Estava bem empoeirada e dentro, além da câmera e seus pertences, fungos – haja fungos! Separei a câmera e a objetiva. Levei na Fotoptica da Conselheiro Crispiniano (a região mais fotográfica do Brasil) e pedi um orçamento para retirar os fungos e reconstituir a vedação da porta de cassetes de filme. Levou mais de um mês para a resposta. Quanto vai custar? Tudo isso?!? Faz em três vezes? Ok, manda bala! A tele não teve conserto.


Os fungos danificaram a película que revestia as lentes (praticamente todo o conjunto). Mas a câmera voltou tinindo! E comecei a fotografar. Antes adquiri o “Manual da SLR” do Michael Langford, a sigla significa single lens reflex – ou mono reflex – a FRII era uma mono reflex! A imagem que aparece no visor de mira é exatamente o que é fotografado, diferente das double reflex que a imagem não é a que vai para a exposição da película.


Desculpem, estou escrevendo palavras técnicas, né? Mas como ia dizendo, fotografava e registrava para saber o que tinha feito certo e o errado (igualzinho ao que o manual indicava). As aberturas – o diâmetro diafragma por onde passa a luz ; O tempo de exposição – controle do tempo que ele fica aberto; O foco de acordo com a distância e luminosidade (e sincronia com o flash – se houver). Enfim, tudo que pudesse ser controlado era registrado a cada click e depois relacionado com a tira de negativos revelados. Então faço aqui um aparte, para falar da luz. Quando fotografamos algo, na verdade, fazemos com que a película (ou fotocélula – nos dias atuais) sensível a luminosidade registre a luz a qual é exposta. Então fotografamos a luz.


Tá difícil? Veja só: Sabe a lua no céu? Ela reflete a luz do sol, que ao atingi-la denota seu contorno e superfície. A luz é tudo. Os impressionistas Monet, Renoir, Manet e Degas pintavam o que a luz mostrava. Imaginem a angústia deles pintando rapidamente a beira de um lago na Paris da belle epoque, porque a luz mudava a cada instante (a terra gira e o efeito é o sol subindo e abaixando conforme corre o dia). O preto é a ausência de luz.

Na escola se faz uma experiência que coloca uma grade com todas as cores na forma de um disco no centro das pás do hélice de um ventilador. Quando ligamos a cor que aparece é o branco. Assim, a soma de todas as cores (nuances de luz) é o branco.


Pois bem, a FR II foi minha registradora de luz por um bom tempo. Fomos a Brasília, ao sul na serra gaúcha, ao nordeste, a Portugal e aos EUA. No nordeste, especialmente na Chapada Diamantina, ela deu um senhor show. Fotografei paisagens e recantos maravilhosos. Consegui fixar o raio de sol que surge no Poço Encantado, tarefa complicada de se fazer pois exige muitas combinações na exposição do filme, isso tudo depois de descer noventa metros num buraco de tatu carregando o equipamento e tripé. Então ela começou a dar sinais de que já estava indo para o céu das câmeras fotográficas. Em Ouro Preto, de repente, parou de funcionar. Pensei que era a bateria. Troquei e nada. Voltou a funcionar depois de umas balançadas. Em Noronha ela se recusou a funcionar! E o pior, a outra câmera, uma subaquática Canon, deu vazamento no primeiro mergulho na ilha. Resultado: até o mergulho (aconteceu no primeiro dia lá), algumas fotos comuns e sem nenhum efeito, depois, só com a ajuda de um casal amigo que compartilhou as deles.


Na Chapada ela voltou a funcionar, assim como dizendo: “olha pelo meu visor estas maravilhas de Deus porque depois disso vou descansar para sempre”. Ainda funcionou o suficiente para registrar a arquitetura de Nova York mas as vésperas de viajar a Itacaré, a levei na assistência técnica e o diagnóstico (com prognóstico): “não tem conserto. A placa de circuitos queimou e não há reposição possível”.


A velha cúmplice de olhar o mundo partiu pelo túnel de luz, talvez pensando que ele era mais uma foto a ser feita. Ainda não me acostumei com as câmeras digitais. Não gosto de editar as fotos tradicionais por programas especiais. Parece que qualquer um é capaz de fazer uma foto como as do Sebastião Salgado. Ainda prefiro o cuidado com o ajuste minucioso do equipamento e escolha certa da sensibilidade da película. Prefiro a dúvida e a ansiedade enquanto o filme é revelado e dele se extrai a imagem que eu escolhi, do jeito que compus, com luz e sombra.


Hoje tenho uma câmera bem mais moderna, uma Nikon F90X. Não é uma digital, mas é eletrônica e faz quase tudo sozinha. E, para matar a saudade da velha “xica”, comprei uma priminha dela totalmente mecânica que utiliza as mesmas lentes e teles.


Ah! a foto da folha? Olha ela aqui, ó:

Veronica Shoffstall e o menestrel

Data Estelar 04122007
Diário do Capitão - Na história da humanidade, sempre se localiza uma obra que de alguma forma toca profundamente a alma. Mas, por ter enfrentado guerras, cataclismas ou por ser simplesmente esquecida em um arquivo antigo de um museu, tem seu autor o nome esquecido e, em muitas vezes, confundido com outros que nada tem a ver com ela.

Dando continuidade ao que o capitão disse, me aconteceu hoje em receber pela minha irmã Dal, o acesso a um vídeo no Youtube da performance maravilhosa de Moacir Reis, intitulada "O Menestrel".

O diacho é que diz no Youtube e pela voz do narrador que o texto é de William Shakespeare ?!? E não é. É de Verônica Shoffstall.

Já me deparei com isso antes. Tem um texto atribuído a Carlos Drummond de Andrade, o "Amar não dói"; lindo, emocionante mas não é dele. É sim de um mineiro, mas não do Itaberabense.

Então, para contentar a Sra Verônica Shoffstall e aos curiosos de plantão, segue a íntegra do texto... ah! o video? dá uma checada no Youtube, ok?

Depois de um tempo
Depois de um tempo você aprende a sutil diferença entre segurar uma mão e acorrentar uma alma e você aprende que amar não significa apoiar-se e companhia não quer sempre dizer segurança e você começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas e você começa a aceitar suas derrotas com sua cabeça erguida e seus olhos adiante com a graça de mulher, não a tristeza de uma ciança e você aprende a construir todas as estradas hoje porque o terreno de amanhã é demasiado incerto para planos e futuros têm o hábito de cair no meio do vôo
Depois de um tempo você aprende que até mesmo a luz do sol queima se você a tiver demais então você planta seu próprio jardim e enfeita sua própria alma ao invés de esperar que alguém lhe traga flores
E você aprende que você realmente pode resistir você realmente é forte você realmente tem valor e você aprende e você aprende com cada adeus, você aprende.
Veronica Shoffstall

O tempo não para - Cazuza

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou o cara

Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando agulha no palheiro
Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

O dia é curto

Data Estelar 06112007
Diário do Capitão - Para ser um capitão da frota estelar, é preciso muita determinação e força. Passamos por inúmeros testes que nos levam a mostrar o quanto somos capazes de lidar com situações difíceis. Resumindo, assim mostramos que realmente sabemos o que queremos.

O dia é curto, a noite é longa; Porque trabalhamos tanto para conseguir algo que nem queremos? Constatação que me fez refletir.
Estava assistindo um bom filme na tv. Nele, rolava um show de rádio (com auditório e tudo) na cidade de St. Paul (Minessota – EUA), um desses filmes que me faz pensar ao mesmo tempo que assisto... que foi? Acho que consigo fazer ao menos duas coisas ao mesmo tempo, ok?! (apesar de que uma delas não vai dar certo) ...foi quando uma senhora convidada começou a cantar uma música com a frase acima.
Diacho! Outro dia vi na rua um belo automóvel. Um Chevrolet Astra de cor vermelho bordeux quase preto. “Um dia terei um assim...” Ah! Vou leva-lo semanalmente para ser lavado, polido e cristalizado e, se ainda existir aquela missa campal que todos vão com carro e tudo para o padre abençoar, vou lá também. Vou instalar um sistema de alarme com localizador GPS e um som da hora que toca de tudo – inclusive DVD - rack especial com calhas para levar a minha bike, ar condicionado para os dias quentes e geladeira de líquidos.
Também um belo jogo de rodas com pneus especiais e sensor auxiliar para manobras nos pára-choques. O meu celular vai ficar conectado por wireless ao sistema de modo a poder conversar sem ser notado pelos guardas de trânsito. Ah! vou precisar investir mais no sistema automatizado dos portões da garagem – penso que precisarei contratar um segurança, pois as rodas especiais vão chamar a atenção e nem poderei deixar o carro na rua - outro dia vi um carro novinho sem as quatro rodas em cima de uns tijolos, coitado!
Mas os sensores, que custarão cerca de US$ 1.500 a mais, vão evitar que esbarre em algo e estrague a pintura dos pára-choques (gozado, com mais de vinte anos de carta, raríssimas vezes esfolei um pára-choque). Ah, a geladeira! Magnífico equipamento que nem imagino onde possa ser instalado, durante as viagens poderá fornecer aquele refri geladinho que o carona ou outro felizardo irá beber, pois como posso segurar uma latinha de guaraná e ao mesmo tempo manter o carro na estrada? Pena que seria apenas uma lata por vez... mas tudo bem, isso estimulará a compreensão e o sentimento de grupo ao compartilharmos a única latinha gelada com os demais e, além do refri, herpes e ... deixa pra lá!
E, por falar em troca de resíduos infectantes, o fantástico ar condicionado, que depois de algum tempo vai dar o “ar da graça” aroma banana-chulé distribuindo ácaros e fuligem. Mas o rack especial não vai falhar. Vou encomendar de fábrica, pagando o valor de dez vezes o da bike que ele vai levar (afinal a última moda é levar a bike para passear no supermercado, no shopping, no centro da cidade, no aeroporto...). O som vai tocar MP3, MP4, CD original e pirata, DVD com telão retrátil e com um amplificador e bazuca vai bombar até cair os vidros do carro! (mal posso esperar para tocar a minha seleção funk na frente de um condomínio residencial depois das 23h).
E, para proteger esse patrimônio, o sistema de alarme que vai dar pau justamente na subida da serra em dia de retorno de feriadão – olha só a cena: logo depois de passar uma placa “não buzine no túnel” e na frente de uma viatura da Polícia Rodoviária, o alarme dispara do nada e bííí – biíí – bííí...
Falar no celular incógnito é o que há! Sem multas nem pontos indesejáveis no prontuário dá pra falar a vontade e fazer até piada... apesar da conta vir com proporções de monstros de filme japonês.
Mas quem pode, pode né? Vou pagar com aquela cara de burguês o financiamento, IPVA, seguro obrigatório, taxa de licenciamento, mensalidade do rastreador, pedágio e estacionamento, seguro e vacina antifurto, manutenção com troca de óleo e peças, mão-de-obra do mecânico, borracheiro, alinhador e, por fim, os flanelinhas que se acham donos do espaço público.
Outra constatação... aquela do Mc Donalds: Amo muito isso tudo!

A olho nu - Lô Borges

Quero ver você sair ao mar
Amar o precipício solto numa boa
E deixar atrás o velho cais
E na distância ver a olho nu
Com asa fechada ninguém voa

Vamos juntos nessa lição aprender
Arriscar até secar as lágrimas
E deixar atrás todo o cais...

Quero ver você dormir em paz
Amar sem perguntar o nome da pessoa
E deixar atrás o velho lar
Na solidão e ver a olho nu
Na falta de céu ninguém voa
E cantar alguma canção é a toa
Arriscar até a lágrima inundar
Todo o cais...

Feliz aniversário, feliz ano novo

Data Estelar 13102007
Diário do Capitão - Hoje é o meu aniversário, então preferí escrever um pouco sobre mim, talvez para dar um contorno mais humano às histórias que conto por aqui. Bem, só vamos saber se tentarmos, né?

Hoje completo 42 anos de idade. Claro que é motivo para comemoração! E também um bom motivo de reflexão. Sabe, no ano passado – o ano que eu quis esquecer – o 13 de outubro escolhi como meu reveillon. Então, feliz ano novo! Já escrevi um pouco nesse blog sobre a minha vida. Coisas e fatos da minha infância e adolescência – até sobre coisas vividas na minha maturidade. Ainda tenho muito para escrever e escreverei, podes crer.
Nasci em São Paulo numa tarde fria de quinta-feira na Maternidade Santa Marcelina no bairro de Itaquera. Meu pai João Francisco e a minha mãe Amélia construíram uma família de três filhos: eu, a Daielma e a Daleine. Moramos em São Paulo até agosto de 1971, ano que o meu pai foi transferido para Recife-Pe; Lá ficamos por 16 anos. Sabe o meu amigo Júlio? (ver “O Amigo do Peito”), ele brincava dizendo que enquanto não completasse 17 anos em São Paulo – contados depois do meu retorno – eu não poderia ser considerado um paulistano. Pois é, nesse ano fez 20 que voltei a morar por aqui. Minha infância antes e depois de ir morar no nordeste foi rica em vivência; lógico que um paulistinha que falava “porta” com o erre bem acentuado era motivo de boas gozações na sala de aula e nas brincadeiras no condomínio mas eles também têm seu calcanhar de Aquiles – onde já se viu falar “banana” como se fosse “bânana”?
Até aos nove anos eu não sabia nadar... antes, com sete, aconteceu a cirurgia para retirada das amigdalas; com dezesseis fui trabalhar e com vinte e dois perdi o meu pai. Joguei muita bola na rua, aprendi a jogar peão, bolinha de gude e dar estilingadas certeiras. Fui moleque descalço e com o bronze de quem viveu sob o sol de lá. A minha adolescência foi como a de qualquer rapazola dos anos oitenta. Estudar? Não era comigo, desculpe.
Adorava desenhar. Se na minha casa havia a presença das artes – minha mãe na música e minhas irmãs na dança – Comigo era desenhar. Como não toco nenhum instrumento e dançar... bem, só depois de umas cervas bem geladas danço alguma coisa (ou coisa nenhuma), risos a beça. Sou torcedor do São Paulo FC; Herdei isso do meu pai. Íamos aos estádios e sempre assistíamos algum jogo pela tv. Depois que ele se foi ficou difícil achar alguém como companheirão no futebol.
Fiz o técnico de contabilidade ainda no Recife. Depois estudei Administração / Com. Exterior na Metodista de São Bernardo. Trabalhei com o meu pai no escritório contábil dele, na administração da academia da minha mãe, em uma pequena fábrica e na maior corporação de empresas do Brasil e em importações de automóveis... hoje tenho um escritório e gosto de dar aulas. Leio um livro por mês – é pouco eu sei, mas é o que o meu orçamento e tempo permitem por enquanto.
A trilha sonora da minha vida transita entre o rock de The Who ao samba raiz pela voz maravilhosa da Clara Nunes. Prefiro a telona, mesmo que seja o circuitão do que a telinha da tv. Fui casado por oito anos; Tenho uma filha de dois que é o meu xodó. Saio uma vez por semana. Vou a lugares que tem a ver com o que sinto e sonho; Rock-bar, pubs e barzinhos de chopp sempre foram as minhas escolhas mas também um bom passeio pela Paulista alternativa, uma boa peça de teatro ou só ficar olhando o skyline de sampa já me faz um bem danado.
Faço terapia à sete anos, não porque sou encucado demais mas porque quero ser caçador de mim. Já fui acolhido e alijado; sorri feliz e já morei um tempo no fundo com depressão; Fui capaz de coisas indizíveis e também de me enxergar e corrigir os meus erros. Quero fazer o bem... de uma forma simples, assim como um copo dágua.
Apesar de acreditar que o espírito é eterno, tenho a consciência que o tempo passa e a cada dia é uma nova oportunidade para fazer o que deve ser feito e, assim ser digno da felicidade. O tempo, o reino de Chronos, é a medida de uma existência. O que fazemos com ele e apesar dele é a diferença que vale a pena de todo sofrimento. Isso porque se algum momento fomos capazes de amar, seremos capazes sempre.
Tenho uma dívida imensa com uma pessoa maravilhosa. Ela me acompanha 24h e nunca deixou de me amparar – o meu anjo da guarda – “Cara, obrigado de coração por me aturar nesses quarenta e dois anos”.
Não sei quanto me resta pela frente. Sei que não foi à toa que vivi cada um desses dias, então posso presumir que agora cheguei na metade do caminho. Guardo tudo que me serve para continuar na jornada; procuro me livrar do que não me serve, o que me dá a sensação de viver como aquela música do Alan Parsons (também tem um post dela ) - Nothing left to loose.
A vocês que aturam esse blog, o meu beijo e abraço agradecido. Cada vez que passam por aqui – mesmo sem deixar nenhum comentário – na certa vibram com os textos e assim me fazem muito bem. Até o próximo post, ok?

"...feliz aniversário, envelheço na cidade; feliz aniversário, envelheço na cidade..." (Envelheço na Cidade - Ira)

sábado, 23 de agosto de 2008

O siri

Data Estelar 07102007 Diário do Capitão - Cada tripulante dessa nave foi treinado pela academia da Frota Estelar para lidar com as mais diversas situações. Cada um sabe exatamente como proceder em suas tarefas. A disciplina também depende do equilibrio entre o comprometimento e a individualidade. Um dos exercícios que ainda utilizamos é o domínio de alguma arte antiga, de preferência tocar música em grupo como um grupo ou orquestra. Assim, acada um tem a noção do quanto é importante para o todo.



Siri era como chamávamos bicicleta na época em que morei no nordeste. Então, ao invés de bike, magrela, pedala, etc, era simplesmente siri. 

No sistema de áudio da academia o aviso: “A aula de RPM começa em cinco minutos com o professor Jéferson – Estudio 3”... de bermuda para a pratica de bike e monitor cardíaco Polar, lá fui para a primeira aula. 

RPM é praticado da seguinte forma: Uma sala com várias bicicletas ergométricas com comandos especiais, iluminação e cores de uma pista de dança – aquelas de danceterias e discotecas, manja? – e uma seleção de músicas com ritmos e nuances especialmente intercalados para fazer com que todos se sintam motivados a cumprir uma sequência de movimentos com diversos níveis de esforço – tocadas no maior volume possível.

A primeira bicicleta é inesquecível. E, como tive poucas na minha vida, lembro-me muito bem de todas. Assim, separei uma aventura ou evento especial da história de cada uma delas para contar aqui.

O primeiro tico-tico 
Não sei se foi no natal ou na festa de aniversário mas sei que foi em algum momento entre 1967 e 1968 que experimentei a minha primeira condução de um veículo propelido com as minhas forças exercidas em seus pedais de empuxo. Era um tico-tico com assento de madeira e guidão de ferro. 

As rodinhas não possuíam pneus com câmaras, mas borracha sólida (e dura). Com ele fazia diversas viagens intercômodos da casa onde vivia. 

Da sala para a cozinha, da cozinha para o quintal, do quintal para a lavanderia e, quando era época de faxina (as cadeiras ficavam viradas em cima da mesa da cozinha), fazia um trajeto “non-stop” do quintal até a garagem na frente de casa, passando por debaixo da mesa, ao largo do sofá, dando um “piau” atrás do volks do meu pai e retornando pelo centro da sala, triscando no primeiro degrau da escada (a casa era um sobradinho) e estacionando embaixo da mesa da máquina de costura da minha mãe.

Havia também o trajeto “patrulha” isto é, aquele sem rota definida cujo objetivo era atazanar alguém ocupado. E foi em uma expedição como essa, certa feita a noite após o jantar – a minha mãe estava lavando louça e o meu pai na sala vendo o telejornal - que decidi fazer um rasante entre a mesa e a pia - a minha mãe no meio para dar mais emoção - mergulhei convicto e quando me preparava para um “tuneau” a boreste senti um solavanco na rodinha traseira esquerda... os instrumentos ficaram malucos, os controles de direção não respondiam, iria colidir com o paneleiro ou com o guarda-comida, consegui no último segundo virar tudo a direita e me enfiei entre as cadeiras da cozinha... 

Nesse ínterim, soou no rádio o grito atordoante de alguém – Aiêêê! O tal solavanco foi ocasionado pelo atropelamento acidental do dedinho do pé da minha mãe que, claro, berrou a sua indignação e me expulsou do espaço aéreo da cozinha sob ameaças de retaliar lançando um ataque de mísseis terra-ar (uma das chinelas havaianas que usava).

Em São Paulo naquela época havia a famosa garoa e, com isso, o quintal cujo piso era revestido de caquinhos de cerâmica vermelha, ficava escorregadio como o quê. E foi por essa vereda que embrenhei fugindo da ameaça peremptória que, de verdade, derrapei com o tico-tico e fui lançado para fora do mesmo.

Estava escuro. Gritei pelo rádio de emergência SOS e assim que o resgate chegou, descobri que era na verdade uma força-tarefa de busca de prisioneiros do inimigo! Pois é, a minha mãe ainda ressentida pelo atropelamento – que ressalto ter sido sem nenhuma intenção – saiu para ver o porque do berreiro lá fora e sem acender a luz, me deu umas boas chineladas e me pôs para dentro de casa ameaçando e dizendo uns impropérios. 

Entrei revoltado (e aos berros) procurando a guarida salvadora do meu pai.
Da sala ele chamou a minha mãe:

- Amélia, vem aqui por favor?
- O que foi João, esse menino está me infernizando! Passou por cima do dedo do meu pé e ainda foi andar de tico-tico no sereno!
- Você bateu com o que nele?
- Uai, com o chinelo, claro!
- Na testa também?
- Não, só na bunda...vixe! Deixa eu pegar uma colher para baixar este galo!

Pois é, quando voei pelo cockpit do meu caça caí de cabeça na privada do WC da área de serviço.

“A aula é intensa e forte. Se sentir que não vai dar para acompanhar tudo bem ficar girando*. Siga corretamente as instruções e bom proveito do exercício”. Olhei para o meu polar e ví os batimentos: 108. Tudo bem por enquanto.

(*) Girar é quando pedalamos com o sistema de catracas ou de potência permitindo o esforço mais leve possível.

O Tico-tico com garupa
Quando completei quatro anos, ganhei um novo tico-tico. Era a sensação da época – tinha uma garupa! No princípio chiei um bocado levando a minha irmã na traseira porque apesar de ser para isso, o esforço era o mesmo de um tico-tico comum! Direto do pedal para a tração sem catracas. 

Mas não foi transportando a Dai na garupa que vivi a maior experiência com aquele tico-tico.

Uma vez, saí para andar com ele na calçada. Eu ia até a esquina e voltava. Daí eu experimentei virar a esquina... e fui até onde dava para chegar... fiz um baita esforço para subir um pouco de ladeira e virei a outra esquina... e continuei. 

Olhei para os lados e não conhecia ninguém e me deu um medão... continuei na calçada e fui obrigado a virar na próxima esquina... Juro que queria voltar... continuei... Aí eu vi a lojinha de doces que conhecia... me entusiasmei... aumentei a velocidade da pedalada... e,... vixe!... não conseguia parar! ... era uma descida!... a avenida! os carros! Lá na frente!... consegui botar os pés nos pedais de novo e quase capotei... a tempo de fazer a curva dobrando a esquina... continuei em frente... aí eu ouvi uma voz me chamando: Aonde pensa que vai mocinho? – era a minha mãe que já se preparando para sair em minha captura porque estranhou a demora no retorno da esquina.

Caramba! O coração deve estar bombando! As tiras que seguram os meus pés na pedaleira estão me matando! Deixa eu ver o monitor... 156... eita!

A Monareta
Eu já morava em Recife-PE e já nem cabia mais no velho tico-tico de garupa quando ganhei uma bicicleta de verdade. 

É! bi-cicleta significa “duas” rodas e tico-ticos tem três. 

Era uma monareta vermelhinha e veio com rodinhas para eu não cair, e com uma buzina de pilha em forma de foguete. 

Demorei um tempão para criar coragem de virar as rodinhas para cima e andar de verdade de bicicleta. Mas fiz isso num final de tarde e quando o meu pai chegou do serviço fiz uma demonstração para ele ver na frente de casa, na rua que não era pavimentada.

Primeira volta, segunda volta e terceira volta; o esperado elogio, ele entrou para jantar e continuei animado. Aí fiz uma curva mais fechada e derrapei. Descobri, acredito que em tempo recorde, que a areia fina em cima de outra compacta faz derrapar qualquer pneu. Valeram dois esfolões nas pernas e joelho mas não desisti. 

Dali para frente eu dominaria aquela máquina e faria ela me levar aonde e por onde fosse possível. E foi assim mesmo. Conheci um garoto chamado Toinho. Ele tinha uma bicicletinha parecida com a minha então andávamos pelas ruas do bairro. Haviam charcos e a diversão era entrar com bicicleta e tudo mais... era divertido. Sei lá se peguei alguma doença – sempre fui saudável. Com a monareta vermelha aprendi a andar de bicicleta.

“Subida! Adicionar pressão! Levantar e segurar na frente do guidão!” O polar avisava: 160!!!

A primeira Caloi
Mudamos para Olinda. O bairro ainda possuía quarteirões sem nenhuma casa ou prédio e suas ruas eram sem pavimento. 

Ganhei a minha primeira Caloi, uma bicicleta média com guidão em forma de Y de cor púrpura brilhante. A turminha tinha cada um um “siri” para andar pelas ruas nas tardes quentes e as vezes a noite também. 

Certa feita a turma decidiu subir até o morro da caixa dágua. Em volta dele havia um morro que estava sendo aplainado para a construção de um conjunto habitacional. Assim, quem quisesse barro (usava-se muito dele nas construções) era só cavar o morro e encher o caminhão.

Imagine só: estradas com subidas e descidas, curvas e retas, crateras que enchiam com a água da chuva... caminhões indo e vindo... e uns oito moleques de bicicleta zuando. 

Esta aventura foi citada no post “A vida que tem nas coisas” a trombada ciclística – e tudo aconteceu assim: O Walter estava com uma bicicleta caindo aos pedaços. Tanto que quando estávamos descendo uma ladeira com uma curva no meio ele empinou a bicicleta para tirar uma onda e a roda dianteira caiu... ele bem que tentou manter ela empinada mas desviou do caminho, esbarrou no Geraldo que perdeu o equilíbrio e trombou com o Ricardo mas se recuperou, já o Ricardo que não tinha visto o Walter perder a roda da frente porque era muito distraído, tomou um baita susto com a trombada com o Geraldo e duma freada, derrapou e esbarrou no Múcio e deu de lado com o Walter ainda se equilibrando e esborrachou na estrada. O Múcio para evitar cair, cruzou a estrada depois do esbarrão e me colheu de lado... caímos os dois barranco abaixo numa poça de barro vermelho... bem, leiam o post do link para ver o resultado. Aquela magrela ainda durou um tempão...

“Recuperação, moçada! Levantar no banco!... Vamos alongar os braços, ombros e pescoço... aliviem a pressão, não parem de pedalar!” Foi estranho, mas mesmo se eu quisesse não conseguiria parar de pedalar, aliás só quando a aula acabou, com a ordem “fim. Agora vamos descer e alongar os membros inferiores é que acreditei ser capaz de parar de pedalar. Detalhe: Polar a 150.

Barra Forte, a segunda Caloi
Bem, na verdade essa bicicleta era do meu pai. Mas como estava enferrujando no oitão há uma data, eu usava para ir na padaria, nos treinos no colégio, para encontrar com a turma na pracinha, etc. 

Ela veio com um farol e dínamo. 

Na verdade grande coisa, porque quando estava escuro demais tínhamos de ir mais devagar e, para ir devagar, menos força na pedalada, menos força na pedalada, menos giros no dínamo... luz que não servia pra nada! 

Mas foi com a barra forte que fiz umas manobras radicais como: sem as mãos; pés no guidão; em pé no quadro (surfar)... esfolões e dente quebrado como troféu pelas proezas.

“Ultima parte... como em subidas e descidas, vamos forçar a pedalada e depois aliviar... três sequências somente, hein?!” Será que vai ter frequência pro Polar medir? Sei não.

A Caloi Moutain Bike
Um dia, já formado e sedentário, me bateu saudades de andar de bicicleta e comprei uma moutain bike na loja de um cliente. Fui buscar lá em Santo André. 

Andei um pouco na Cidade Universitária, a levei para Piracaia, no Ibirapuera e em outros parques. Mas como disse, estava sedentário demais. A última vez que a usei, foi num passeio no Parque Terceiro Lago, Guarapiranga. Passei mal e decidi que aquilo não era mais para mim. Um dia um garoto conhecido da família a levou de presente. Foi melhor assim.

O monitor berrava: 165!!!! Só faltou aparecer as duas mãozinhas fazendo top-top!

A Caloi T-Type
É (era) a minha bicicleta atual. Comprei porque criei vergonha na cara e fui melhorar minha forma física. 

A T-Type é um modelo moutain bike com uns acessórios high tech (amortecedores dianteiros, quadro especial, aros de alumínio, etc). Com ela aprendi a andar na cidade e em trilha – e por isso, a necessidade de usar capacete e luvas. 

Bem, como ela é muito recente, não há ainda uma história especial para contar, a não ser o atropelamento de uma senhora no Ibirapuera. 

Era uma manhã de sábado e conduzia a minha bike pela ciclovia... uma senhora que andava pela rua do parque de forma errática entrou bem na minha frente e, apesar de frear, gritar e tentar desviar, colhi a pobre senhora de frente. Ela não se machucou mas me esculhambou...

Fim da aula; alongado, subi para o vestiário e sentei e chorei. Como doíam os pés!!!

Siri, bicicleta, tico-tico... velocípedes que ilustram a nossa vida dando um toque especial de tarde quente com pic-nic. Feche os olhos e imagine o som “trim-trim-trim”.


I will follow - James Taylor

Yonder mountain so high
I can't make it all on my own, no Rolling river why so wide?
To sweep me up and to bear me on
Up against the sky so bright
That I can't even close my eyes

I know I will follow (Follow love)
Yes, yes, I will follow (Follow love)
I will follow (Follow love)
Follow love

Growing slowly like a tree
Someday soon, darling I love you I love you
Soft and gentle, full Summer moon
Set my soul free

Thank you, baby
Drifting like a cloud in the sky
I can see myself from high above

I know I must follow (Follow love)
Somehow I will follow (Follow love)
I must follow (Follow love)
Follow love

Oh, half the future and half the past
They're waiting inside your eyes
Yes, and after all of this
To last and last
Till at last it's your time to rise, rise
True believer that

I am I am blind, lead me on (lead me on)
Blessed receiver of your love
I own my own time
And I've been holding on (holding on)
Leave the word unspoken
And the spell will not be broken

And I'm bound to follow, now (Follow love)
I know I must go (Follow love)
I must follow (Follow love)
Yes, I must follow (Follow love)
Someone to hold my hand (Follow love)
Somebody to lead me on(Follow love)
Somebody to walk beside me (Follow love)
Someone to follow me now (Follow love)
I must follow love (Follow love)
I will fall in love I will follow love (Follow love)
Anywhere it leads me I will follow love (Follow love)
Follow love

As mulheres da vida dela

Data Estelar 02102007
Diário do Capitão - Um estranho evento aconteceu assim que nos aproximamos do planeta classe "M" do sistema solar de Orion. Nossos bancos de dados foram corrompidos por um info-virus. Perdemos toda a dirigibilidade da nave e os controles de sustentação de vida estão trabalhando em emergência. Nossas equipes de manutenção estão trabalhando para evitar uma tragédia.

Ela nasceu em Cássia dos Coqueiros, lugar perto de Cajuru ou melhor, nos arredores de Mococa. Nasceu em casa mesmo, sob a intervenção de uma parteira da região. Teve Icterícia, o que lhe valeu o apelido de “amarelinha”. Viveu os primeiros anos por ali, pés descalços, vestidinho de chita – tinha o cabelinho cor de bronze, quase dourados. A primeira mulher da vida dela foi a minha avó – Dona Maria Antonia. Mulher brava que dava conta de alimentar a família com o singelo ordenado do marido com muita inventividade e determinação. Não importava onde morava – mudavam de casa (sítio) a cada ciclo de plantio ou de manejo de rebanho – sempre cultivava próximo de casa uma horta, algumas galinhas poedeiras, fazia buscas nas árvores frutíferas que ficavam na propriedade. Então sempre havia algum alimento para reforçar o feijão com arroz. Aos nove anos a minha mãe veio com a família morar pela primeira vez em São Paulo.
O meu avô trabalhava em serviços temporários que mal possibilitava o pagamento do aluguel do “dois cômodos” que ocupavam com quase dez filhos. Um dia chegou filho mais velho com um jornal onde dizia que um proprietário rural precisava de um cuidador para sua fazenda. Foi a chance do Seu João de fazer o que mais sabia. A família voltou a morar no interior, agora mais perto da capital, era em Santana do Parnaíba. Outras mulheres da vida dela: suas irmãs – Lourdes, Terezinha, Zilda, Izair e a mais nova – Benilde. Foi através delas que aprendeu a ser uma mulher. Então, no ano de 1953 – com treze anos – veio morar novamente na capital - dessa vez sozinha - na casa da irmã Lourdes.
Arrumou emprego em uma fábrica de utensílios e brinquedos de plástico e voltou a estudar. Algum tempo depois, a outra irmã que também morava em São Paulo – Terezinha – foi mãe e precisou que ela lhe ajudasse com a pequena Márcia. Foi quando ela se mudou para o bairro onde iria conhecer o meu pai – conhecer ele foi bem depois - antes ela morou no centro da cidade numa pensão para moças. Estudando no Colégio Jabaquara a noite, indo trabalhar no Instituto Nacional do Pinho (depois IBDF e atual Ibama), dando um duro danado para pagar o pensionato dividido com a irmã Izair – saía para trabalhar e estudar e voltar com o dinheiro certinho da condução e que raramente possibilitava um copo de café com leite nas noites geladas da São Paulo quase quatrocentona, passou muito frio e fome. A pensão ficava na Major Sertório, então era andar o máximo possível a pé para economizar algum trocado que faria a diferença para comprar um vestidinho simples que seria usado nas muitas tardes de sábado na praça ou simplesmente passeando pelas calçadas – programa de moça pobre.
E essa moça pobre tinha muitos sonhos. Aliás sempre os teve. Aprender a tocar violão e cantar, se apaixonar por um príncipe, ter uma família e poder dar muito amor a eles, era uma simples mostra do que ela sonhava. E quando conseguia sonhar assim, esquecia da vida difícil que levava, das coisas tristes que havia vivido com a família agora já dispersa em casas distintas, cada um dos irmãos buscando seu caminho na vida de seu jeito e Dona Maria Antonia e o Seu João ainda lutando muito para sobreviver com parcos recursos financeiros. Pois bem, após conhecer alguns pretendentes ela escolheu um rapaz magrinho e alto que tinha um olhar que mexia com ela. Eles eram para “se casar”. E, depois que ele se firmou no emprego como contabilista da agência Carrão do Banco Brasileiro de Descontos, foi o que aconteceu numa tarde chuvosa e fria de outubro de 1964. A festa foi na casa das meus avós paternos com direito a lona esticada no quintal e churrasco de bife (aquele que “espetam” um palito no pão). A Lua-de-Mel, como era tradição, foi em Poços de Caldas. E quando voltaram foram morar no bairro do Carrão, em uma simpática edícula quarto-sala-cozinha-wc alugada. E foi quando morávamos lá que nasci um ano depois. Em 1967 nasceu a Daí, e em 1971 a Dal.

Data Estelar 02102007
Diário do Capitão - Suplemento - Conseguimos reparar o nosso banco de dados e o computador voltou a funcionar normalmente. Se não fosse a determinação da tripulação - principalmente da alferes responsável pela engenharia de processamento de dados, estivemos bem perto do estado de deriva.

A história dela e suas mulheres agora é retomada com as duas filhas – a Daí e a Dal. A Daí, uma bebê linda de olhos pequeninos e cabelos lisos como o que, com um aninho tinha a cara redonda e uma vocação para ser independente que um dia, vinte e poucos anos depois, iria determinar seu futuro bem longe do Brasil.
Precoce, adorava as músicas que tocavam no rádio e na tv – a Jovem Guarda e os programas do Chacrinha, Silvio Santos e do Roberto Carlos sempre tinham as moças que dançavam... ela as imitava com perfeição. A Daí foi a primeira pessoa da família toda (contanto com a família do meu pai e da minha mãe – juntas) a aparecer na TV – ela vestia uma roupinha modelo “baianinha florida” e foi dançar com o grupo da escola uma coreografia num programa da TV Universitária do Recife. A Dal nasceu com muita saúde. Tanto que era do tipo “bebê capa de revista”, cheia de dobrinhas e bem tranqüila. Foi a alma que Deus enviou para dar a minha mãe um contraponto de equilíbrio na sua vida. São muito ligadas até hoje. A Dal cresceu de bem com a vida. Foi “muleca” aprontando das suas e participou demais das “aventuranças” que foi a vida delas – a minha mãe, a Daí e a Dal. A minha mãe continuou sonhando. E aquele sonho de aprender a tocar violão e cantar – que realizou graças ao meu pai que ajudou a comprar o instrumento e ao jovem professor de violão e concertista Francisco Araújo, Chico, como era conhecido - ingressou no mundo das notas musicais e partituras e, com três filhos pequenos, depois de estudar no “madureza” para terminar o segundo grau, enfrentou - e passou - o vestibular para Universidade Federal de Pernambuco e se matriculou no curso de música. Ainda me lembro quando a acompanhávamos nas aulas vespertinas de canto-coral, teoria e violão clássico com o Professor Carrion. Todos cresceram ouvindo Beethoven, Mozart, Bach e Chopin. A Daí conheceu o piano da prima Lúcia e quis aprender... um dia depois de voltarmos de uma viagem a Paulo Afonso, o piano estava na sala prontinho para que a Professora Amélia pudesse ensinar a sua primeira aluna de piano, a sua filha Daielma. A Dal preferiu aprender violão. Mas antes passou pela iniciação musical aprendendo flauta doce, ritmos e percussão. A especialização da minha mãe era em licenciatura plena mas desenvolveu na universidade com a colega Raquel, o método alemão de musicalização infantil Carl Orff.
A Daí foi estudar dança na mesma época que a minha mãe conheceu uma atividade que simplesmente a encantou: a ginástica rítmica. Isso aconteceu numa tarde que ela nos levou ao Olinda Praia Clube na natação. Ela ouviu o som da música que tocava no salão superior do clube e foi lá espiar. Ficou encantada. Começou a fazer aulas e depois de um tempão e de cursar diversas matérias na área de expressão corporal e dança, decidiu dar aulas na garagem de casa. Ali nasceu o Centro de Artes Amélia Santos, a “academia”. Ressalto que naquela época o negócio de ginástica rítmica era novo. As faculdades de Educação Física ainda não tinham assimilado este tipo de atividade física e a considerava como expressão artística. No CAAS a Daí desenvolveu diversas atividades de expressão corporal – ela já era mais do que uma aluna de ballet clássico. Então criou as turmas que iam do balézinho ao clássico de diversos níveis. A Dal não ficou de fora. Estimulada pela presença da minha mãe nas aulas de jazz e outras que nem sei falar muito a respeito - não entendo nada disso - sempre estava no meio das coreografias e atividades teatrais. A coisa cresceu e contratamos diversos professores.
Um dia a minha mãe se lembrou da minha avó Maria Antonia. Conversou com o meu pai e foram a São Paulo para buscá-la. Vieram a minha avó, sua sobrinha criada como filha e a filhinha dela. Tudo que a minha mãe queria era dar algum conforto a ela. Por dois anos, ela fez o possível para que isso acontecesse. A minha avó precisou voltar a São Paulo, ficou muito complicado para viver conosco.
A vida foi acontecendo. Diversas vezes a vi defendendo causas nobres. Certa feita descobriu que o filho da empregada – na época com cinco anos - não tinha certidão de nascimento. Só sossegou depois de ver a certidão redigida e carimbada. E para isso, brigou com atendentes da maternidade onde o menino nasceu, disse uns impropérios para o cartorário que fez corpo mole, ameaçou de chamar o prefeito para testemunhar o descaso! Bem, ela sempre foi assim.
O rapaz magro e alto de olhar cativante que conquistara o seu coração – seu esposo - ficou doente. E foi ela quem ouviu sozinha da boca do médico o diagnóstico – Leucemia Mielóide Crônica. E deu conta do recado. Foi buscar em todos os lugares possíveis algo que diminuísse aquele impacto. Mudou a alimentação dele para que recebesse mais nutrientes e ajudar no tratamento. Deu toda atenção e carinho para que ele ficasse melhor. Nesse momento na vida dela surgiu uma outra pessoa que fez a diferença: Dona Nevinha. Conselheira, fez o papel que seria de Maria Antonia que estava em São Paulo. O tempo foi passando. A escola perdeu um bocado do seu viço - o meu pai também. E quando ele decidiu voltar a morar em São Paulo, nosso padrão econômico havia mudado radicalmente. Passamos tudo adiante. Vendemos ou alugamos os imóveis e viemos morar em São Paulo. Foi um baque para ela. Era mais do que perder coisas e o nível econômico. Ela estava perdendo o seu marido. Ele faleceu depois de uma luta de 4 anos.
Aqui em São Paulo ela deu aulas de música – piano, violão e teclado. Formou uma pequena turma de ginástica com suas amigas da vizinhança. Aprendeu a pintar quadros – treinava em qualquer superfície lisa: paredes, caixas de som, laterais de armários, etc. A Daí foi morar nos EUA em 1991 no mesmo ano que Maria Antonia Faleceu; A Dal casou em 1993. A Carol, filha da Dal, nasceu em abril de 1994. Era mais uma mulher na vida da minha mãe e penso que possibilitou uma nova fase na vida dela. Cresceu como se a avó fosse mais uma mãe além da Dal. Temos fotos da pequena Carolina tocando o piano, dançando na frente do espelho, imitando a vovó nas aulas de ginástica. A minha Bia nasceu em 2005. De tão grudada, brincamos com dizendo que ela é o anexo da vó. A Daí vai ser mamãe da Mariana em novembro. A passagem da Vovó Amélia já está marcada – 10/11.
A amarelinha que nasceu num sítio em Cássia dos Coqueiros já foi mais de uma dezena de vezes aos Estados Unidos. Conhece a Europa da Inglaterra até a Itália. Já passeou em um cruzeiro na costa do Brasil. As mulheres da vida dela... penso que minhas irmãs – pessoas maravilhosas – tem muito dela. A coragem de enfrentar a vida e a adversidade; A ternura de acolher sempre para perto aquele que precisa de ajuda. Estou muito orgulhoso de ser filho da Amélia.

O tintureiro fiel

Data Estelar 24092007
Diário do Capitão - Recebemos do comando da frota a nossa nova missão. Será um longo caminho e há a previsão de conhecermos novos mundos e novas tecnologias. Todas as vezes que me preparo para embarcar em uma nova aventura faço uma reflexão a respeito das minhas convicções e de como são corretas as diretrizes que regem a humanidade. Se antes agíamos como bárbaros a cada descobrimento, hoje agimos com cuidado para não interferir na evolução natural dos habitantes dos planetas. Enfim, penso que assim é possível dar sentido ao que fazemos em nosso trabalho de ir onde nenhum homem foi.

Adoro passar roupas. Verdade! passo com as duas mãos, observo os vincos produzidos pela costura, ajuste de colarinhos, o sentido da textura do tecido... que me faz pensar no sentido da vida. A vida que também precisa de alguma técnica para ser passada. As tramas dos fios muito se assemelham com o encontros e desencontros que temos com as outras pessoas, a rigidez de um colarinho que nos lembra que há momentos que devemos ser formais diante de um evento, o perfume gostoso do amaciante que dá vontade de vestir a roupa logo depois de passá-la - como num bom papo de fim de uma tarde quente tomando uma limonada saborosa, gelada e doce; o botão que precisa ser costurado no lugar daquele que se desprendeu - como as coisas e relacionamentos que começam, duram e acabam.

Passar roupa tem ainda mais a ver com viver, pois é preciso paciência e perseverança. Aquele vinco feito de qualquer jeito ou o que se forma na pressa, aparecerá ao vivo e em cores bem na frente de todo mundo quando estiver vestindo a roupa naquele evento super importante - alguma semelhança com "ser imprevidente" que todos nós de alguma forma somos?. Para passar roupas com perfeição é necessário umas 2.000 horas de ferro quente. Enfrentar sêda, algodão, linho (passar camisas de linho ninguém merece), polyester, nylon e outros sintéticos e naturais não é para qualquer um. Então, se não passa as próprias roupas olhe com mais carinho para quem faz isso por você.

Passar roupa começa logo depois de tirará-las úmidas da máquina - tanque - bacia - balde. Uma camisa social, por exemplo, se for colocada para secar pendurada em um cabide e na sombra, será mais fácil de passar do que se for pendurada direto num varal ao sol. Lógico que o sol esturrica... e tem aquela chuva repentina que deixa a roupa com um cheiro ruim. Olha só: na vida também não tem coisas que duram mais de acordo com o carinho que empreendemos?

Está bem, "tintureiro" é uma profissão bem mais abrangente que "passadeiro de roupas" mas é que aqui em São Paulo as pessoas vincularam mais a imagem da tinturaria a quem entregava o ternos limpos e passados do que a das lavanderias (ambos têm o profissional que passa roupas). Daí aquela lembrança do barulho da lambreta na calçada e o chamado: "tintureiroooooô"!

Aprendí algo novo na terapia; Diz respeito do que Irvin D. Yalon pensa a respeito do que a humanidade faz a respeito da sua existência. Para ele, as pessoas possuem quatro condenações: o homem é condenado a ser livre (livre arbítrio - e único responsável pelo que lhe acontece), a morte (um dia todo mundo morre), a ser só (por mais ligado que seja a outra pessoa, nunca ele é a outra ou vice-e-versa) e a dar sentido a sua vida.

É sobre dar sentido a vida que quero me referir sobre passar a roupa. É como consertar, arrumar, conduzir a vida como ela deve ser que parece estarmos passando ela - e por ela também. Se Yalon tem razão não sei. Mas concordo que a vida precisa ter sentido. Espero que esteja "passando" a minha com a temperatura do ferro e no sentido certo.

Love reign o´er me - The Who

Only love
Can make it rain
The way the beach is kissed by the sea.

Only love
Can make it rain
Like the sweat of lovers'
Laying in the fields.

Love, Reign o'er me.
Love, Reign o'er me, rain on me.

Only love
Can bring the rain
That makes you yearn to the sky.

Only love
Can bring the rain
That falls like tears from on high.

Love Reign O'er me.
On the dry and dusty road
The nights we spend apart alone
I need to get back home to cool cool rain.
I can't sleep and I lay and I think
The nights are hot and black as ink
Oh God, I need a drink of cool cool rain.

Navegar é preciso, viver não é preciso

Data Estelar 18092007
Diário do Capitão - Neste post invertí tudo. Estou na minha nave, trajando o uniforme da Frota Estelar enquanto que abaixo a ficção é o enredo do post que, como num trançado, duela com fatos vividos... ou seria melhor "morridos".

Rizamos as velas e nos preparamos para entrar no canal. A madeira do casco rangia como queixumes de alguém levado ao limite no esforço. O vento bateu firme no velame, o barco adernou e ganhamos velocidade. A roda vibrava a força da correnteza que passava pelo leme.

O primeiro dia no novo emprego foi bizarro. Tudo que eu queria era mergulhar de cabeça na nova rotina sem pensar que os outros que lá já estavam há muito tempo antes de mim me mediam enquanto eu ficava tentando entender e fazer alguma coisa, algo que sequer sabia. Trabalhar em uma empresa, é como conviver em uma família onde se entra como agregado.
O mar não tem cabelos; as ondas chicoteavam o casco de madeira com o furor da raiva de Posseidon. O respingo salgado no rosto lembrava lágrimas. Tudo que eu deveria pensar era em passar sem bater.
Nunca fui de chorar, nem quando o meu pai se foi no último dia de inverno de 1988. Mas a angústia era tamanha; era como se todo o peso do mundo estivesse dentro do meu peito então deixei ir pelo pranto. Achava que assim tudo melhoraria mas não foi o que aconteceu.
As rochas! Como fantasmas, obscuras e negras desaparecendo entre as ondas e pela luz crespuscular fazia despontar no coração a dor do medo. Todo o pano na buja! Vamos passar em nome do Salvador e contra a vontade da sereia que canta para o fundo do oceano nos levar!
Era tarde da noite. Não sabia o que estava mais escuro, o quarto ou o meu coração sem esperanças. E agora?
Meus dedos na roda do leme estavam dormentes. O frio da latitude antártica fazia brincos de gelo com os borrifos nos cabos da murada. O mar subia e abaixava proa adiante. Lembrei de Circe, a feiticeira que foi convencida por Odisseu a lhe contar do caminho para Ítaca.
Meu Deus, como é frio! Segurei no apoio de aço inox com uma mão e com a outra mal conseguia manter a maleta junto a mim. O motorista do transfer que levava os passageiros – e eu entre eles - do Electra II para o terminal de desembarque de passageiros em Congonhas parecia insandecido. Na sala de bagagens, peguei o telefone e coloquei na orelha, instantaneamente devolvi ao gancho. Era frio como gelo... Foi a recepção calorosa que São Paulo me proporcionou depois de 16 anos fora.
Nem sei porque olhei para estibordo, só sei que por um segundo vi tudo parar. Os altos e baixos das ondas como montes e ravinas; a luz tênue do que fora o pôr-do-sol como um adeus. Definitivamente estávamos no canal, agora não dava mais para retroceder.
“Daniel, aonde estão os demonstrativos dos cálculos da depreciação?” “Cálculos? Hã?” Acordei de um pulo da cama, o coração batia a mil. Cadê o demonstrativo? Eram 3 e meia da madrugada e ela dormia profundamente do meu lado e no ventre a Bia.
De repente o alarme! Rochas a bombordo, todo o leme! Mas não deu tempo de reagir, o barco deslizou de lado, impotente contra a natureza, enxerguei as algas e cracas na pedra negra, foi por um triz, um raspão na quilha.
“Oi, me chamo Daniel. Vim para a entrevista e, se der tudo certo, para começar a fazer terapia...”
Foram dias que só a determinação foi capaz de mover nosso barco para contornar o Horn. O mastro avariado, o quase motim e o vazamento no porão. Agora depositamos no outro a esperança de não naufragar. Vamos passar!
“Sinto muito, não vou lhe dar guarida. Vá embora pois se ficar vou adoecer”.
Larguei a roda do leme, deixei que o imediato a segurasse enquanto me lançava da ponte para o convés... aquela onda de través arrastou tudo, inclusive o que estava muito bem amarrado, se não liberasse o fardo no mar seria como uma âncora a nos arrastar ao fundo.
A vida é justa. É a colheita do que plantamos. Em apenas duas situações podemos dizer que é uma fatalidade: o nascimento e a morte. Nas duas nada podemos fazer. Nas outras, é o resultado da nossa imprevidência.
Vira! Vira! A roda do leme girou e contornamos a rocha. Agora o breu se instalava para reinar. Precisamos sair já ou nada mais vai fazer sentido.
“Me perdoe Pai, sou pequeno e me esqueço do quanto me protege e me quer bem; Sem a tua luz nada sou, nada consigo. Em ti sou forte e tudo posso”.
Como se passássemos de um set a outro o mar de repente ficou calmo. Passamos! E agora? “Se por mim perguntarem, diga que fui por aí”.

Eu me acerto - Zélia Duncan

Não pensa mais nada
No final dá tudo certo de algum jeito
Eu me acerto, eu tropeço
E não passo do chão
Pode ir que eu aguento
Eu suporto a colisão

Da verdade na contra-mão
Eu sobrevivo
E atinjo algum ponto
Eu me apronto pro dia seguinte
Escovo os dentes

Abro a porta da frente
Evito a foto sobre a mesa
E ninguém aqui vai notar
Que eu jamais serei o mesmo.

Escovo os dentes
Abro a porta da frente
Evito a foto sobre a mesa
E ninguém aqui vai notar
Que eu jamais serei o mesmo.

A minha sobrinha é roqueira

Data estelar 09082007
"Diário do Capitão - Nosso sistema de rastreamento identificou sinais de comunicação de um objeto ao largo do sistema solar Antares. Seguimos para interceptá-lo e nos deparamos com um equipamento similar as sondas lançadas pela terra no final do século XX. A semelhança não estava só no formato e tecnologia. O sinal emitido era na verdade música. Isto mesmo, música - estilo rock'n roll. Pensamos se tratar mesmo de uma sonda terrestre mas descobrimos se tratar de uma civilização de um planeta exterminado por uma colisão com um mega asteróride. Posicionando em nossa linha do tempo, o acidente ocorreu quando na terra os dinossauros ainda viviam".


"Tio eu faço parte de uma banda!
Ah tá Carol, eu também ensaiava na banda marcial do colégio nessa época para o desfile de sete de setembro...
Não tio, eu faço parte de uma banda de hard core..."

Pois é, a Carol é roqueira. Com 13 anos e as amigas começaram uma banda de hard core (rock com letras pesadas - foi o que ela me disse). Caramba, fiquei todo orgulhoso. Aos 13 eu descobrí que rock era bom. Era época de discoteca, é verdade. Mas o Evaldo me deu uns toques a respeito do que era rock. E numa tarde fui na única loja de discos que tinha a proposta de vender discos que não fossem "enlatados" e adquiri o meu exemplar do álbum do Led Zeppellin (aquele que na capa tinha umas crianças loirinhas subindo numas pedras).

1978 era um tempo engraçado. Tinha um misto de disco e pop que fazia a alegria da moçada que queria dançar. Rock era coisa de cabeludo e barateado... Olha podia até ser, mas eu não estava muito preocupado com o que eles fumavam ou se picavam, mas sim com o som mágico que saia das caixas de som. Aliás não era mais a "eletrola philips" (vitrola) ou o "três em um national" que tinha um pino que dava para colocar até cinco discos de uma vez e eles iam caindo no prato quando o debaixo acabava. Era "sistema de som" com reciver (que fazia as vezes de amplificador e distribuidor e turner), o toca-fitas k7 duplo e o famoso toca-discos com agulha garrard.

E eu colocava o som no máximo e viajava na música. Ok, era um mundo que teve seu auge em 1971, mas a reverberação (outro aparato legal pra falar no microfone, o reverberador) continuava e nós, reles adolescentes não tínhamos uma lista de ídolos lá muito grande.

Deep Purple, Pink Floyd, The Who... Jimmy Hendrix, The Doors e Jim Morrison... Os álbuns eram caros e raros. Então a moçada se acostumava com trilhas sonoras de novelas e quando tinha um bailinho de garagem, não faltavam os carinhas de camisa social branca, calça preta e sapato de bico fino - garrafas de coca-cola e rum - as meninas adoravam o visual. Daí rolava Bee Gees, Donna Summer, Earth, wind and fire, etc. - era discoteca de garagem. Os discos de novela? Serviam para o momento do "pega", isto é, músicas lentas - rostos colados por horas e beijos depois. Para quem não sabe, os bailinhos de garagem possibilitaram o comportamento juvenil que hoje chamam de "ficar".

Outro dia peguei um DVD de um filme nacional "muito lôco" chamado "Durval Discos". Pois não é que eu entendí direitinho o ideal do rapaz? Confesso que as vezes me dá saudades do chiadinho da agulha nos LPs. Agora o álbum é um quadradinho que tem um livreto com letrinhas miudinhas e misturadas com as cores e imagens. Já tentou ler as letras das músicas do CD? Pior, ler a biografia do grupo ou banda? Se ainda fossem albuns (mesmo que com cds) seria muito legal ter aqueles exemplares - olha só, daria para encartar um pôster!

Um pouco mais do jurasic rock? Eagles, Rolling Stones, America... Ah, surgiram nessa época as bandas de rock progressivo como o Yes e o Alan Parsons Project.

Parabéns Carol!

Um pouquinho de Drumond

"... se achar que precisa voltar, volte.
Se perceber que precisa seguir, siga.
Se tiver tudo errado, comece novamente.
Se tiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-as.
Se perder um amor, não se perca.
Se achá-lo, segure-o".


Carlos Drumond de Andrade

Teatro dos Vampiros - Legião Urbana

Sempre precisei De um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto
Nesses dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos

Esse é o nosso mundo
O que é demais nunca é o bastante
A primeira vez Sempre a última chance
Ninguém vê onde chegamos
Os assassinos estão livres
Nós não estamos

Vamos sair
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão
Procurando emprego
Voltamos a viver
Como à dez anos atrás
E a cada hora que passa envelhecemos dez semanas

Vamos lá tudo bem
Eu só quero me divertir
Esquecer desta noite
Ter um lugar legal pra ir
Já entregamos o alvo e a artilharia
Comparamos nossas vidas
Esperamos que um dia nossas vidas possam se encontrar

Quando me vi tendo de viver
Comigo apenas e com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito
Eu não esqueço

A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo
Eu, homem feito
Tive medo e não consegui dormir

Vamos sair
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão
Procurando emprego
Voltamos a viver
Como à dez anos atrás
E a cada hora que passa envelhecemos dez semanas

Vamos lá tudo bem
Eu só quero me divertir
Esquecer desta noite
Ter um lugar legal pra ir
Já entregamos o alvo e a artilharia
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim
Não tenho pena de ninguém.

A Tatuagem I e II

Data estelar 26062007
Diário do Capitão - Encontramos as naves da federação "Charles Darwin" e "Beagle" que acabaram de voltar de uma expedição de pesquisa antropológica no sistema solar antarius. Fizeram o Primeiro Contato com três civilizações que acreditamos serem da mesma origem que a humana. Identificaram traços comportamentais peculiares ao do povo da terra.


Estava assistindo "Miami Ink" e me deu vontade de fazer uma tatoo em cima da antiga "lua e estrela" que fiz com 14 anos. Vixe, pelo menos 27 anos que a luazinha e a estrelinha estão no meu braço.
Era uma idéia do Rico fazer uma tatuagem. Os outros garotos faziam porque eram surfistas (a praia de Olinda tinha onda? só tirando uma mesmo) mas nós eramos bicicleteiros, andarilhos, bagunceiros e outras coisas de moleques comuns de quem cresceu com o sol e em cajueiros.

E queriamos uma tatoo. Fiquei imaginando como iria ser a minha. Pensei numa âncora. Blah! âncora do Popeye? Não. Desenhei um tubarão... parecia um bagre... Uma cruz? não, católico demais.
Pitacos pintaram... "que tal uma bunda?"... "hei! faz uma de coração com uma flecha e escreve o nome da namorada"...

Decidí por uma lua crescente e uma estrela de quatro pontas. Simples e só.
Quando cheguei no ponto de encontro (embaixo duma mangueira num dos vários terrenos no quarteirão de casa) o Rico, já estava lá sendo tatuado. Achei meio esquisita: dois morros com um sol poente e uns pássaros voando. Olha, ele não me deu autorização para dizer o que o pessoal falou de sua tatoo depois de pronta, então me limito a dizer que dei muitas gargalhadas com a gozação cruel da turma.
Tatuagem naquela época significava desenhar com esferográfica na pele e depois perfurar pacientemente ponto a ponto todo o delineamento com uma agulha de costura e nankin. A agulha, o futuro tatuado trazia de casa. O tatuador enrolava uma linha que ia do olho até quase a pontinha dela. Amarrava firme e mergulhava no nankin e fazia o seu trabalho. Se doía? ô. Mas sem essa de reclamar. Tinha uns que levavam pomada de xilocaína outros uma garafa de pitú. Ser tatuado era coisa pra macho.
Tatuagem pronta, lá vou pra casa todo contente. Dia seguinte tinha aula e ia mostrar pra cambada da sala de aula a minha proeza. Cheguei, entrei e fui tomar um banho. O braço tava inchadaço e super dolorido. Pensei em pedir um analgésico pra minha mãe mas fiquei quieto, dia seguinte passaria e a glória de ser o primeiro tauado da classe iria compensar.
Já viu que quando temos um machucado, tudo vai lá? Pois é, o que eu tomei de esbarrões naquele dia na escola foi de lascar. Parecia que estava jogando basquete! Sem contar o "fala aí Dan!!!!" com o famoso tapão no ombro bem em cima do inchadão.
É, fiz sucesso. Alguns ficaram impressionados com a minha coragem, outros tiraram sarro da minha lua e estrela - xí, coisa de viado! - Mas fiquei na minha, porque fazer uma ninguém tinha feito até então. Fiz tanto sucesso que foram contar pra minha irmã. Que lógico, quis conferir e... quase contou pro meu pai.
Com aquele calorão e eu de camisa pra tudo. Deixei de pular na piscina de casa por uns 3 meses. Daí um dia, a turma tava toda lá e sismaram de me empurrar pra água... Fiquei abaixado até o pescoço um tempão (enquanto o meu pai por alí saracuteava) e quando pensei que ele tinha ido ver alguma coisa na sala, saí rapidinho e já ia jogar a toalha salvadora nos ombros quando ouví a pergunta: "que diacho é isso no seu ombro, rapaz?"
Me enxuguei e dei uma de mané... "'é um desenho, pai..."
"A caneta, né?"
"foi..."
Bem, resumindo ele mandou eu tirar "aquilo"do braço. Filho dele não era tatuado... que absurdo!
Fiquei longe da piscina e dele por mais uns tempos, ele ia esquecer e assim ia dar tudo certo. Mas não foi bem assim. Era época de boletim. E o meu não ia nada bem. Daí boletim vermelho e tatuagem no braço foi a gota dágua pro velho pegar no meu pé por mais tempo que eu estava preparado. Fui recuperar as notas e aos poucos ele deixou pra lá. Igual aconteceu na escola, vieram as férias. Quando voltei no semestre seguinte já não era nenhuma celebridade, aliás lembraram que uns pioneiros já haviam inaugurado a idéia de tatoos e, assim eu não era tão inovador quanto pensava que era. Ok, mas duvido que tinham uma lua e estrela igual a minha.
Fui remar no Barroso. A camisa padrão da equipe era do tipo "regata"(óbvio) então dava aquela "malhada" pra deixar os deutóides redondões e ia desfilar a luazinha todo orgulhoso. Mas nenhuma beldade se dignificava a ir ver as regatas no Capibaribe. Nem a pau! os poucos curiosos que assistiam as nossas corridas eram uns transeuntes que quando não ralhavam com a gente por que virávamos o esquife, ficavam brincando de tiro ao alvo com cusparadas de cima das pontes.
E o tempo foi passando, a lua e a estrela distorceram um pouco (preciso voltar a malhar mais pra ver se t
em jeito).Quando tomo sol, me lembro daquela tarde quente de fevereiro... embaixo da magueira... o dia que a minha tatoo nasceu.

Não sei se faço outra maior por cima ou não. Pensei mesmo em reformá-la. Criar um céu noturno em volta... ressaltar os traços e até incluir umas núvens... sei lá. Mas vou pensar em algo adequado - romantico e sonhador - a minha marca registrada.

Data Estelar 16072007
"Diário do Capitão - Na visita do capitão da nave Charles Darwin, fui presenteado com uma belíssima coleção de hologramas obtidos na pesquisa dos povos visitados pela equipe. Num deles, pode-se observar uma peça de pele de animal que conta a história de uma comunidade. Percebe-se que ela foi "tatuada" antes do abate e conservação do volume".

Bem, continuei assistindo a TV enquanto não decidia o que fazer com a lua e a estrela e dei de cara com uma reportagem sobre dermatologia... tchan, tchan, tchan... era sobre tatoos!!!!

Não era sobre fazer tatoos, e sim como "tirar" elas da pele.

Calma, não estou afirmando que vou tirar as minhas companheiras de jornada de mais de 20 anos. Apenas vou contar mais ou menos o que o programa disse.

Bem, primeiro eles disseram que é possível remover as tatuagens através de sessões de aplicação de laser, que é uma luz muito quente e que pode ser manipulada quanto a área alvo e tempo de exposição;

Depois, que as tatuagens antigas - do tipo que eu fiz - meio azuladas são mais fáceis de apagar. Enquanto que as mais novas feitas com maquina e tintas especiais são mais complicadas.

Para excluir a tal luazinha e a estrelinha, umas cinco sessões a 150 mangos cada resolvem... as de maquininha, 450 e no mínimo 10 sessões (meu! já pensou no caso daquela moça que tatuou nas partes íntimas o nome do amado????) vai doer no bolso e na... pele.

Daí teve o momento Al Qaeda (terrorismo), com o pessoal dizendo que pode ficar marcas na pele, que dói pra caramba, que é melhor pensar bem antes de se tatuar...

Uma leitora do blog (é moçada, depois de mais de 3.000 acessos já temos leitores assíduos - muito obrigado) sugeriu fazer uma enquete para escolher o que fazer com a tatoo. Seria um post com a foto da tatoo como está hoje, e a pergunta "o que fazer com essa tatoo?" com quatro alternativas: a) exclui; b) mantém como está; c) acrescenta mais elementos reforçando a imagem; e d) cobre tudo com outra diferente. Os leitores iriam "opinar" através dos comentários.

Sei não. Olha, pensei um pouco sobre o assunto e fiquei achando um tanto quanto "bunda na janela" demais.

E como diz aquela música do Lenine, "quer se comprometer, prometa" (Do it) se eu entrar na parada vou ter que tocar na banda.

Mas juro que não fiz nada ainda com a tatuagem do braço. Elas estão lá na noite as vezes brilhando, outras apenas exisitndo.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Amor para recomeçar - Frejat

Eu te desejo não parar tão cedo
Pois toda idade tem prazer e medo
E com os que erram feio e bastante
Que você consiga ser tolerante
Quando você ficar triste
Que seja por um dia, e não o ano inteiro
E que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero

Desejo que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor pra recomeçar
Pra recomeçar

Eu te desejo, muitos amigos
Mas que em um você possa confiar
E que tenha até inimigos
Pra você não deixar de duvidar
Quando você ficar triste
Que seja por um dia, e não o ano inteiro
E que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero

Desejo que você tenha quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor pra recomeçar
Pra recomeçar

Eu desejo que você ganhe dinheiro
Pois é preciso viver também
E que você diga a ele, pelo menos uma vez,
Quem é mesmo dono de quem

Desejo que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor pra recomeçar
Eu desejo que você tenha quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor pra recomeçar

Palhaçada

Data Estelar 15052007
"Diário do Capitão - De volta a nossa missão de ir onde nenhum homem jamais foi, parei para refletir um pouco sobre o comportamento masculino na terra no final do século XX e início do XXI. O homem que sempre teve o seu papel de provedor da família então compartilha com a mulher essa tarefa e, conseqüentemente as que eram exclusivas dela como a manutenção da rotina da casa. O homem comum lidava com o seu dia-a-dia como um super herói enfrentando altas pressões para conseguir fazer dinheiro suficiente para pagar todas as contas; como um equilibrista mantendo tudo sob controle, cada problema, cada demanda, cada novidade... "

Respeitável público!!!! Direto da palhaçolândia, o show que todos esperavam!!!! Agora, aqui e com toda a graça do mundo!!!! OOOSSS PAAALHAAAAÇOOOSSS!!!!!!! Tem: A dupla "eu faço cócegas e ele coça"; O palhaço "cara dura"; O grupo "óia nóis de novo"; O palhaço dançante "dancei days" (assim mesmo, dancei); O palhaço piadista "Como você quer que eu te chame?";
E ainda:
O palhaço triste "Me deram um pé na bunda"; O palhaço "sou perecível - veja a validade na etiqueta"; O trio "171, Papudo e Propaganda enganosa"... Eeeeeee.... vamos aplaudir a palhaçada!!!!!!
Na verdade nós homens somos mesmo palhaços.
O triste é quando o show termina. É quando vamos para casa e lá tiramos a maquiagem, a peruca, a roupa e os sapatos de palhaço... por fim tiramos o nariz, mas só no fim. Daí nos vemos no espelho como somos sem a fantasia e sem fantasia. É duro.

É também quando nos lembramos que sempre vamos na direção oposta daquela que precisamos ir; quando deixamos de nos importar com o tempo que já se foi e então só nos interessa o quanto nos resta.

É quando nos achamos reles mortais. Aquela marretada que levamos no picadeiro durante o show se fosse dada nesse momento, morreríamos instantaneamente; o equilíbrio para andar no monociclo e para manter todos os pratos girando ao mesmo tempo em cima da vareta se vai e nos deixa inseguros - parece que sequer temos condições de andar como em uma crise de labirintite.

Os sorrisos da nossa amada platéia de amadas (e amantes) agora se resume a um lado vazio da cama e o eco da nossa ressonância.

Mas cada palhaço tem um segredo que vou contar: "nós nascemos assim, palhaços... viveremos palhaços... morreremos palhaços... mas só queremos fazer a nossa platéia sorrir".
Um beijo do palhaço Dandan