Data Estelar 30122006
"Em meio a nebulosa apenas conhecida como "mundo dos esquecidos", nossa tripulação passou a ter sintomas estranhos. Alguns tiveram crises de ausência, outros estão instáveis emocionalmente. Nosso oficial de ciências e o médico de bordo estão lutando contra o tempo para descobrir a cura desse mal. Enquanto isso, eu e o resto da tripulação que não foi afetada mantemos a posição da nave visto que somos poucos para tripular a nave já tão danificada pelos recentes combates"
"Em meio a nebulosa apenas conhecida como "mundo dos esquecidos", nossa tripulação passou a ter sintomas estranhos. Alguns tiveram crises de ausência, outros estão instáveis emocionalmente. Nosso oficial de ciências e o médico de bordo estão lutando contra o tempo para descobrir a cura desse mal. Enquanto isso, eu e o resto da tripulação que não foi afetada mantemos a posição da nave visto que somos poucos para tripular a nave já tão danificada pelos recentes combates"
(Texto escrito em Chicago/EUA)
É tempo de repensar. Tempo de planejar o ano novo que vem por aí. Quem não se pegou pensando sobre o que quer e o que não quer para o próximo ano?
Dessa vez eu decidí fazer diferente. Ao invés de estabelecer um monte de coisas - inclusive as que são para satisfazer os outros - optei por quatro ou cinco objetivos somente. Também fiz outra coisa diferente, além dos objetivos, procurei conhecer o que preciso para realizá-los; nos imprevistos que sempre ocorrem e como devo lidar com eles e, ainda, com muito cuidado, também sobre os auto-boicotes - que vão acontecer quando eu estiver abrindo mão da minha zona de conforto.
Aproveitei o ensejo para riscar no meu dicionário duas palavras: postergação e procrastinação. Se tem uma coisa que nesse ano novo eu não vou dar mole é ser um Sísifo. Ele que vá resolver suas pendências com Zeus e com os corvos que lhe bicam o fígado eternamente.
Quando comecei , fui pelo caminho conhecido listando tudo que achava que serviria como objetivos. Depois de algum tempo preenchendo a lista, meu pensamento esbarrou numa porta de armário entreaberta com um objeto caído, assim como se fosse ele o motivo dela não estar fechada.
Parei e fui guardar esse tal objeto. Quando me aproximei da porta, um monte de outras coisas caíram para fora. Fui guardando tudo de novo; Eram caixas etiquetadas - empoeiradas - blusas e bonés que nunca mais usara, fotos em albuns, porta-retratos e soltas. Haviam brinquedos, cadernos da época da faculdade e livros lidos ainda naquele tempo.
Entre as caixas, uma com a tampa já bem desgastada me chamou a atenção. Dentro havia um estilingue, uma foto e uma chave. Nossa! O meu estilingue de forquilha de goiabeira e com garrote de farmácia! Quantas pedradas dei com ele... e na foto, eu menino, calção azul marinho com o estilingue no bolso, sem camisa, pés descalços, sol quente e muito cajueiro e mangueira para ir experimentar lá, nos galhos mais altos, o vento no rosto! No mesmo momento me sentí vestido com o calção azul... procurei com os dedos da mão por um pequeno rasgão na parte de trás e lá estava ele. Fruto de uma trombada ciclística fenomenal com o meu amigo Múcio (aliás, cadê aquela foto da patota toda reunida?) quando além de esfolar o "orgulho" barranco abaixo, caímos em uma enorme poça vermelha (havia chovido muito naqueles dias) . Na volta, em casa, ouvi a minha mãe gritar lá de dentro: "Do portão não passa imundo desse jeito! fica aí que eu vou buscar o esguicho pra te dar um banho aí no jardim mesmo!". Contabilizei cerca de meia-dúzia de esfolões nas pernas, cotuvêlos e na retaguarda, onde maculou o calção azul.
Olhei bem a foto do eu menino. Levava nos olhos um brilho que significava coragem e vontade de ir para o mundo. Naquele tempo tudo era aventura... uma pelada jogada na rua de terra na frente de casa era como uma final de copa do mundo... ir de bicicleta até o morro da caixa dágua era como se fossemos até os confins do mundo para olhar para além, o universo que seria descoberto um dia já adultos. Na praia, no fim de uma tarde com muito futebol, topadas nos tocos e uma ou outra fruta que pegávamos "emprestado " dum vizinho amigo, era como se fossemos corsários com o botim de batalha guardado em baús prontos para serem enterrados num local que seria demarcado num mapa.
Esse menino significava o simples, o fiel, o íntegro e o bom. Ele era o guardião do que eu tinha de mais sagrado e, com ele, sempre seguiu a chave desse tesouro. Porque será que eu esquecí dele? Não, não estou plagiando o autor da "Terra do Nunca" com o seu Peter Pan, que era o menino dele, assim como o Pequeno Príncipe era para o Saint Èxupery e o Tom Sawyer era para o Marc Twain. Eu tenho o meu próprio menino assim como você que agora está lendo este texto tem o seu ou a sua. Porque então não resgato esse menino - bem moleque - nesse ano que começa? Tenho certeza que ele tem tudo que vou precisar para dar conta de cumprir as minhas metas. Quando eu estiver cansado, ele me lembrará que quando dormir , devo querer sonhar com quem quero e, assim, despertar feliz; Quando o desespero bater, e tudo ficar escuro, ele me lembrará que é nas noites mais escuras que as estrelam brilham mais. Ele vai me proteger, pois não tem sacanagem que possa com a determinação de um moleque invocado e com um estilingue esticado pronto para disparar um petardo bem entre os olhos...
Então peguei a chave e dei pra ele.
Depois empurrei o resto para dentro do armário e fechei a porta. Já tinha o que precisava para começar o próximo ano; o primeiro do resto da minha vida.
Dessa vez eu decidí fazer diferente. Ao invés de estabelecer um monte de coisas - inclusive as que são para satisfazer os outros - optei por quatro ou cinco objetivos somente. Também fiz outra coisa diferente, além dos objetivos, procurei conhecer o que preciso para realizá-los; nos imprevistos que sempre ocorrem e como devo lidar com eles e, ainda, com muito cuidado, também sobre os auto-boicotes - que vão acontecer quando eu estiver abrindo mão da minha zona de conforto.
Aproveitei o ensejo para riscar no meu dicionário duas palavras: postergação e procrastinação. Se tem uma coisa que nesse ano novo eu não vou dar mole é ser um Sísifo. Ele que vá resolver suas pendências com Zeus e com os corvos que lhe bicam o fígado eternamente.
Quando comecei , fui pelo caminho conhecido listando tudo que achava que serviria como objetivos. Depois de algum tempo preenchendo a lista, meu pensamento esbarrou numa porta de armário entreaberta com um objeto caído, assim como se fosse ele o motivo dela não estar fechada.
Parei e fui guardar esse tal objeto. Quando me aproximei da porta, um monte de outras coisas caíram para fora. Fui guardando tudo de novo; Eram caixas etiquetadas - empoeiradas - blusas e bonés que nunca mais usara, fotos em albuns, porta-retratos e soltas. Haviam brinquedos, cadernos da época da faculdade e livros lidos ainda naquele tempo.
Entre as caixas, uma com a tampa já bem desgastada me chamou a atenção. Dentro havia um estilingue, uma foto e uma chave. Nossa! O meu estilingue de forquilha de goiabeira e com garrote de farmácia! Quantas pedradas dei com ele... e na foto, eu menino, calção azul marinho com o estilingue no bolso, sem camisa, pés descalços, sol quente e muito cajueiro e mangueira para ir experimentar lá, nos galhos mais altos, o vento no rosto! No mesmo momento me sentí vestido com o calção azul... procurei com os dedos da mão por um pequeno rasgão na parte de trás e lá estava ele. Fruto de uma trombada ciclística fenomenal com o meu amigo Múcio (aliás, cadê aquela foto da patota toda reunida?) quando além de esfolar o "orgulho" barranco abaixo, caímos em uma enorme poça vermelha (havia chovido muito naqueles dias) . Na volta, em casa, ouvi a minha mãe gritar lá de dentro: "Do portão não passa imundo desse jeito! fica aí que eu vou buscar o esguicho pra te dar um banho aí no jardim mesmo!". Contabilizei cerca de meia-dúzia de esfolões nas pernas, cotuvêlos e na retaguarda, onde maculou o calção azul.
Olhei bem a foto do eu menino. Levava nos olhos um brilho que significava coragem e vontade de ir para o mundo. Naquele tempo tudo era aventura... uma pelada jogada na rua de terra na frente de casa era como uma final de copa do mundo... ir de bicicleta até o morro da caixa dágua era como se fossemos até os confins do mundo para olhar para além, o universo que seria descoberto um dia já adultos. Na praia, no fim de uma tarde com muito futebol, topadas nos tocos e uma ou outra fruta que pegávamos "emprestado " dum vizinho amigo, era como se fossemos corsários com o botim de batalha guardado em baús prontos para serem enterrados num local que seria demarcado num mapa.
Esse menino significava o simples, o fiel, o íntegro e o bom. Ele era o guardião do que eu tinha de mais sagrado e, com ele, sempre seguiu a chave desse tesouro. Porque será que eu esquecí dele? Não, não estou plagiando o autor da "Terra do Nunca" com o seu Peter Pan, que era o menino dele, assim como o Pequeno Príncipe era para o Saint Èxupery e o Tom Sawyer era para o Marc Twain. Eu tenho o meu próprio menino assim como você que agora está lendo este texto tem o seu ou a sua. Porque então não resgato esse menino - bem moleque - nesse ano que começa? Tenho certeza que ele tem tudo que vou precisar para dar conta de cumprir as minhas metas. Quando eu estiver cansado, ele me lembrará que quando dormir , devo querer sonhar com quem quero e, assim, despertar feliz; Quando o desespero bater, e tudo ficar escuro, ele me lembrará que é nas noites mais escuras que as estrelam brilham mais. Ele vai me proteger, pois não tem sacanagem que possa com a determinação de um moleque invocado e com um estilingue esticado pronto para disparar um petardo bem entre os olhos...
Então peguei a chave e dei pra ele.
Depois empurrei o resto para dentro do armário e fechei a porta. Já tinha o que precisava para começar o próximo ano; o primeiro do resto da minha vida.


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