"Diário do Capitão - Estivemos por um fio para sucumbir. Perdemos a força nos motores de dobra e de manobras. Nossos phasers foram danificados e só nos restaram dois torpedos photônicos e uma geno-bomba que só poderíamos utilizar em procedimento de auto-destruição. Mas, executando a última cartada no combate, surgiu do nada a tão esperada ajuda. Graças a ela conseguimos causar danos irreparáveis ao inimigo que se retirou da batalha."
Pois bem, assim que comecei as minhas tarefas fui me afeiçoando a este rapaz humilde e com uma alma de luz. Como eu tratava das legalizações, registros, certidões e licenciamentos - enfim, dos documentos da companhia - fazia a complementação do trabalho dos advogados, isto é, reconhecer firmas e autenticar cópias, obter certidões de objeto e pé dos processos e encaminhar documentos para as filiais e diretoria. Assim, sempre podia contar com a ajuda desse meu irmão. Nunca deixou de elucidar uma dúvida ou de me aconselhar acerca de assuntos legais e também do coração.
Sou o primogênito de três filhos. Eu e mais duas irmãs. Adoro elas (irei falar sobre elas em breve num post aqui no blog), mas nunca pude compartilhar com um irmão as coisas de menino e, depois, de adulto. Quem tem irmão mais novo ou mais velho entende o que quero dizer. Então a amizade que desenvolvemos e a sincronia de coisas em comum nos possibilitou participarmos da vida de um e do outro. Almoçávamos juntos, as vezes com o pessoal do departamento, outras com a Luciene, moça encantadora que conquistou o coração do Julião com merecimento e hoje é sua esposa e mãe de três filhos lindos e saudáveis.
E por falar na Luciene, num desses almoços, descobrimos por acaso que conhecíamos pessoas em comum. Eu estava falando do meu sobrenome do meio, o "Carlos", que não era uma composição como Roberto Carlos, Erasmo Carlos, José Carlos (ver o post Nova Zélandia), mas que era o sobrenome que herdei do meu avô materno, João Carlos. A Luciene não se espantou com a novidade (pelo menos para mim era) e tascou sem a mínima cerimônia: "grande coisa! tive uma amiga na adolescência que também tinha uma história assim... na verdade, era esse sobrenome - Carlos...".
Pasmei. Mas perguntei o nome da amiga e aí ficamos todos pasmos... "Claudia", ela me respondeu. Claudia Carlos Saad? eu re-perguntei (nem sei se existe essa expressão)... Sim, tinha uma irmã dela... Suely?... sim, exato! Filhas da Lourdes? Como é que você sabe?... são minhas primas e tia por parte de mãe.
Antes que eu me esqueça, ela também constatou que conhecia o Martin, marido da minha irmã Daleine. Estudaram no mesmo colégio e turma no Cambuci.
Já saíamos para tomar um chopp no Pedágio e conhecia o Aroldo e o Joca, amigos muito legais e divertidos - ah, conhecia também o irmão do Júlio, o Beto - Num desses chopps, marcamos para ir no costão da Boracéia , praia de Bertioga quase em São Sebastião, para mergulhar. Antes passamos na praia da Juréia e decidimos mergulhar lá também. Tudo certo, até que eu entrei na água com um colete de neoprene, cinto de lastro e as nadadeiras, máscara e snorkel... Tá bom! as cores do colete eram roxa e verde... verde limão.
Começamos a nadar em direção ao paredão e cruzamos um canal que é o efeito da correnteza de um rio que dá na praia. O Aroldo e o Beto foram na frente e eu e o Júlio mais atrás. Então eu fiquei totalmente pra trás - não sei se pelo esforço maior por carregar tanto peso (o neoprene nos deixa mais flutuável mas o esforço para nadar é maior) ou porque o colete tinha aquelas cores e eles não quiseram aparecer junto de mim. O Júlio tem uma outra teoria. Nela, eles iam na frente para capturar os peixes que, assustados, correriam na direção contrária da que eu iria com aquele colete... mas deixa pra lá.
Ocorreu que eu perdí o fôlego. Me disseram depois que poderia ter sido um distúrbio do nervo vagal. Arranquei a máscara e acenei para o grupo que ia na frente. Só o Júlio percebeu. Voltou e me perguntou o que estava acontecendo. Expliquei e decidimos voltar para a praia. Só que o caminho da volta foi mais complicado. Não tinha forças para nadar contra a correnteza do canal e se ficasse alí iriamos ser jogados mar adentro. Nadamos em direção ao centro da baía e achamos outra correnteza que facilitou o trabalho. E nesse ponto ele falou para eu me livrar do cinto de lastro... eu falei que não podia... ele perguntou porquê... eu disse que no cinto havia uma faca de mergulho que fora presente da minha irmã Dai... @*#!%, solta essa b... aqui mesmo!... Não cara! sabe quanto custa uma dessas?... bem, continuamos a nadar e, no meio da baía, as ondas nos fizeram chegar na praia.
Lógico que o Júlio ficou p. da vida com a minha relutância em não tirar o cinto, mas pegou leve e aproveitou para tirar um barato com a minha cara nas festas até hoje contando o "causo".
Nossa amizade é sincera. Nos anos que se seguiram tive o privilégio de ser seu padrinho de casamento e acompanhar o nascimento de seus filhos. O Júlio e a Lu foram meus padrinhos de casamento também e me prestigiaram quando a Bia nasceu. Sei que ficaram muito tristes quando souberam da minha separação e o amparo que recebí me confortou demais. Hoje conto com ele na vida profissional e sempre que posso vou no seu escritório lembrar das coisas da vida e nessas oportunidades, aproveitamos para almoçar e conversar bastante.
O Júlio é uma daquelas pessoas que vão com a gente no inferno e nos ajuda a "dar um pau" no capeta. Espero ser para ele o irmão maravilhoso que é para mim.
Ah! a faca? Dei de aniversário para ele naquele ano. Ele guarda com carinho até hoje.


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