"Diário do Capitão - Identificamos uma nova constelação no quadrante delta. Há indícios de pelo menos cinco sistemas solares com planetas classe 3 (iguais à terra). A caminho pela galáxia, esperamos conhecer novas espécies."
Certa feita eu recebi como tarefa de casa uma tradução de qualquer texto em inglês. Bem, era 1978 e eu tinha 13 anos. Ouvia rádio FM o dia todo (e a noite também, se deixassem). Uma certa balada tocava pra caramba na Transamérica FM - naquela época ela tinha um jingle de chamada bem diferente de hoje - transaméricaaa-aaa-aaa (os "as" eram musicados dando a impressão de estarem subindo e descendo).
Essa música - Up on the roof - James Taylor, tocava pelo menos umas três vezes por dia, era o maior sucesso... Então tomei simpatia e ainda fiquei fã do cara. Não, espera aí! Antes eu fiz o trabalho da escola... e adorei a letra da música! E pior, segui ao pé da letra a sugestão.
Ela dizia mais ou menos que se as coisas ficassem difíceis era só subir no telhado e ficar curtindo o céu da noite. Pois bem, lá fui de travesseiro e lençol laje de casa acima.
Olha, foi uma experiência incrível! Deitava na laje quente do quartinho de tranqueiras que ficava no piso superior da minha casa - uma espécie de terraço. Como ele não tinha telhas e era recoberto por uma camada de asfalto, uma vassourada pra tirar a poeira et voilá! O meu dormitório-observatório estava pronto. Pois bem, gostei tanto da coisa que por mais de vinte vezes fiz aquilo nas noites quentes do verão pernambucano.
A coisa era meio Saint-Exupery... porque, deitado de costas, cabeça para o norte ou o sul, o céu deixava de ser um teto, abóbada, ou melhor, do jeito que vemos... Era como se ele estivesse ao alcance da mão ao esticarmos o braço. Imagina só: o que mais ficava entre eu e os planetas, estrelas e outros corpos celestes? o ar ou a atmosfera, você vai responder, né? Tudo bem, mas é transparente e isso só ajudou na viagem.
Dormia na laje. Antes olhava bem o céu, reconhecendo as formações que sempre me acostumei a ver. Depois, ficava imaginando me lançar no espaço, desgrudando da terra... devagarzinho... chegando na lua... de lá, pegando um bom impulso, indo para marte e além...
Outra "viagem" que fazia, era ir de estrela em estrela com os olhos... fixando uma de cada vez. Já era capaz de decorar muitos caminhos. Tanto que embaralhei as constelações e juntava as estrelas de acordo com o meu senso estético (modesto eu, né?) e renominava todas elas com os nomes das meninas mais bonitas da escola. Tinha constelação Mitzi, a estrela Isis, o trio brilhante Luciana, Gabriela e Maria, e por aí ia.
Uma noite tomei o maior susto. Um gato preto veio me visitar. Sentou do meu lado e nada disse (miou). Como ele era pacífico, deixei ele ali e quando acordei já tinha ido. Sabe que nunca soube de onde vinha o tal gato? E olha que eu conhecia todo mundo na vizinhança.
E foram viagens interestelares e intergaláticas. Vi uma estrela que se movia e, como sempre passava no céu pelo mesmo caminho e bem devarzinho, descobri que se tratava de um satélite. As cadentes? vixe, Vi um montão!
Numa noite, acordei com uns pingos de chuva no rosto. O tempo fechou de repente e começou a chover. Desci da laje com um pulo e tratei de guardar o lençol e o travesseiro. Na verdade entrei para ir para o meu tedioso quarto quando dei de cara com a empregada que acordara com o baque do meu salto e subira para averiguar se não era um ladrão. Nossa! coitada da Antonia - Tonha como era chamada por nós - ela viu um vulto escuro como se vestisse uma capa andando pelo corredor em direção dela... a mulherzinha deu um berro que acordou todo mundo, inclusive o meu pai. E depois do copo dágua com açúcar e explicar que era eu com o lençol no ombro e o travesseiro embaixo do braço, é que a coitada acalmou.
O meu pai, lógico, me proibiu de subir lá de novo e, como choveu quase todas as noites daquele verão, eu não subi mais. Mas tenho saudades da brisa amiga, do barulho dos automóveis que iam cessando com o passar das horas ficando apenas o farfalhar das folhas dos coqueiros e de um ou outro latido de um cão triste por não poder ver a lua como eu via lá em cima.
Essa música - Up on the roof - James Taylor, tocava pelo menos umas três vezes por dia, era o maior sucesso... Então tomei simpatia e ainda fiquei fã do cara. Não, espera aí! Antes eu fiz o trabalho da escola... e adorei a letra da música! E pior, segui ao pé da letra a sugestão.
Ela dizia mais ou menos que se as coisas ficassem difíceis era só subir no telhado e ficar curtindo o céu da noite. Pois bem, lá fui de travesseiro e lençol laje de casa acima.
Olha, foi uma experiência incrível! Deitava na laje quente do quartinho de tranqueiras que ficava no piso superior da minha casa - uma espécie de terraço. Como ele não tinha telhas e era recoberto por uma camada de asfalto, uma vassourada pra tirar a poeira et voilá! O meu dormitório-observatório estava pronto. Pois bem, gostei tanto da coisa que por mais de vinte vezes fiz aquilo nas noites quentes do verão pernambucano.
A coisa era meio Saint-Exupery... porque, deitado de costas, cabeça para o norte ou o sul, o céu deixava de ser um teto, abóbada, ou melhor, do jeito que vemos... Era como se ele estivesse ao alcance da mão ao esticarmos o braço. Imagina só: o que mais ficava entre eu e os planetas, estrelas e outros corpos celestes? o ar ou a atmosfera, você vai responder, né? Tudo bem, mas é transparente e isso só ajudou na viagem.
Dormia na laje. Antes olhava bem o céu, reconhecendo as formações que sempre me acostumei a ver. Depois, ficava imaginando me lançar no espaço, desgrudando da terra... devagarzinho... chegando na lua... de lá, pegando um bom impulso, indo para marte e além...
Outra "viagem" que fazia, era ir de estrela em estrela com os olhos... fixando uma de cada vez. Já era capaz de decorar muitos caminhos. Tanto que embaralhei as constelações e juntava as estrelas de acordo com o meu senso estético (modesto eu, né?) e renominava todas elas com os nomes das meninas mais bonitas da escola. Tinha constelação Mitzi, a estrela Isis, o trio brilhante Luciana, Gabriela e Maria, e por aí ia.
Uma noite tomei o maior susto. Um gato preto veio me visitar. Sentou do meu lado e nada disse (miou). Como ele era pacífico, deixei ele ali e quando acordei já tinha ido. Sabe que nunca soube de onde vinha o tal gato? E olha que eu conhecia todo mundo na vizinhança.
E foram viagens interestelares e intergaláticas. Vi uma estrela que se movia e, como sempre passava no céu pelo mesmo caminho e bem devarzinho, descobri que se tratava de um satélite. As cadentes? vixe, Vi um montão!
Numa noite, acordei com uns pingos de chuva no rosto. O tempo fechou de repente e começou a chover. Desci da laje com um pulo e tratei de guardar o lençol e o travesseiro. Na verdade entrei para ir para o meu tedioso quarto quando dei de cara com a empregada que acordara com o baque do meu salto e subira para averiguar se não era um ladrão. Nossa! coitada da Antonia - Tonha como era chamada por nós - ela viu um vulto escuro como se vestisse uma capa andando pelo corredor em direção dela... a mulherzinha deu um berro que acordou todo mundo, inclusive o meu pai. E depois do copo dágua com açúcar e explicar que era eu com o lençol no ombro e o travesseiro embaixo do braço, é que a coitada acalmou.
O meu pai, lógico, me proibiu de subir lá de novo e, como choveu quase todas as noites daquele verão, eu não subi mais. Mas tenho saudades da brisa amiga, do barulho dos automóveis que iam cessando com o passar das horas ficando apenas o farfalhar das folhas dos coqueiros e de um ou outro latido de um cão triste por não poder ver a lua como eu via lá em cima.



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