"Diário do Capitão - Não temos como atender todos os pedidos de socorro dos refugiados da Guerra Idiosincrática. Nossos compartimentos e decks de carga estão abarrotados de pessoas que embarcam na nave a cada parada para deixarmos mantimentos e remédios. É uma empreitada insana para salvar toda uma civilização..."
Eu dificilmente irei escrever outro post acerca da minha profissão. Portanto este post está mais para um protesto do que para jogar conversa fora - se bem que no fim o resultado seja o mesmo.
Sou contabilista formado em 1986. Muitos confundem os títulos de contador e de técnico contábil, talvez porque o técnico contábil (curso que nasceu primeiro que o de nível superior) foi durante muito tempo o único que formava contadores - aqueles homens atarracados com uma viseira na cabeça e um "puxa mangas" parecendo uma tarja de luto nos braços e que também eram conhecidos como "guarda livros".
Pois bem, o meu pai se formou no curso técnico e era chamado de contador. As prerrogativas? Ah! no site do CRC tem elas bem explicadinhas e vou poupá-los desse empata-samba, ok?
O contabilista (contador ou técnico contábil) é um profissional injustiçado. Quando não associam a sua profissão a práticas ilícitas de sonegação e omissão de receitas, o chamam de puxa-saco do fisco porque dele sempre vem as guias de impostos para pagar. Vejam só o que me disseram outro dia na fila da Junta Comercial: "Cara, você reparou que em todo filme de gangster tem um contador que trabalha pro chefão?" Gente, sacanagem essa, né? Pior que isso só ser mesmo chamado de puxa-saco de coletor de impostos...
Tá certo que há profissionais que mancham a reputação da classe. Mas não se pode ver todos por causa de alguns. Há médicos que erram, engenheiros que prejudicam a qualidade, dentistas que escondem pequenos problemas, psicólogos que faltam com o decoro, magistrados que mentem, funcionários públicos que desrespeitam a lei, advogados que não protegem os interesses do cliente, políticos que se esquecem de quem os elegeu. Mas dá para a organização da vida coletiva abrir mão da classe médica para manter os serviços de saúde funcionando? Da capacidade de projetar e construir da engenharia? Da dedicação e melhoria da qualidade de vida por ter uma mastigação correta e com mais saúde? Do resgate emocional de quem já nem tinha mais esperança? Da proteção da lei que permite ao cidadão ter justiça? Da organização e manutenção do bem público? De se ter um defensor de seus direitos? E da voz do povo na elaboração das leis?
Também não se pode abrir mão da profissão que existe para organizar e registrar as mutações patrimoniais das entidades (empresas, instituições, pessoas e o governo) e auxiliar na aplicação correta dos cálculos tributários.
Eu poderia discorrer aqui sobre a vida de muitos colegas mas prefiro apenas ilustrar este post com algumas constatações de que não só confundem o contador com o técnico mas também o contabilista com o Santo Expedito.
1. O escritório parece com um confissionário na época do imposto de renda. As pessoas vão lá para confessar os "pecados", sob sigilo, e saem de lá com a penitência.
2. Só se lembram do contabilista quando tem um fiscal na sala de espera e o chamam como se fosse chamar um "santo" para ajudar a resolver a parada.
3. Tudo que se pede é para ontem, urgente, e quando fazemos o mais rápido possível ainda ouvimos "demorou, hein?".
4. Só ficamos com as "promessas" de que vão nos pagar em dia.
Então, se o seu "contador" pisou na bola contigo, você deve tirar isso a limpo, sem dúvida. Mas se você apenas está encucado com o trabalho dele porque a sua visão ainda está contaminada com o que a sociedade se acostumou a rotular, presta só atenção no que um contabilista faz para praticar a sua profissão:
- Lê pelo menos dois jornais por dia (um de notícias e um de informações sócio-econômicas);
- É bombardeado semanalmente com dezenas de novas normas - leis, decretos, instruções normativas, circulares, avisos... etc.;
- Cumpre prazos que ele não estabelece ou sequer é convidado a opinar;
- A cada obrigação acessória (declarações, guias informativas e formulário cadastral) tem o seu CRC e CPF como responsável pelo preenchimento - assim, se ocorrer qualquer problema com o contribuinte, ele será arrolado no processo só porque anotou o que lhe disseram que era verdade;
- É fiscalizado pelo CRC não olvidem;
- Seu mercado de trabalho é disputadíssimo e muitas vezes perde clientes para profissionais "fakes", isto é, que não possuem a capacitação técnica e o registro profissional;
- Ele paga no mínimo a anuidade profissional. Se tiver um escritório, ele tembém pagará. Alem disso, é obrigado a recolher contribuições para os sindicatos profissional e de estabelecimentos contábeis.
- Qualquer curso de reciclagem profissional de qualidade e necessário para atualizá-lo custará o equivalente a 30% do que ele ganha por mês.
Adoro o que faço. Dignifica a minha vida e provê a mesa o pão que alimenta minha família. O meu curso superior foi de Administração de empresas com ênfase em comércio exterior mas foi a contabilidade que me deu condições de crescer materialmente. Sou contabilista como foi o meu pai.


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