terça-feira, 8 de junho de 2021

O MEU NOME É NINGUÉM - A CAVERNA DE POLIFEMO


 

"Estávamos sem água; não havia o que comer pois os peixes, como que influenciados por uma magia maléfica, não mordiam as iscas ou se deixavam capturar pelas redes que lançávamos ao mar cor cinza. A fome ainda era possível enganar com um punhado de cevada encontrado em alguns dos alforjes dos homens que ficaram para trás colhidos pela morte nas batalhas ou nas tempestades no mar. 


Sede. Tínhamos sede e, por beber a água do mar, só a aumentávamos a ponto de alguns, sob o sol a pino, delirar e se atirar para a morte certa no mundo de Posseidon.

De repente, vimos ao longe uma réstia de terra!

Aproamos naquela direção, demos pano ao vento e remamos como se a nossa vida dependesse de cada mergulho dos remos.

Não havia praia. Lançamos na água uma âncora improvisada com uma pedra e os homens puderam ir à terra explorar em busca de víveres. Dessa vez optei por ficar no barco e aguardar o retorno do grupo que partira com ordens expressas de tomar o máximo de cuidado com os viventes naquela terra desconhecida. De nada adiantaria encontrar o que beber e comer se não pudéssemos voltar ao barco, à segurança.

Algumas horas passaram e três dos homens voltou ao barco com boas novas: haviam encontrado comida  e água em abundância e, o melhor, havia segurança para passarmos a noite e partirmos ao amanhecer. Assim, nos certificamos que os barcos estavam bem fundeados e fomos à terra".


Essa passagem da Odisseia é a mais emblemática de todas: A caverna de Polifemo, o gigante ciclope comedor de carne humana. Nesse blog abordei essa história em http://malucoerrante.blogspot.com/2018/11/odisseu-jaem-seu-barco-gritou-para.html mas, focando em propósito, humildade e sagacidade. Dessa vez pretendo mostrar a prática da lição que Homero nos traz na epopeia de Odisseu.

A vida nos põe à prova o tempo inteiro.

As tentações para escolhermos o caminho mais curto; as tendências para sermos negativos.

É no momento mais crítico que isso acontece... retificando, aconteceu porque fizemos uma ou mais escolhas, lá atrás. Mas é nesse momento que o “bicho pega”.

Odisseu estava num momento desse: “Se correr o bicho pega, se ficar, come”.

Não havia para onde correr – a caverna estava fechada por uma pedra – e Polifemo, como um enxadrista pronto para decretar “mate” (ou te mato, se preferir), havia dito “xeque”.

Encurralado entre o “sou um bosta, não dou conta” e “meu Deus, o que vão pensar de mim”, a primeira representa o que pensamos de nós mesmos, a segunda, o que os outros pensam da gente, Odisseu precisou pensar fora da caixa.

O fim todos sabem: engenhosamente (e há quem diga “cruelmente”) cegou o ciclope, esperou o rebanho do gigante exigir sair para pastar e fugiu, agarrado ao ventre de uma das ovelhas.

Com certeza, já nos metemos numa situação semelhante prometendo o que não se pode cumprir, sendo imprudente, temerário, soberbo, orgulhoso... (fica à vontade para acrescentar o adjetivo que entender ser pertinente).

Mas por que nos metemos nessas “cavernas de Polifemo”?

Porque estamos em processo contínuo de aprendizado.

Nesse aprendizado descobrimos não é a sagacidade, a esperteza ou “ligeireza” que nos livra das cavernas de Polifemo; é a humildade e reconhecimento do que somos e o que queremos para nós. Assim tomamos as decisões com mais assertividade e evitamos entrar na caverna.

Mas, se na história somos o “Polifemo”?

De boa (e de novo) já sabemos como termina a história... alguém vai nos cegar (achar a nossa pior fraqueza) e nos obrigar a fazer exatamente o que ele quer que façamos.

Ser Polifemo é jogar pra galera gritar “olé”; é ostentar e esquecer que do pó viemos, ao pó voltaremos. E o pior, no fim, colocar a culpa em “ninguém”. 

Ser Polifemo é pensar que ter é mais do que ser a ponto de dizermos na intenção de intimidar “sabe com quem está falando?”... aquele “ninguém” vai responder: por que, sofre de Alzheimer?

Cortella diz: “não nascemos ou morremos prontos, estamos e estaremos sempre em construção”. Ora somos Odisseu, ora Polifemo mas, quase nunca, ninguém.

Ser Polifemo é "ter" e se perder sem saber o que é.

Ser Odisseu é carregar o mundo - chamado orgulho ou soberba - nas costas que não serve para nada.

Ser ninguém é "ser", simplesmente.

Qual seria a sua escolha? 

Agora, já sabemos que podemos evitar as cavernas assim como não ser um ciclope gigante.

"E, já em seu barco, Odisseu no auge de seu orgulho grita a Polifemo: QUEM LHE CEGOU FUI EU, ODISSEU, REI DE ÍTACA!"

"O gigante ainda sangrando pela cavidade que sobrou do que era seu único olho, com muita dor e revolta, ao ouvir o insulto, consegue um pedregulho de tamanho considerável, o lança com todas as suas forças na direção da origem do som que, por pouco não atinge a proa do barco que já manobrava para dali nunca mais voltar".  











sexta-feira, 11 de setembro de 2020

A névoa do esquecimento

 

"A posição do sol me fez entender logo que estávamos indo velozmente para o sul. O vento soprava com força, o seu ímpeto enchia as velas, as vezes rasgando-as, tanto assim que amiúde tivemos de substituí-las; nuvens negras galopavam no céu, e repentinos pés-d ’água nos investiam. Impossível mudar de rota, nem sequer recolhendo as velas e recorrendo aos remos. O próprio mar corria, tumultuoso, naquela direção, com altas ondas, lívidas, fervilhantes de espuma. Vimos Cítera a boreste... passamos ao largo, o vento nos empurrou para longe... força alguma poderia se opor à do vento e das ondas. Navegamos por nove noites e nove dias na tempestade, sem nunca parar. Os companheiros não podiam pescar, como costumavam fazer nos dias de navegação normal, puxando redes ou jogando ao mar a linha com sementes de cevada torradas como isca. Quase não tínhamos comida. O pesar, a raiva e a tristeza enchiam o meu coração de dor. No décimo dia o vento esmoreceu quase de repente, o mar se acalmou. Rasgos de luz dançavam em volta dos navios, negras manchas gotejantes na imensidão azul. Mandei baixar os remos para seguir em frente... Na certa, a terra não deve estar longe: Há pássaros no céu, e dá para sentir o cheiro dela no ar. Esse cheiro era de ervas aromáticas que eu não conhecia, mas não conseguíamos ver coisa alguma: à nossa frente, só uma espessa névoa ... entramos nela".


Aqui começa uma das mais emblemáticas passagens que a odisseia conta: A ilha dos lotófagos. Porém, se atentem a um fato que normalmente passa desapercebido: “Eles adentram em uma espessa névoa”.

O que surgiu do outro lado, aos olhos de Odisseu, parecia bizarro: Terra com árvores semelhante a palmeiras, pequenos bosques de tamargueiras e criaturas que nunca tinha visto antes. Pareciam pequenos homens peludos, com rabo. Olhos reluzentes, penetrantes, perturbadores. Ganiam, chiavam, berravam, pulavam de um galho para outro. 

Assim que alcançaram o leito de areia da praia, desembarcaram. 

Odisseu ordenou que alguns homens fossem em busca de água e comida com ordens de voltarem assim que encontrassem o pretendido. Uns foram em direção ao ocidente, outros ao oriente. Os demais foram encarregados de lançarem as redes para obter algum pescado. 

Aquele lugar era diferente de tudo que já vira até então; O ar era diferente; a luz parecia provir de outro sol, o tempo tinha momentos em que parecia comprimido, oprimente, para então expandir-se até ficar suspenso, infinitamente dilatado.


“Naquela terra maravilhosa o tempo tinha parado na idade do ouro, manadas de animais pastavam, incontáveis, até onde os olhos podiam alcançar: milhares e milhares de cabeças. Não pertenciam a ninguém, portanto, pertenciam a todos. E havia fruta de todos os tipos nas árvores. No horizonte, nuvens tempestuosas soltavam raios do céu para a terra, e colunas de água desciam a fertilizar a planície sedenta. Uma terra desmedida...”


Havia também uma questão urgente para ser resolvida, a flotilha havia adentrado no muro de névoa com sete embarcações e saído do outro lado com três: Onde foi parar quatro dos navios e seus homens? 

Os grupos foram despachados e, dos que ficaram, uma pequena patrulha escalou um pequeno rochedo próximo que dava vista para duas praias vizinhas e, numa delas, as quatro embarcações desaparecidas lá estavam devidamente ancoradas, velas recolhidas e com seus equipamentos ajustados para uma saída iminente, porém, sem ninguém dentro ou fora. 

Odisseu ordenou que levassem as três outras embarcações para o lado das quatro reencontradas e que as deixassem prontas para a partida – a ideia era encontrar os homens e suprimentos e zarpar de imediato dali. Assim, juntou um grupo de soldados e partiram atrás dos companheiros desaparecidos. 

Seguiram as pegadas e chegaram a um vale verde que emoldurava um pequeno lago com milhares e milhares de palmeiras a sua volta. Nas margens desse vale havia amplas lavouras cultivadas e campos repletos de flores vermelhas carnudas como frutos. Havia dúzias de galpões cobertos por feixes de ervas secas. Mais ervas entrançadas, formando volumosas meadas, estavam enroscadas como cordas nas bordas das lavouras. As crianças nadavam no lago, as esplêndidas mulheres perambulavam completamente nuas, de altos quadris, pernas torneadas, pele escura.

Os homens estavam quase todos reunidos numa ampla clareira à margem do vilarejo, em volta de um grande monólito de pedra vermelha. Tocavam seus instrumentos, flautas e tambores, e cantavam. 

Os companheiros de viagem de Odisseu, também. 

E eles contaram que ao chegarem na praia, perceberam que haviam se separado do comboio então deixaram tudo pronto para voltar ao mar assim que se reunissem novamente. E foi nesse momento que os habitantes daquela terra os receberam com várias cestas contendo alimento para aplacar a fome; esse alimento era a flor vermelha. Decidiram seguir aquelas pessoas, e lá estavam desde então, despreocupados e felizes. 

Cabe aqui uma observação sobre as condições em que se achavam os homens de Odisseu: Estavam longe de casa e lutaram em uma guerra insana, por mais de dez anos; sofreram e ainda sofriam de traumas ligados ao estado de alerta intermitente; muitos traziam no corpo marcas de ferimentos profundos e já não sabiam mais o que era ter um teto para passar o sono a noite ou o convívio em família; eram uma sombra do que foram quando saíram de Ítaca. 

E esses mesmos homens agora podiam sentir paz e... o esquecimento.

A flor de lótus, vermelha, lhes davam esse anestésico; simplesmente deixavam de sentir e, com efeito, esquecendo suas dores e medos, podiam ter paz; era o ópio que desatava todos os laços que existiam entre eles e o passado. 

Nenhum deles quis voltar aos navios.

E, para tanto, Odisseu precisou amarrá-los uns aos outros enquanto dormiam entorpecidos e os arrastou para fora dali literalmente pelas cabeças, agarrando-os pelos cabelos!

Muitos de nós recorremos diariamente a remédios que induzem o sono, ansiolíticos e antidepressivos. Em nosso tempo, bombardeados por informações na velocidade da internet, com a sensação de que o dia tem cada vez menos que as vinte e quatro horas que deveria ter. 

Passamos boa parte da nossa vida com propósitos imediatos e que não raras vezes são alcançados, gerando frustrações e medo de não conseguirmos mais dar conta da batalha que a cada dia fica mais difícil.

Tudo é para já e descartável... inclusive nós mesmos. 

E, o grande problema de procurarmos “muletas” nas terapias de fármacos, é que desaprendemos a andar com as próprias pernas.

A privação do sono dói; imagine isso por dias, semanas e meses... por toda a vida! Então se justifica buscarmos a “nossa” muleta, porém a que custo? 

Veja, não estou criticando quaisquer terapias, terapeutas e terapeutizandos, estou mostrando o que acontece quando suprimimos nossa força vital, desistimos de “ser” ao invés de buscar novos e melhores objetivos de vida e, o pior, optamos por “esquecer” quem somos, de onde viemos e para onde vamos.

Nos tornamos, por vontade própria (ou ausência dela) imprestáveis; a memória? Só há o esquecimento; fazemos mal aquilo que fomos preparados e éramos muito bons em fazer; deixamos de viver e passamos a só morrer junto com as horas do tempo. 

Propósito! 

Não será a única vez que abordarei essa questão nos textos dessa coletânea mas confesso que também perco de vista o meu objetivo, aquele que define a minha existência, que me faz acordar todos os dias (não me refiro ao despertador do relógio, por favor) – aquilo que não posso esquecer jamais! 

E, se alienando, a gente esquece... e, para voltar a lembrar e voltar a ser o que nunca devíamos ter deixado de ser, é uma jornada muito difícil e arrisco a dizer que é igual ou até pior do que teríamos de enfrentar para evitar chegarmos no estado que estávamos, vivendo uma vida vazia e sem sentido.

"Viver é foda", dizia Renato Russo, mas desistir dela não é uma escolha. 

Voltando para a estória de Odisseu, que também estava traumatizado pela guerra e com uma angústia sem tamanho por carregar em seus ombros peso descomunal que um rei carrega ao saber que terá de levar seus homens de volta onde os tirou – ele não experimentou da flor mágica que faria o seu padecimento desaparecer; e mais, proibiu a todos que consumissem daquela flor. Ele vaticinou sobre os efeitos nefastos sobre aqueles que dela experimentassem, principalmente quando precisassem de toda destreza, sagacidade e memória (esperteza, mesmo) num momento de aperto e urgência.

Entretanto, com o coração constrito de um pai pelo pesar da perda de tantos filhos nos combates da guerra e na última desventura com os cícones, sentiu o peso de sua responsabilidade ao avaliar, já em seu navio e de volta ao mar, se não teria sido melhor para os seus homens terem ficado ali, naquela terra pacificada pelos efeitos de uma flor, esquecidos dos traumas da guerra, sem nenhuma ambição, simplesmente sem propósitos. Como depois ponderou, ao menos estariam vivos e, ele Odisseu, não carregaria a culpa de seu perdimento.

Ah, sobre a névoa, veja o que o poeta, ilustre lisboeta poderia ter dito:

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

Fernando Pessoa


domingo, 30 de agosto de 2020

O regresso

 



Eu, Odisseu, filho de Laertes, Wanáx de Ítaca e seu povo, protegido de Athena, destruidor de cidades, finalmente após dez longos anos de luta e sangue derramado, voltarei para a minha amada ilha.

 

Dos doze navios que trouxe há dez anos, somente sete retornarão; Seus soldados pereceram na guerra.

 

Ílio sucumbiu.

 

Levaremos, alojados nos compartimentos da proa, os saques de tesouros e produtos aos quais por direito nos foi partilhado.

 

Mas, ainda que o meu coração me arraste mar afora buscando o caminho de casa, para a minha mulher e filho, sinto que os despojos conquistados são insuficientes, incapazes de apaziguar e compensar os meus homens que agora voltam e as famílias daqueles que jazem em Tróia. Foi tempo demais, sangue derramado demais; Ouro e prata de menos.

 

O regresso começou e todos os aqueus seguiram o caminho de casa. Odisseu, assim que conseguiu reunir todos os seus, após as exéquias aos que pereceram, partiu das praias troianas com as velas enfurnadas pelo vento mais favorável.

Seguiu para o norte e logo vislumbrou a Trácia, povo que lutou ao lado dos troianos.

Os homens, ainda acostumados às refregas dos combates, logo pediram pelo ataque e, motivados pela possibilidade de obterem mais para levarem como prêmio, assim que a proa do navio roçou o leito de cascalho da praia, desembarcaram e investiram contra aquele inimigo que, estranhamente, não ofereceu qualquer resistência; Todos que enfrentaram os gregos naquela tarde eram idosos ou jovens demais.

Pilharam o que acharam em ouro, prata e mercadorias... escolheram entre as mulheres as mais belas que seriam suas concubinas ou escravas.

Odisseu percebeu a facilidade do empreendimento e tentou entender o que estava acontecendo; Concluiu que os trácios não lutaram com sua força plena; Muitos que haviam retornado da guerra em Tróia estavam nas colinas ao longe cuidando dos olivais e rebanhos e que, de alguma forma, seriam avisados pelos que ficaram e não tardariam a voltar em socorro.

O anoitecer escondeu o sol. Nas colinas, descendo, podia-se ver as  tochas, cada vez mais numerosas.

Os homens de Odisseu já estavam em pleno festejo pela fácil vitória e pela farta coleta e assim passaram a noite enquanto aqueles sinais luminosos mostravam que a real resistência em breve chegaria. Quanto mais rápido eles saíssem dali, seria melhor... mas não foi assim que aconteceu.

 

Amanheceu.

 

Para desespero de Odisseu, os seus homens embriagados, mal se aguentavam em pé. Em pouco tempo os trácios formaram uma linha na praia que encurralou os gregos entre o rochedo e o mar.

Foi dado o alarme e, ainda ébrios, com a adrenalina reavivando a atenção, como soldados experimentados numa longa guerra, prontamente formaram uma linha para enfrentar o inimigo. Era como se revivessem os dias das paliçadas nas praias de Tróia.

Se o combate na tarde anterior havia sido fácil, dessa vez não seria.

Percebendo que os trácios eram cada vez mais numerosos e as baixas entre os gregos também, Odisseu ordenou que parte dos homens manobrassem os navios que, por imprevidência, permaneciam com a proa na praia. A retirada e fuga era a única alternativa para evitar a derrota total e iminente.

Os trácios eram habilidosos no combate corpo a corpo e perceberam a estratégia de Odisseu, passando a utilizar flechas incendiárias para alvejar as embarcações. Duas delas foram consumidas rapidamente pelo fogo.

Com muito sacrifício de sangue e despojos, conseguiram resgatar os homens das embarcações incendiadas nas cinco restantes e fugiram para mar aberto; Odisseu não acreditava no que via... havia perdido muitos homens... e, por tão pouco... ou nada.

 

Qual é a hora de fazer a paz?

Por que estar o tempo todo na defensiva contra aqueles que achamos ser nossos inimigos?

Por que deixamos a arrogância nos cegar e buscamos, então, justificativas para perpetrar através da violência, a imposição nossas convicções formadas num passado que é uma pálida imagem que não nos deixa ver a mudança do presente?

Por que sempre achamos que o que conquistamos é insuficiente e tendemos a cobiçar o que é do outro?

 

Os cícones (trácios) representam a primeira parada das muitas que Odisseu fez em seu retorno à Ítaca; Cada parada simbolizou as que o homem precisa fazer em sua jornada (vida) para depurar suas imperfeições; A prepotência e a arrogância, assim como o desprezo pelo outro ainda que valoroso oponente, são a origem dos embates desnecessários e de amealharmos inimigos ao invés de aliados.

O astucioso Odisseu usava a mente capaz de múltiplos engenhos para potencializar as coisas da matéria, ou seja, as paixões.

Igual fazemos em nossa jornada, não se iluda.

Toda vez que fazemos escolhas e não observamos o equilíbrio da razão, fracassamos.

Igual a Odisseu frente aos trácios.

domingo, 16 de agosto de 2020

As origens

 



Abenoados sejam os ciclos da carruagem do sol sob o tempo de Chronos.

Abençoados sejam os ciclos da carruagem do sol sob o tempo de Chronos.


As origens

 

Odisseu (Odisseu) recebeu esse nome que significa “filho da raiva”, de seu avô materno, Autólico, rei de Arcânia. Filho de Laertes e Anticleia.


Laertes, filho único de Arcésio, foi um dos Argonautas, na epopeia de Jasão na busca do tosão dourado. Como rei de uma pequena ilha, buscava de tempos em tempos, sair em busca de tesouros, empreendendo viagens ao lado de outros bravos reis e guerreiros.


No pouco tempo que passava em casa, Laertes contava ao filho histórias, atiçava nele a imaginação e fazia querer crescer logo para ganhar o mundo.


Anticleia era filha de Autólico, que era tido como o mais ladino dos homens, o mais formidável ladrão da época. Era frio e cruel, marcando a vida de Odisseu com ensinamentos quanto ao que diferencia um homem de um animal. Temiam Autólico como a um lobo de tal forma, que tinha a fama de ser um “homem lobo”.


Desde muito pequeno, Odisseu levou uma vida diferente dos demais. Ao invés de ficar próximo de seus pais, sempre estava acompanhado de sua babá ou de seu mentor. E, esse importante personagem mostrará que é, na verdade, a manifestação da deusa Atena, construindo o caráter do jovem príncipe de Ítaca com virtudes que farão dele um homem astuto e confiante. 


Há também quem diga que o nome Odisseu significa também “aquele ferido na coxa” e, de fato, na primeira vez que deixou a ilha de Ítaca, em visita ao seu avô, se viu em uma caçada a um javali que terminou com o abate do gigantesco animal sem que, antes, fosse atingido por uma das presas na coxa direita. Algumas releituras impingem à Autólico a autoria do ferimento.


Mal havia chegado de sua primeira viagem, Odisseu foi convidado a acompanhar o pai em uma longa jornada. Nela conheceu uma jovem que parecia sobre-humana devido à perfeição de seu rosto, dos olhos com reflexos violeta. Era Helena de Esparta. Ao longo desta grande viagem, Odisseu cresceu, não apenas com os ensinamentos do pai, mas pelas vivências que o aguardavam em tantos lugares diferentes pelos quais passaria.


Foi nessa viagem que fez contato pela primeira vez com a sua deusa, percebendo que possuía o dom da premonição e da intuição.


Ao passarem por Micenas, reino de Euristeu, Odisseu e Laertes tomam conhecimento do drama vivido por Héracles que, dopado pelo primo e rei, acreditou ter trucidado sua própria família – a esposa Mégara e dois filhos. Euristeu fez com que o oráculo de delfos lhe obrigasse a uma pena que previa doze perigosíssimos trabalhos. 


Coube aos viajantes de Ítaca a missão de levar a única testemunha da grande ignomínia para que esta contasse a Héracles o que havia de fato ocorrido.


Durante a jornada, a pedido da esposa Anticleia, Laertes leva o jovem filho na caverna onde, ao passar a noite, seria testado para saber se, por ser neto de Autólico, o homem lobo, seria também um.


A viagem era, na verdade, um ritual de passagem, do menino Odisseu para o homem que seria rei de Ítaca.


Na volta para casa, sentiu-se estranho. Parecia não caber mais na ilha, tão pequena e apertada. “Fique calmo, dê um tempo, vá pescar com seus amigos, dentro em breve ficará novamente acostumado com Ítaca”, lhe garantiu o pai, experiente em idas e voltas.


As trajetórias de Odisseu e Helena voltariam a se cruzar poucos anos depois, quando a bela moça de 17 anos é pedida em casamento por diversos príncipes. Mentor sugere que Odisseu também seja um pretendente, algo que ele não deseja de todo coração. Apesar disso, viaja a Esparta, para interferir na grande batalha que está se formando. Os príncipes estão dispostos a derramar sangue na disputa por Helena. É neste momento da história que todos ficam conhecendo a perspicácia do jovem príncipe de Ítaca. E, também, é o momento em que ele encontra o amor de sua vida.

Em tratativas com Tíndaro, rei de Esparta e pai de Helena, expõe seu raciocínio e sugere que ao invés de uma disputa de forças, que facilmente se transformaria em combates pessoais, que a princesa escolhesse entre os pretendentes aquele que ela consideraria como seu predileto. E essa escolha seria precedida por um juramento de anuência entre todos os jovens pretensos que previa, entre outras cláusulas, a união de forças para auxiliar o escolhido caso ele viesse a ser impedido de perpetuar seu matrimônio com a princesa espartana. Tíndaro concorda e incube a Odisseu a missão de organizar e dar cabo ao concílio.


Os jovens príncipes de toda Acaia aceitam, firmam o juramento e ocorre o pleito.


Helena escolhe Menelau.


Odisseu não desejava ser o consorte de Helena. Algo o intuía sobre o que viria acontecer a quem desposasse a mulher mais linda do mundo.


Durante o concurso, conhece Penélope, filha de Icário, irmão de Tíndaro e, portanto, prima de Helena. Com ela se casa e voltam para Ítaca.


Autólico, sabendo das núpcias do neto, o convida para visita-lo em seu palácio, na Arcânia. Seria a última vez que Odisseu veria o avô que lhe presenteou com uma arma especial, um arco que só era montado pelo verdadeiro dono dele, não importava o quanto o pretendente a usá-lo fosse forte. Ao entregar a arma ao neto, Autólico falou com ênfase: “nunca tire esse arco de sua casa”.


Odisseu e Penélope passaram a viver no palácio de Laertes, em uma ala construída pelo próprio Odisseu que fez sua cama em uma oliveira que foi preservada dentro da edificação.


Laertes percebendo o grande valor do filho, decidiu fazê-lo rei e se retirou para o interior do seu reino, prometendo a auxiliar o jovem wanáx sempre que ele precisasse.


Então chegou uma visita inesperada ao palácio: Menelau.


Helena havia sido raptada por Páris, príncipe de Troia e levada para Ílio. Menelau exigia que Odisseu convocasse os príncipes que haviam jurado a reciprocidade para que todos fossem resgatar sua esposa.


Odisseu honrou seu compromisso e assim procedeu convocando todos os signatários, partindo da Acaia, algum tempo depois, com seus doze navios e homens para se juntar ao exército grego e frota que já eram em milhares com destino às muralhas de Ílio.

Odisseu prometeu à sua rainha e esposa, Penélope, que voltaria. Deixou o porto de Ítaca acenando para a esposa e filho, o pequeno Telêmaco.


Foram dez anos de derramamento de sangue contínuo.


Pereceram heróis troianos como Heitor, Anfímaco e Enéias.


Foi a guerra que matou Aquiles... Pátroclo e Ajax, além de incontáveis vidas de guerreiros e, no fim, de toda uma cidade incluindo a família real.


Foi de Odisseu a ideia do engodo, o cavalo de madeira que em seu ventre, carregou os que conseguiram dominar a guarda e abrir os portões da cidade.


Esse é o resumo dos motivos que levou Odisseu à Troia e lá, se transformou no guerreiro, quase esquecendo de quem era.


Esse é o resumo da Ilíada.


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O meu nome é ninguém

 

Eu tinha um sonho.

Quando li sobre a guerra de Tróia e o famoso cavalo de madeira, já havia  assistido na TV, ao lado do meu pai o filme com Kirk Douglas, "Ulisses". 

Fiquei fascinado pela trama e drama de Homero, a ponto de buscar em todos os livros sobre mitologia, as jornadas de Jasão, Hércules, Teseu, Perseu... e, nas prateleiras da biblioteca da escola, livros com esses temas eram presente na minha lista de empréstimos, juntamente com os de Júlio Verne.

Eu não fazia ideia... mas descobri, bem depois, que estava sendo educado como os da velha Acaia foram: através de contos, com a função de incutir em nossas cabeças lições de moral, ética, lógica... provocando em cada um dos leitores - e sorte daqueles que assim eram ainda crianças - a liberdade verdadeira, a de pensar.

Você já velejou? Teve a sorte de sentir o sol e o sal? Percebeu os elementos dos quais dependemos para empreender a viagem? 

O vento (ar) que dá força ao velame; A água que dá a superfície e a profundidade; a terra (o sólido da embarcação) que nos permite perceber o equilíbrio ou a base e o sol (fogo), que durante o dia marca o tempo e a direção do oriente ao ocidente e, a noite, representado por todas as outras estrelas da abóbada celeste, a orientação.

Amyr Klink em seu livro "Cem dias entre céu e mar" disse que ao construir o seu barco para a travessia do atlântico a remo, o IAT, foi orientado a equipar internamente a embarcação com acabamento em madeira porque assim teria a sensação de vida a bordo, mitigando a solidão durante a travessia.

Um barco de madeira, desde sempre, é vida.

Parece que o espírito da árvore que cedeu o madeiramento se apossa da embarcação, dando a vida, e não foi sem um propósito que os barcos gregos possuíam rosto em sua proa e a escultura do busto de deuses na popa. As embarcações europeias transoceânicas, dos séculos XVI ao XIX possuíam em suas proas, a anima, esculturas de beldades e outros símbolos que os marujos aprendiam a venerar.

E um barco de madeira fala com quem o conduz. Feliz, singra as ondas e vagalhões lançando ao ar e no rosto o salgado que nos lembra as lágrimas de felicidade. Com medo, range e chora, quando a borrasca é quase insuperável. Silencia, quando vai finalmente ao fundo, gelado e escuro do mundo da morte das embarcações. 

Odisseu usou a madeira de uma embarcação para construir o famoso cavalo que representou a ruína de Ílio e dos Troianos.

Aquele sonho, então, era o de construir uma embarcação com o espírito como o da madeira, para quem ousar singrar as ondas do oceano tão conhecido, descubra aquilo que os meus olhos viram e, se permitam, a fascinação.

Recentemente adquiri os dois livros de Valerio Maximo Manfredi, "O meu nome é ninguém" (O juramento/O regresso) - Editora Rocco. Li com vontade, e me deliciei traçando paralelos com o ensinado para mim, há muitos anos, pelo querido Professor  Ricardo Buonanni, através de um workshop chamado "Transformando sonhos em realidade". Professores Ricardo e Valerio, peço humildemente as vossas vênia e anuência para transformar o meu sonho em realidade.

Os posts serão semanais e, como não sou escritor, penso que poderei editá-los caso encontre alguma imperfeição ou, melhor, se descobrir no tema algo que vale a pena ser destacado e que poderia estar esquecido.

Boa viagem a todos!

terça-feira, 14 de abril de 2020

Faça, ou não faça... Tentar não serve!



“O fato de milhões de criaturas compartilharem os mesmos vícios não os transformam em virtudes; o fato delas praticarem os mesmos erros não os transformam em verdades e o fato de milhões de criaturas compartilharem a mesma forma de patologia mental (moral, social e comportamental) não torna estas criaturas mentalmente sadias”.
Erich Fromm


segunda-feira, 13 de abril de 2020

Teimosia ou determinação ?

Capitain's Log - Data estelar 13042020.15 - A rotina em uma nave estelar é, ao mesmo tempo, o que garante que chegará ao destino da jornada e o que impedirá. Os procedimentos seguidos à risca são tão necessários quanto a interação social entre os tripulantes. O limite entre a disciplina e a obsessão é fino como a parede de uma bolha de sabão.





Recomeça....

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.

E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances
Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

"Sísifo" - Miguel Torga